Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Dalet · Mishná 1 de 8

Os três momentos da bênção sacerdotal quádrupla

בִּשְׁלשָׁה פְרָקִים בַּשָּׁנָה כֹּהֲנִים נוֹשְׂאִין אֶת כַּפֵּיהֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o último perek de Massechet Taanit, a mishná identifica três ocasiões especiais do calendário em que os sacerdotes erguem as mãos para a Bênção Sacerdotal quatro vezes num único dia — o dobro do normal — e nomeia essas ocasiões, que servirão de fio condutor para o restante do perek.

Em três momentos do ano os sacerdotes erguem as mãos quatro vezes no dia: na oração da manhã, na adicional, na da tarde e no fechamento dos portões — nos jejuns, nos turnos leigos e em Yom Kipur.Normalmente a Bênção Sacerdotal é recitada apenas na oração da manhã e, quando há oferenda adicional, também nela. Mas em três tipos especiais de dia — os jejuns comunitários decretados por falta de chuva, os dias do turno leigo (maamad) que se reúnem em suas cidades para representar o povo diante da oferenda diária, e Yom Kipur — soma-se uma quarta ocasião: a oração de neilá, o fechamento dos portões ao entardecer, presente apenas nesses dias de intensidade espiritual excepcional, elevando o total de bênçãos sacerdotais naquele dia a quatro.

בִּשְׁלשָׁה פְרָקִים בַּשָּׁנָה כֹּהֲנִים נוֹשְׂאִין אֶת כַּפֵּיהֶן אַרְבַּע פְּעָמִים בַּיּוֹם, בַּשַּׁחֲרִית, בַּמּוּסָף וּבַמִּנְחָה וּבִנְעִילַת שְׁעָרִים, בַּתַּעֲנִיּוֹת וּבַמַּעֲמָדוֹת וּבְיוֹם הַכִּפּוּרִים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bamidbar 6:23-27
כֹּה תְבָרְכוּ אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל, אָמוֹר לָהֶם. יְבָרֶכְךָ ה' וְיִשְׁמְרֶךָ. יָאֵר ה' פָּנָיו אֵלֶיךָ וִיחֻנֶּךָּ. יִשָּׂא ה' פָּנָיו אֵלֶיךָ וְיָשֵׂם לְךָ שָׁלוֹם. וְשָׂמוּ אֶת שְׁמִי עַל בְּנֵי יִשְׂרָאֵל, וַאֲנִי אֲבָרְכֵם.
Assim abençoareis os filhos de Israel, dizendo-lhes: Que o Eterno te abençoe e te guarde. Que o Eterno faça resplandecer Seu rosto sobre ti e te conceda graça. Que o Eterno erga Seu rosto para ti e te dê paz. E porão Meu nome sobre os filhos de Israel, e Eu os abençoarei.

A Torá institui a Bênção Sacerdotal como ato performático dos sacerdotes — "assim abençoareis", no imperativo — sem, contudo, fixar quantas vezes ao dia ela deve ser proferida. É esse espaço que a mishná preenche, ligando a intensidade da bênção à intensidade espiritual do próprio dia: um dia comum recebe a bênção apenas na oração da manhã; um dia com oferenda adicional, mais uma vez; mas os três tipos de dia mencionados nesta mishná — jejum comunitário, turno leigo e Yom Kipur — são momentos em que a súplica coletiva atinge seu ápice, estendendo-se até o pôr do sol na oração de neilá, e por isso merecem a bênção sacerdotal repetida uma quarta vez, reafirmando a promessa final do verso: "e Eu os abençoarei", como se a intensidade humana do dia convidasse uma resposta divina proporcional.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam remete à Guemará para a razão de cada um dos três momentos; Bartenura esclarece a estrutura lógica da frase de abertura da mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 4:1
בשלשה פרקים בשנה כהנים נושאין את כפיהן כו': שיעור זו המשנה כך בשלשה פרקים הכהנים נושאים את כפיהם ארבע פעמים ביום ואלו הג' פרקים הם התעניות והמעמדות ויום הכפורים וטעם זה מבואר בגמרא:

"Em três momentos do ano os sacerdotes erguem as mãos, etc." — o sentido desta mishná é: em três momentos os sacerdotes erguem as mãos quatro vezes no dia, e esses três momentos são os jejuns, os turnos leigos e Yom Kipur; e a razão disso é explicada na Guemará.

Bartenura · Taanit 4:1
בִּשְׁלֹשָׁה פְרָקִים בַּשָּׁנָה וְכוּ'. הָכִי קָאָמַר, בִּשְׁלֹשָׁה פְרָקִים, שֶׁהֵם תַּעֲנִיּוֹת וּמַעֲמָדוֹת וְיוֹם הַכִּפּוּרִים, כֹּהֲנִים נוֹשְׂאִים אֶת כַּפֵּיהֶם אַרְבַּע פְּעָמִים בַּיּוֹם:

"Em três momentos do ano, etc." — o sentido é este: em três momentos, que são os jejuns, os turnos leigos e Yom Kipur, os sacerdotes erguem as mãos quatro vezes naquele dia — a ordem das palavras da mishná deve ser lida com essa estrutura lógica invertida para se compreender corretamente.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi identifica a oração de neilá com a tradição do Talmud Yerushalmi e nota que se rezava essa quarta oração em todos os jejuns comunitários, à semelhança de Yom Kipur.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 26a — o sentido de neilat shearim e sua presença em todo jejum comunitário
מתני' בשלשה פרקים במוסף – מפרש בגמרא: נעילת שערים – מפורש בברכות ירושלמי בפרק תפלת השחר אימתי נעילה יש אומרים נעילת שערי מקדש וי"א נעילת שערי שמים שנועלים אותן לעת ערב בגמר תפלה ונוהגין היו להתפלל תפלת נעילה בכל תעניתם כדרך שמתפללין ביוהכ"פ:

"A mishná: em três momentos, na oração adicional" — a razão exata é explicada na Guemará. "Fechamento dos portões" — explicado no Talmud Yerushalmi, tratado de Berachot, capítulo da oração da manhã: quando é o momento de neilá? Alguns dizem que se refere ao fechamento dos portões do Templo; outros dizem que se refere ao fechamento dos portões celestiais, que se fecham ao entardecer no término da oração — e era costume rezar a oração de neilá em todos os jejuns comunitários, do mesmo modo como se reza em Yom Kipur, o que explica por que a mishná agrupa esses dias tão distintos entre si sob o mesmo denominador da quarta bênção sacerdotal.