Seder Tehorot · Massechet Uktzin · Perek Bet · Mishná 9 de 10

O pepino que cresceu para fora do vaso: a resposta de Rabi Shimon sobre o que já ficou impuro

קִשּׁוּת שֶׁנְּטָעָהּ בְּעָצִיץ וְהִגְדִּילָה וְיָצְאָה חוּץ לֶעָצִיץ, טְהוֹרָה. אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן, מַה טִּיבָהּ לִטָּהֵר. אֶלָּא הַטָּמֵא בְּטֻמְאָתוֹ, וְהַטָּהוֹר יֵאָכֵל:
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O pepino plantado em vaso não perfurado que cresce para fora dele — e a objeção de Rabi Shimon à lógica da purificação

O pepino que foi plantado em um vaso, e cresceu e saiu para fora do vaso, é puro. Disse Rabi Shimon: qual é a sua natureza para se purificar? Antes, o que está impuro permanece na sua impureza, e o que está puro pode ser comido.

Um vaso de planta não perfurado é considerado, para efeitos de pureza ritual, como um recipiente independente da terra: sementes plantadas nele já contam como destacadas do solo (tlushot), tornando-se suscetíveis à impureza assim que entram em contato com líquido. Se o pepino que cresce nesse vaso ficou impuro enquanto ainda estava dentro dele, a mishná ensina que, ao crescer e se estender para fora do vaso, a parte que ultrapassou a borda passa a ser considerada ligada diretamente à terra — pois já se nutre e suga umidade do solo do lado de fora — e por essa razão, aquela parte externa é declarada pura.

Rabi Shimon contesta a própria lógica dessa regra: como pode uma parte do mesmo pepino, já contaminada em um ponto, tornar-se pura simplesmente por crescer e se afastar dali? Impureza uma vez contraída não desaparece por deslocamento. Sua reformulação é mais precisa: não que a parte externa se purifique, mas que ela nunca chegou a ficar impura, pois no momento em que cresceu para fora do vaso já era como algo ligado ao solo, e por isso permanece pura desde sempre; a parte que ficou dentro do vaso, essa sim, permanece em sua impureza original. Em resumo: o que já é impuro continua impuro, e apenas o que é puro pode ser comido. A halachá não segue Rabi Shimon.

קִשּׁוּת שֶׁנְּטָעָהּ בְּעָצִיץ וְהִגְדִּילָה וְיָצְאָה חוּץ לֶעָצִיץ, טְהוֹרָה. אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן, מַה טִּיבָהּ לִטָּהֵר. אֶלָּא הַטָּמֵא בְּטֻמְאָתוֹ, וְהַטָּהוֹר יֵאָכֵל:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Uktzin 2:9

Quando se planta um pepino em um vaso (não perfurado), ele não se contamina pelo brotar, pois os alimentos só se contaminam depois de destacados da terra, como já explicamos no primeiro capítulo de Machshirin. E disse Rabi Shimão que, quando (a parte) sai dos pepinos para fora do vaso, ela é como algo destacado, e contaminar-se-ia — e é o que ele quis dizer com “o que está impuro permanece na sua impureza, e o que está puro pode ser comido”. E não é halachá como Rabi Shimão.

Bartenura · Uktzin 2:9

“O pepino que foi plantado em um vaso”: não perfurado, e ali se tornou suscetível a receber impureza e se contaminou, pois é considerado como se estivesse destacado (da terra).

“E cresceu e saiu para fora do vaso”: e passa a ser considerado como ligado à terra, pois suga e absorve do solo que está fora do vaso.

“É puro”: pois a impureza se afastou dele desde que saiu para fora do vaso.

“Qual é a sua natureza para se purificar?”: pois, quando recebeu a impureza, era considerado como destacado; portanto, o que está dentro do vaso permanece na sua impureza, e o que cresceu depois e saiu para fora do vaso é puro. E não é halachá como Rabi Shimão.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Uktzin não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.