Em três momentos do ano os sacerdotes erguem as mãos quatro vezes no dia: na oração da manhã, na adicional, na da tarde e no fechamento dos portões — nos jejuns, nos turnos leigos e em Yom Kipur. — Normalmente a Bênção Sacerdotal é recitada apenas na oração da manhã e, quando há oferenda adicional, também nela. Mas em três tipos especiais de dia — os jejuns comunitários decretados por falta de chuva, os dias do turno leigo (maamad) que se reúnem em suas cidades para representar o povo diante da oferenda diária, e Yom Kipur — soma-se uma quarta ocasião: a oração de neilá, o fechamento dos portões ao entardecer, presente apenas nesses dias de intensidade espiritual excepcional, elevando o total de bênçãos sacerdotais naquele dia a quatro.
A Torá institui a Bênção Sacerdotal como ato performático dos sacerdotes — "assim abençoareis", no imperativo — sem, contudo, fixar quantas vezes ao dia ela deve ser proferida. É esse espaço que a mishná preenche, ligando a intensidade da bênção à intensidade espiritual do próprio dia: um dia comum recebe a bênção apenas na oração da manhã; um dia com oferenda adicional, mais uma vez; mas os três tipos de dia mencionados nesta mishná — jejum comunitário, turno leigo e Yom Kipur — são momentos em que a súplica coletiva atinge seu ápice, estendendo-se até o pôr do sol na oração de neilá, e por isso merecem a bênção sacerdotal repetida uma quarta vez, reafirmando a promessa final do verso: "e Eu os abençoarei", como se a intensidade humana do dia convidasse uma resposta divina proporcional.
Rambam remete à Guemará para a razão de cada um dos três momentos; Bartenura esclarece a estrutura lógica da frase de abertura da mishná.
"Em três momentos do ano os sacerdotes erguem as mãos, etc." — o sentido desta mishná é: em três momentos os sacerdotes erguem as mãos quatro vezes no dia, e esses três momentos são os jejuns, os turnos leigos e Yom Kipur; e a razão disso é explicada na Guemará.
"Em três momentos do ano, etc." — o sentido é este: em três momentos, que são os jejuns, os turnos leigos e Yom Kipur, os sacerdotes erguem as mãos quatro vezes naquele dia — a ordem das palavras da mishná deve ser lida com essa estrutura lógica invertida para se compreender corretamente.
Rashi identifica a oração de neilá com a tradição do Talmud Yerushalmi e nota que se rezava essa quarta oração em todos os jejuns comunitários, à semelhança de Yom Kipur.
"A mishná: em três momentos, na oração adicional" — a razão exata é explicada na Guemará. "Fechamento dos portões" — explicado no Talmud Yerushalmi, tratado de Berachot, capítulo da oração da manhã: quando é o momento de neilá? Alguns dizem que se refere ao fechamento dos portões do Templo; outros dizem que se refere ao fechamento dos portões celestiais, que se fecham ao entardecer no término da oração — e era costume rezar a oração de neilá em todos os jejuns comunitários, do mesmo modo como se reza em Yom Kipur, o que explica por que a mishná agrupa esses dias tão distintos entre si sob o mesmo denominador da quarta bênção sacerdotal.