Seder Tehorot · Massechet Tevul Yom · Perek Dálet · Mishná 5 de 7

Do resgate do maasser sheni e do get escrito a caminho da execução

בָּרִאשׁוֹנָה הָיוּ אוֹמְרִים, מְחַלְּלִין עַל פֵּרוֹת עַם הָאָרֶץ. חָזְרוּ לוֹמַר, אַף עַל מְעוֹתָיו. בָּרִאשׁוֹנָה הָיוּ אוֹמְרִים, הַיּוֹצֵא בַקּוֹלָר וְאָמַר, כִּתְבוּ גֵט לְאִשְׁתִּי, הֲרֵי אֵלּוּ יִכְתְּבוּ וְיִתְּנוּ. חָזְרוּ לוֹמַר, אַף הַמְפָרֵשׁ וְהַיּוֹצֵא בִשְׁיָרָא. רַבִּי שִׁמְעוֹן שְׁזוּרִי אוֹמֵר, אַף הַמְסֻכָּן:
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Duas halachot na fórmula “no começo diziam... voltaram a dizer”: o resgate do maasser sheni sobre frutos e dinheiro do am-haaretz, e o get escrito para quem é levado à execução, embarca ou viaja em caravana

No começo diziam: resgatam (o maasser sheni) sobre os frutos do am-haaretz. Voltaram a dizer: também sobre seu dinheiro. No começo diziam: aquele que sai para a execução e disse “escrevam um get para minha mulher”, eis que estes o escrevem e o entregam. Voltaram a dizer: também aquele que embarca no mar e aquele que sai em caravana. Rabi Shimon Shezuri diz: também aquele em perigo (mesucan).

A partir desta mishná, o Perek Dálet se afasta de vez das leis próprias do tevul yom e passa a reunir, na fórmula característica “no começo diziam... voltaram a dizer” (bારishoná hayu omrim... chazrú lomar), halachot de outros assuntos que a tradição preservou em conjunto no fim do tratado — um fenômeno conhecido na Mishná, em que certas coleções de ensinamentos (aqui, compartilhadas com Massechet Eduyot) são anexadas ao final de um tratado já concluído em seu tema principal, como a mishná seguinte, citando Rabi Yehoshua, reconhece abertamente.

O primeiro caso trata do resgate do maasser sheni (segundo dízimo, que deve ser consumido em Jerusalém ou resgatado por dinheiro de valor equivalente): inicialmente, os sábios permitiam resgatá-lo apenas sobre frutos pertencentes a um am-haaretz — pessoa que não é cuidadosa quanto às leis de pureza e dízimos —, sem temer que esses frutos já fossem, eles mesmos, maasser (o que tornaria o resgate inválido, pois algo consagrado não resgata outra coisa consagrada). Depois, ampliaram a permissão também ao dinheiro do am-haaretz, sem temer que fosse, ele mesmo, dinheiro de maasser sheni já resgatado.

O segundo caso trata de um homem levado acorrentado à execução, que pede que se escreva um get (documento de divórcio) para sua esposa: inicialmente os sábios validavam apenas essa hipótese extrema, entendendo que, mesmo sem dizer explicitamente “entreguem”, sua intenção evidente era garantir o divórcio para que ela não ficasse presa (aguná) sem poder se casar novamente. Depois, estenderam a mesma validade a quem embarca numa viagem marítima ou parte em caravana pelo deserto — situações de risco menos extremo, mas ainda assim reais. Rabi Shimon Shezuri acrescenta ainda o caso do doente gravemente enfermo (mesucan), cuja condição inspira o mesmo temor.

בָּרִאשׁוֹנָה הָיוּ אוֹמְרִים, מְחַלְּלִין עַל פֵּרוֹת עַם הָאָרֶץ. חָזְרוּ לוֹמַר, אַף עַל מְעוֹתָיו. בָּרִאשׁוֹנָה הָיוּ אוֹמְרִים, הַיּוֹצֵא בַקּוֹלָר וְאָמַר, כִּתְבוּ גֵט לְאִשְׁתִּי, הֲרֵי אֵלּוּ יִכְתְּבוּ וְיִתְּנוּ. חָזְרוּ לוֹמַר, אַף הַמְפָרֵשׁ וְהַיּוֹצֵא בִשְׁיָרָא. רַבִּי שִׁמְעוֹן שְׁזוּרִי אוֹמֵר, אַף הַמְסֻכָּן:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Tevul Yom 4:5

Depois de mencionar algumas questões de terumot e maasserot e as halachot que nelas se renovaram, disse: no começo permitiam resgatar o maasser sheni (segundo dízimo) apenas sobre os frutos do am-haaretz (pessoa não cuidadosa com as leis de pureza e dízimos), e não nos preocupávamos em dizer que talvez esses frutos já fossem maasser — pois algo sagrado não resgata outra coisa sagrada. Depois ampliaram a permissão e disseram que também é permitido resgatar os frutos do maasser sobre o dinheiro do am-haaretz, sem nos preocuparmos em dizer que talvez aquele dinheiro já fosse dinheiro de maasser.

“Aquele que sai para a execução” (yotzei ba-kolar): aquele cujas mãos saem acorrentadas, quando disse “escrevam” — e ainda que não tenha dito “entreguem”, escrevem e entregam, porque o simples sentido do caso indica que ele quer divorciá-la, para que ela não permaneça aguná (presa ao casamento, sem poder se casar novamente).

“Aquele que embarca” (hamefaresh): aquele que vai de navio no Mar Morto (em alto mar). “E sai em caravana”: aquele que vai pelo deserto — Targum de (Bereshit 37:25) “caravana de ismaelitas” é “caravana dos árabes”.

“Aquele em perigo” (mesucan): o doente cuja enfermidade se agravou. E a halachá segue Rabi Shimon Shezuri.

Bartenura · Tevul Yom 4:5

“Resgatam sobre os frutos do am-haaretz”: resgatam o maasser sheni sobre os frutos do am-haaretz, e não se preocupam que talvez os frutos do am-haaretz já sejam maasser, e se venha a resgatar maasser com maasser.

“Voltaram a dizer também sobre o dinheiro”: do am-haaretz, resgatam os frutos do maasser sheni, e não se preocupam que talvez aquele dinheiro do am-haaretz já seja dinheiro de maasser sheni.

“Aquele que sai em kolar”: em correntes — Targum de “e o puseram na gaiola” (Yechezkel 19) é “e o puseram em correntes” (kolarin).

“Eis que estes o escrevem e o entregam”: e ainda que não tenha dito “entreguem”, certamente queria dizer “escrevam e entreguem”, e por causa de seu pavor não completou suas palavras.

“Aquele que embarca”: (sai) da terra firme para o mar. “Em caravana”: no deserto — “caravana de ismaelitas” (Bereshit 37) traduzimos “caravana dos árabes”.

“Também aquele em perigo”: o doente que se inclina para a morte. E a halachá segue Rabi Shimon Shezuri.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Tevul Yom não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.