Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Guimel · Mishná 9 de 9 (última do perek)

O jejum em Lod e o Hallel Grande

הָיוּ מִתְעַנִּין וְיָרְדוּ לָהֶם גְּשָׁמִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Guimel, a mishná define o ponto exato do dia em que a chuva, caindo durante um jejum já decretado, dispensa seu término, com a posição mais generosa de Rabi Eliezer, e ilustra a regra com um episódio em Lod, no qual Rabi Tarfon transforma o fim abrupto do jejum em celebração festiva.

Estavam jejuando, e caiu-lhes chuva antes do nascer do sol — não completam o jejum. Depois do nascer do sol — completam. Rabi Eliezer diz: antes do meio-dia não completam; depois do meio-dia, completam.Se a comunidade já havia iniciado um jejum decretado por falta de chuva, e a chuva finalmente cai ainda antes do amanhecer daquele mesmo dia, o jejum é considerado desnecessário desde o início e não precisa ser completado; se a chuva só vem depois que o sol já nasceu, o jejum daquele dia, já iniciado com plena obrigação, deve ser completado até o fim, mesmo que a resposta tenha chegado. Rabi Eliezer amplia a margem de dispensa: para ele, o critério não é o nascer do sol, mas o meio-dia — chuva a qualquer momento da manhã ainda dispensa o jejum, e só a partir do meio-dia ele passa a ser obrigatório de completar.

Aconteceu que decretaram jejum em Lod, e caiu-lhes chuva antes do meio-dia. Disse-lhes Rabi Tarfon: saí, comei, bebei e fazei dia festivo. E saíram, e comeram, e beberam, e fizeram dia festivo, e à tarde vieram e recitaram o Hallel Grande.O episódio ilustra na prática a posição de Rabi Eliezer: quando a chuva chegou em Lod ainda pela manhã, antes do meio-dia, Rabi Tarfon — seguindo esse critério mais generoso — não apenas dispensou o jejum, mas instruiu a comunidade a celebrar ativamente, como se fosse um dia festivo, com comida e bebida; e à tarde, reunidos novamente, encerraram o dia recitando o Hallel Grande, a série de salmos de louvor reservada às ocasiões de gratidão mais solene.

הָיוּ מִתְעַנִּין וְיָרְדוּ לָהֶם גְּשָׁמִים קֹדֶם הָנֵץ הַחַמָּה, לֹא יַשְׁלִימוּ. לְאַחַר הָנֵץ הַחַמָּה, יַשְׁלִימוּ. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, קֹדֶם חֲצוֹת לֹא יַשְׁלִימוּ, לְאַחַר חֲצוֹת יַשְׁלִימוּ. מַעֲשֶׂה שֶׁגָּזְרוּ תַעֲנִית בְּלוֹד, וְיָרְדוּ לָהֶם גְּשָׁמִים קֹדֶם חֲצוֹת. אָמַר לָהֶם רַבִּי טַרְפוֹן, צְאוּ וְאִכְלוּ וּשְׁתוּ וַעֲשׂוּ יוֹם טוֹב. וְיָצְאוּ וְאָכְלוּ וְשָׁתוּ וְעָשׂוּ יוֹם טוֹב, וּבָאוּ בֵּין הָעַרְבַּיִם וְקָרְאוּ הַלֵּל הַגָּדוֹל:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Tehilim 136:1 e 25
הוֹדוּ לַה' כִּי טוֹב, כִּי לְעוֹלָם חַסְדּוֹ... נֹתֵן לֶחֶם לְכָל בָּשָׂר, כִּי לְעוֹלָם חַסְדּוֹ.
Agradecei ao Eterno, porque Ele é bom, porque para sempre é Sua benevolência... Que dá pão a toda carne, porque para sempre é Sua benevolência.

Este salmo, que abre e encerra com o refrão "porque para sempre é Sua benevolência", é identificado pela tradição como o "Hallel Grande" recitado pela comunidade de Lod ao final do episódio — um salmo estruturado como uma longa enumeração de atos de bondade divina, da criação do mundo à provisão diária de pão para toda criatura. A escolha deste salmo específico, e não do Hallel comum recitado nas festas, sinaliza algo sobre a natureza da gratidão exigida pela ocasião: não apenas alegria pela chuva recebida, mas reconhecimento explícito de que o sustento básico — "pão a toda carne" — depende inteiramente da benevolência contínua de D'us, tema que ecoa precisamente a súplica por chuva que motivou o jejum original. Rabi Tarfon, ao transformar o fim do jejum em celebração com este salmo, ensina que a resposta adequada a uma oração atendida não é apenas o alívio, mas a gratidão formal e pública.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam identifica o texto exato do Hallel Grande e explica por que ele exige estômago saciado, decidindo a halachá como Rabi Eliezer; Bartenura confirma essa decisão de forma sucinta.

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 3:9
היו מתענין וירדו להם גשמים קודם הנץ החמה כו': הלל הגדול הוא מהודו לה' כי טוב עד שיר המעלות ומה שחייבם שלא קראו הלל הגדול עד שאכלו ושתו כי העיקר אצלנו אין אומרים הלל הגדול אלא בנפש שביעה וכרס מלאה והלכה כרבי אלעזר:

"Estavam jejuando, e caiu-lhes chuva antes do nascer do sol, etc." — o Hallel Grande é o salmo que vai de "Agradecei ao Eterno, porque Ele é bom" até "Cântico das Subidas" [Tehilim 136]. E o que os obrigou a não recitar o Hallel Grande antes de terem comido e bebido é que o princípio entre nós é que não se recita o Hallel Grande senão com a alma saciada e o estômago cheio. E a halachá segue Rabi Eliezer.

Bartenura · Taanit 3:9
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר קֹדֶם חֲצוֹת לֹא יַשְׁלִימוּ. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר:

"Rabi Eliezer diz: antes do meio-dia não completam" — e a halachá segue Rabi Eliezer, cujo critério do meio-dia, mais generoso que o do primeiro tanna, é o que orienta o episódio de Lod narrado na sequência da mishná.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica o fundamento técnico de cada critério temporal e a razão pela qual o Hallel Grande é associado à provisão de pão a toda criatura.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 19a — os critérios do nascer do sol e do meio-dia, e o sentido do Hallel Grande
קודם הנץ החמה לא ישלימו – דאכתי לא חל עלייהו תענית כי נחתי גשמים: קודם חצות – דחצות זמן אכילה היא מחצות ואילך חל התענית כיון שלא סעדו בשעת סעודה: ועשו יו"ט – מתוך שמחה: הלל הגדול – הודו לאלהי האלהים כי לעולם חסדו ומפני שנאמר בו נותן לחם לכל בשר כדאמרינן בשילהי פסחים:

"Antes do nascer do sol não completam" — porque a obrigação do jejum ainda não havia recaído sobre eles quando a chuva desceu, já que o jejum daquele dia só se estabelece plenamente ao amanhecer. "Antes do meio-dia" — porque o meio-dia é o horário normal da refeição, e a partir do meio-dia em diante já recai sobre eles a obrigação do jejum, uma vez que não fizeram a refeição na hora costumeira — Rabi Eliezer estende assim a janela de dispensa até esse ponto, mais tarde que o simples nascer do sol. "E fizeram dia festivo" — por causa da alegria da chuva recebida. "Hallel Grande" — "Agradecei ao D'us dos deuses, porque para sempre é Sua benevolência" [Tehilim 136], e o motivo de ser este o salmo escolhido, e não outro, é que nele se diz "que dá pão a toda carne" — como se explica ao final de Pessachim — associando diretamente o louvor pela chuva recebida à provisão universal do sustento, o tema central que percorre todo este salmo de dezenas de versos.

Aqui se completa o Perek Guimel — nove mishnayot que estenderam o sistema de jejuns comunitários da falta de chuva a um leque muito mais amplo de calamidades: a vegetação alterada e a pausa de quarenta dias que dispensam a escala gradual (3:1); a chuva insuficiente para as reservas subterrâneas de água (3:2); a cidade privada de chuva enquanto as vizinhas recebem, lida à luz do verso de Amós (3:3); a peste e o desmoronamento, com o critério numérico de três mortes em três dias (3:4); as seis calamidades itinerantes que justificam clamor em qualquer lugar — praga, mofo, gafanhoto, lagarta, fera e espada (3:5); o episódio histórico do mofo em Ashkelon e dos lobos na Transjordânia (3:6); o clamor excepcionalmente permitido em Shabat para cidade cercada, rio e navio em perigo (3:7); a regra geral de clamor sobre toda calamidade, exceto o excesso de chuva, culminando na extraordinária história de Choni HaMe'agel e seu círculo (3:8); e, por fim, os critérios temporais que dispensam ou exigem completar um jejum interrompido pela chuva, e o episódio de Lod encerrado com o Hallel Grande (3:9). O tratado prossegue no Perek Dalet, o último de Massechet Taanit, que trata dos turnos sacerdotais, dos jejuns fixos em memória da destruição do Templo e das alegrias de Tu BeAv e Yom Kipur.