Seder Tehorot · Massechet Uktzin · Perek Alef · Mishná 1 de 6

Alça (yad) e protetor (shomer): os pedúnculos que transmitem impureza aos alimentos

כֹּל שֶׁהוּא יָד וְלֹא שׁוֹמֵר, מִטַּמֵּא וּמְטַמֵּא וְלֹא מִצְטָרֵף. שׁוֹמֵר, אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ יָד, מִטַּמֵּא וּמְטַמֵּא וּמִצְטָרֵף. לֹא שׁוֹמֵר וְלֹא יָד, לֹא מִטַּמֵּא וְלֹא מְטַמֵּא:
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abertura de Massechet Uktzin: os três graus dos pedúnculos — alça (yad), protetor (shomer) e o que é neutro — e como cada um se relaciona com a contaminação do alimento

Tudo o que é alça e não protetor contamina-se e contamina, mas não se une. O protetor, ainda que não seja alça, contamina-se e contamina e se une. O que não é protetor nem alça não se contamina e não contamina.

Massechet Uktzin, o décimo segundo e último tratado de toda a Mishná, encerra Seder Tehorot dedicando-se aos uktzin — os pedúnculos, talos, cabos e apêndices das frutas e verduras — e à pergunta técnica de como esses apêndices se relacionam com a impureza do alimento ao qual estão ligados. A mishná de abertura fixa os três graus que organizam todo o tratado: yad (alça) é a parte do talo pela qual se segura o alimento para comê-lo, mas que não o protege nem contribui para sua conservação; shomer (protetor) é a parte que protege e conserva o alimento, ainda que não sirva de alça para segurá-lo; e há, por fim, aquilo que não é nem uma coisa nem outra.

A regra estabelece que a alça, por ser tratada halachicamente como extensão do próprio alimento, contamina-se quando o alimento é tocado por impureza, e transmite a impureza ao alimento quando ela mesma é tocada — mas, por não ser alimento, não se une a ele para completar a medida mínima de um ovo (kabeitzá) exigida para que um alimento seja suscetível à impureza. O protetor faz tudo o que a alça faz, e além disso se une ao alimento para completar essa medida, precisamente porque protege e conserva o alimento de modo mais integral. Já o que não é nem alça nem protetor — como um pelo solto sobre a fruta — é inteiramente neutro: não se contamina e não contamina.

כֹּל שֶׁהוּא יָד וְלֹא שׁוֹמֵר, מִטַּמֵּא וּמְטַמֵּא וְלֹא מִצְטָרֵף. שׁוֹמֵר, אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ יָד, מִטַּמֵּא וּמְטַמֵּא וּמִצְטָרֵף. לֹא שׁוֹמֵר וְלֹא יָד, לֹא מִטַּמֵּא וְלֹא מְטַמֵּא:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikra 11:38
וְכִ֤י יֻתַּן־מַ֙יִם֙ עַל־זֶ֔רַע וְנָפַ֥ל מִנִּבְלָתָ֖ם עָלָ֑יו טָמֵ֥א ה֖וּא לָכֶֽם׃
“E se for posta água sobre a semente, e cair sobre ela parte de sua carcaça, ela é impura para vós.”
A expressão “para vós” (lachem) é lida pelos sábios como “para tudo o que vos serve” (lechol she-betzarcheichem) — ensinando que não apenas o próprio alimento, mas também tudo o que lhe é necessário e auxilia seu consumo, como o pedúnculo pelo qual se segura o fruto, recebe e transmite impureza junto com ele. Sobre esta base bíblica constroem o Rambam e o Bartenura toda a distinção entre yad e shomer que abre Massechet Uktzin.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Uktzin 1:1

“Yad” (alça): quer dizer, a madeira ligada aos vegetais comestíveis pela qual o comensal a segura no momento de comer, ou pela qual se pendura o fruto quando se quer guardá-lo — como as peras, as maçãs, as uvas e outras semelhantes a elas; todas essas são chamadas yad.

“Shomer” (protetor): é a coisa que protege o alimento e faz com que ele perdure por certo tempo em razão dela — como a casca das nozes e a casca das amêndoas e outras coisas com casca. E também, se a coisa comestível cresce numa árvore envolta por algo, como o pedúnculo das tâmaras sobre o qual estão os caroços das tâmaras, e o pedúnculo das uvas sobre o qual estão as sementes das uvas — isso também é shomer. E o que há nos pedúnculos além do alimento, sem que haja semente sobre ele, pertence à categoria das alças.

E o Santo, bendito seja, disse a respeito das impurezas das sementes (Vayikrá 11): “e se cair de sua carcaça sobre qualquer semente que se costuma semear, é impura para vós” — e veio a explicação: “para vós” quer dizer “para tudo o que vos serve”, isto é, tudo o que vos é necessário e vos auxilia, como as extremidades pelas quais se segura no momento de comer — eis que estas se contaminam como se contaminam aquelas plantas.

E a conclusão na Guemará, após grande debate e provas a partir dos versículos, é que elas se contaminam e contaminam — quer dizer, quando o próprio alimento se contamina, sua extremidade, que é a alça, se contamina; e quando essa extremidade que nos auxilia se contamina por ter tocado a impureza, a própria planta, o corpo do alimento, se contamina — e este é o sentido de dizer “contamina-se e contamina”: a alça se contamina quando o alimento se contamina, e o alimento se contamina quando a alça se contamina.

E já que esta lei se estabeleceu quanto às alças dos alimentos porque está dito “é impura para vós”, como explicamos, e encontramos que o versículo também diz, a respeito da impureza das sementes, “e se cair de sua carcaça sobre qualquer semente que se costuma semear” — e não havia necessidade de dizer “que se costuma semear” à primeira vista, pois toda semente, sem dúvida, se semeia — veio a tradição dizer que o sentido é que ela também contamina, à semelhança das folhas, pois é costume das pessoas tirarem aquela coisa assim para a semeadura; e disseram: “do modo como as pessoas tiram para semear o trigo em sua casca, a cevada em sua casca e as lentilhas em sua casca” — e isto é o shomer, como explicamos.

E depois dissemos: por que precisou o versículo aludir-nos que os protetores se contaminam, se as alças dos alimentos, que não protegem as sementes nem são causa de sua permanência, já dissemos que se contaminam quando o alimento se contamina e o alimento se contamina quando elas se contaminam — quanto mais as cascas, que estão coladas ao alimento e são a causa de sua permanência e proteção, que se contaminam? E veio a tradição e disse que a intenção de aludir a elas é nos informar que elas se unem — e quando há o volume de um ovo entre o alimento e sua casca, ela contamina outras coisas com a impureza dos alimentos, como já se explicou outras vezes.

E ficou claro, a partir disto, que as alças se contaminam a partir do alimento, e o alimento se contamina a partir delas, mas elas não se unem ao alimento para completarem juntas o volume de um ovo e contaminarem outra coisa; mas os protetores, ainda que se contaminem e causem contaminação como as alças, acrescentam sobre as alças o fato de se unirem ao alimento para completar a medida, isto é, o volume de um ovo. E não havia necessidade de dizer “não se contamina, não contamina, e não se une”, porque isto é muitíssimo evidente, já que as alças, que se contaminam e contaminam, não se unem — quanto mais aquilo de que se diz “não se contamina e não contamina”, que não se une.

Bartenura · Uktzin 1:1

“Tudo o que é alça”: a madeira ligada ao fruto, que a pessoa segura enquanto come o fruto — como os pedúnculos de maçãs, uvas e peras — são chamados alças. E do mesmo modo, o osso que tem carne na ponta, e a pessoa segura o osso para comer a carne que está na ponta, o osso é alça para a carne.

“E não protetor”: para excluir a parte do pedúnculo que toca o fruto e está colada à semente, pois essa parte é protetora do fruto.

“Contamina-se”: a alça — e mesmo que não seja própria para o consumo — se a impureza tocou o alimento, pois a alça é considerada ligada ao alimento, como se fosse um único corpo.

“E contamina”: se a impureza tocou a alça, o alimento se contamina, ainda que a impureza não tenha tocado o alimento. E nossos mestres o aprenderam da Escritura, pois está escrito (Vayikrá 11): “e se cair de sua carcaça sobre qualquer semente que se costuma semear... é impura para vós” — “para tudo o que vos serve” — isto é, toda coisa necessária ao alimento recebe impureza como ele, e se contamina junto com ele.

“E não se une”: se o alimento era menor que o volume de um ovo — pois não há impureza de alimentos em menos do que o volume de um ovo — a alça do alimento não se une a ele para completar a medida.

“Protetor, ainda que não seja alça”: como a casca do fruto, que o protege para que não se estrague.

“Contamina-se, contamina e se une”: porque está escrito “sobre qualquer semente que se costuma semear” — e o que significa “que se costuma semear”? Do modo como as pessoas costumam tirá-las para a semeadura: o trigo em sua casca, a cevada em sua casca — isto é, com seu protetor. Para que precisaria o versículo? Se fosse apenas para “contamina-se e contamina”, já a alça do fruto se contamina e contamina, como aprendemos de “para vós, para tudo o que vos serve” — o protetor seria necessário? Logo, o versículo veio apenas para ensinar que ele se une ao alimento — pois a alça não se une a ele, mas o protetor se une a ele.

“E tudo o que não é alça nem protetor”: como o pelo que há nas frutas.

“Não se contamina e não contamina”: e nem é preciso dizer que não se une.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Uktzin não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.