Disse Rabi Yehoshua ben Levi: no futuro, o Santo, bendito seja, fará herdar a cada justo (tzadik) trezentos e dez mundos, como está dito (Mishlei 8): “para fazer herdar aos que me amam yesh (substância), e encherei os seus tesouros.” Disse Rabi Shimon ben Chalafta: o Santo, bendito seja, não encontrou recipiente que contivesse bênção para Israel senão a paz, como está dito (Tehilim 29): “o Eterno dará força ao Seu povo; o Eterno abençoará o Seu povo com a paz.”
A última mishná de Massechet Uktzin — e de toda a Mishná — não é uma continuação técnica do assunto do capítulo, mas um encerramento deliberado, no mesmo espírito de outros tratados que fecham suas últimas páginas com uma nota de caráter homilético (agadá) em vez de uma questão legal. O primeiro ensinamento, de Rabi Yehoshua ben Levi, promete a cada justo, no mundo por vir, a herança de trezentos e dez mundos. O Bartenura explica que o número exato deriva de uma leitura numérica (guematria) da palavra yesh em Mishlei 8:21 — cujas letras hebraicas somam trezentos e dez — no versículo “para fazer herdar aos que me amam yesh, e encherei os seus tesouros.” O sentido, segundo os comentadores, não é um número literal de mundos separados, mas uma imagem: o prazer reservado a cada justo no mundo por vir excede, trezentas e dez vezes, tudo o que este mundo inteiro pode oferecer.
O segundo ensinamento, de Rabi Shimon ben Chalafta, é o verdadeiro fecho de toda a obra, e por isso mereceu, tradicionalmente, ser citado como a última frase de toda a Mishná: dentre tudo o que Deus poderia usar como recipiente para conter e transmitir Sua bênção a Israel, Ele não encontrou nada mais apto do que a própria paz (shalom). O versículo citado, de Tehilim 29:11, termina o Salmo que abre com a força e a majestade da voz divina sobre as águas e sobre as nações — e fecha, depois de toda essa força, precisamente com a bênção da paz. Os comentadores associam este ensinamento diretamente ao momento em que ele aparece: encerrando a Mishná inteira, ele ensina que o próprio estudo da Torá — do qual a Mishná é a base — só realiza seu propósito completo quando conduz à paz, e não à discórdia.
Por ter concluído todas as leis da halachá anterior, tal como as detalhou, encerrou as palavras com uma recompensa.
E o sentido de dizer “trezentos e dez mundos”: como se reunissem todos os deleites deste mundo, em sua totalidade, segundo a divisão de suas espécies de prazeres, e depois se multiplicasse essa soma trezentas e dez vezes — isso seria o que chegará a cada um dos justos, dentre os deleites do mundo por vir. Mas o verdadeiro deleite daquele tempo não se pode investigar (por comparação); antes, toda alma há de merecer a vida do mundo por vir e jamais se perderá para sempre — e este é o sentido de “yesh”, isto é, a existência permanente que não se pode investigar, pois “yesh” é a existência, e “ayin” é a inexistência; e é como se dissesse: aos que me amam farei herdar a existência de modo absoluto, sem que haja ali outra existência verdadeira senão a permanência. E extraiu, deste versículo, a grandeza do deleite a título de alusão apenas, e seu número é trezentos e dez, e isto é apenas a título de despertar, pois aquele deleite é grande; mas a verdade é que, assim como não há proporção entre o que se pode investigar e o que não se pode investigar, também não há proporção entre estes deleites que temos e aqueles deleites — e já explicamos algo disto em Massechet Sanhedrin (capítulo 10).
Já concluímos esta obra conforme prometemos; e eu Lhe peço, exaltado seja, e Lhe suplico que nos livre dos erros; e quem nela encontrar algum erro, ou a quem se esclarecer, na explicação de alguma das halachot, uma explicação melhor do que a que eu expliquei, que sobre isso desperte, e me desculpe com a desculpa de que aquilo em que me empenhei não é pouco, nem próximo daquele que tem retribuição e boa recompensa — e mais ainda, tendo-me ocupado disso a todo momento em meio aos gemidos do tempo e ao que Deus decretou sobre nós de exílio e de dispersão pelas terras, de uma extremidade dos céus até a outra extremidade dos céus. E, todavia, esta recompensa — que já veio o exílio para expiar o pecado — sabe Ele, exaltado seja, que algumas halachot eu expliquei durante as viagens do caminho, e algumas coisas eu as escrevi enquanto navegava em barcos pelo Mar Salgado (Mediterrâneo); e é suficiente, neste assunto, esclarecer, para quem examina outras sabedorias, que me dediquei a esta explicação. E aquilo que relatei destas circunstâncias do tempo é porque a composição deste comentário foi o que me obrigou a essa longa demora.
Eu, Moshé bar Maimon, o juiz, filho de Rabi Yossef, o sábio, filho de Yitzchak, o juiz, filho de Yossef, o juiz, filho de Ovadiá, o juiz, filho de Rabi Shlomo, o rabino, filho de Rabi Ovadiá, o juiz, de abençoada memória, comecei a compor este comentário quando tinha vinte e três anos, e o concluí no Egito, quando tinha trinta anos, no ano quinhentos e setenta e nove da era dos documentos (1168 EC). Bendito seja Aquele que dá força ao cansado, e multiplica o vigor aos que não têm força.
“No futuro, o Santo, bendito seja, fará herdar a cada justo, etc.”: apoiou-se este ensinamento aqui, para dar a conhecer, no encerramento da Mishná, a recompensa dos justos, que estudam e cumprem tudo o que está escrito na Mishná.
“Trezentos e dez mundos, como está dito: para fazer herdar aos que me amam yesh”: “yesh”, em guematria, soma exatamente isso: trezentos e dez. Isto é, o prazer e o contentamento que cada justo terá no mundo por vir é trezentas e dez vezes maior do que todo este mundo, pois todo este mundo, em sua totalidade, é apenas uma parte de trezentos e dez daquilo que cada justo tem como herança para o mundo por vir.
Voltaremos a ti, Massechet Uktzin. Com esta décima segunda mishná, encerra-se não apenas o Perek Guimel, mas toda a Massechet Uktzin — o décimo segundo e último tratado de Seder Tehorot, com seus 3 perakim e suas 28 mishnayot.
O tratado percorreu, do início ao fim, os uktzin — pedúnculos, talos, cabos e apêndices das frutas e verduras — e sua relação com a impureza ritual do próprio alimento. O Perek Alef fixou os três graus fundamentais — yad (alça), shomer (protetor) e o que é neutro — e os aplicou a raízes, galhos, buquês e pedúnculos de dezenas de espécies. O Perek Bet avançou para as azeitonas em conserva, os caroços, as cascas e a medida do kabeitzá que une partes separadas de um mesmo alimento. E este Perek Guimel, o último, reuniu os quatro graus de hechsher e machshavá (3:1); a carne cortada de seres vivos e as hortaliças silvestres (3:2); a carcaça de behemá pura e impura (3:3); o endro que perdeu seu sabor e as folhas amargas que precisam adoçar (3:4); as especiarias comparadas com dinheiro de maasser (3:5); os frutos verdes e endurecidos (3:6); o broto da palmeira e as tâmaras verdes (3:7); os peixes, o galho de figueira e a plantação ainda ligada à terra (3:8); a gordura pura e impura (3:9); a colmeia de abelhas como terra ou utensílio (3:10); os favos de mel como líquido (3:11); e, por fim, esta última mishná, sobre os trezentos e dez mundos e a paz como recipiente da bênção (3:12).
Como os demais tratados de Seder Tehorot com exceção de Massechet Nidá, Massechet Uktzin não possui Guemará no Talmud Bavli: é um tratado de mishnayot puras, do início ao fim, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados — e assim permaneceu, com Rambam e Bartenura acompanhando cada uma de suas 28 mishnayot, do Perek Alef ao Perek Guimel.
Com Massechet Uktzin, encerra-se também Seder Tehorot por completo — a sexta e última Ordem da Mishná. Seus doze tratados estão agora publicados por inteiro neste site: Kelim, Ohalot, Negáim, Pará, Tehorot, Mikvaot, Nidá, Machshirin, Zavim, Tevul Yom, Yadayim e, por último, Uktzin. Seder Tehorot é a mais extensa das seis Ordens e a que menos Guemará possui no Talmud Bavli — apenas Massechet Nidá tem debate amoraíco completo — e, ainda assim, seus tratados de mishnayot puras preservam, ponto a ponto, o sistema mais elaborado de toda a literatura rabínica: os graus e categorias da impureza e da pureza ritual, do contágio de um cadáver ao de um simples pedúnculo de fruta.
Com esta mishná, encerra-se toda a Mishná.
Massechet Uktzin é, na ordem tradicional de compilação estabelecida por Rabi Yehudá HaNassi, o último dos sessenta e três tratados da Mishná. Com a publicação desta décima segunda mishná do Perek Guimel, este site conclui a tradução e o comentário — com Rambam e Bartenura em cada mishná, e Rashi e a Guemará onde o Talmud Bavli os possui — das seis Ordens completas: Zeraim (sementes e as leis agrícolas), Moed (as festas e o Shabat), Nashim (o casamento e as relações familiares), Nezikin (os danos, os tribunais e a ética), Kodashim (os sacrifícios e o Templo) e Tehorot (a pureza ritual) — ao todo, as seis Ordens e os sessenta e três tratados que compõem toda a Mishná.
Não por acaso, a última palavra registrada nesta mishná final é shalom — a paz. Segundo Rabi Shimão ben Chalafta, dentre tudo o que existe, Deus não encontrou recipiente mais apto para conter Sua bênção a Israel do que a própria paz; e é com essa mesma palavra que a tradição encerra o estudo de toda a Mishná, no exato ponto em que este site agora também a encerra.