Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Dalet · Mishná 2 de 8

A instituição dos Maamadot

אֵלּוּ הֵן מַעֲמָדוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná explica o que são os "turnos leigos" mencionados na mishná anterior: uma instituição profética que resolve o problema de como a oferenda diária, comprada com o dinheiro de todo o povo, pode ser considerada oferecida por cada indivíduo que não está fisicamente presente para vê-la ser sacrificada.

Estes são os turnos leigos: como está dito, "ordena aos filhos de Israel e dize-lhes: minha oferenda, meu pão" — e como pode a oferenda de um homem ser sacrificada sem que ele esteja junto dela? Os primeiros profetas instituíram vinte e quatro turnos.O verso de Bamidbar estabelece que a oferenda diária é literalmente "a oferenda" de cada israelita individualmente, financiada por sua contribuição ao Templo, o que gera uma dificuldade: como pode algo ser considerado oferenda pessoal de alguém que sequer está presente no momento do sacrifício? Para resolver essa tensão, os profetas Shmuel e David, os "primeiros profetas", instituíram vinte e quatro turnos sacerdotais rotativos, cada um servindo por uma semana ao longo do ano.

Para cada turno havia um turno leigo correspondente em Jerusalém, de sacerdotes, de levitas e de israelitas. Ao chegar o tempo do turno de subir, os sacerdotes e levitas sobem a Jerusalém, e os israelitas daquele turno se reúnem em suas cidades e leem sobre a obra da Criação.Paralelamente aos vinte e quatro turnos sacerdotais, foram instituídos vinte e quatro turnos leigos correspondentes, também compostos de sacerdotes, levitas e israelitas comuns, que representavam simbolicamente todo o povo diante da oferenda diária. Quando chegava a semana de determinado turno sacerdotal servir no Templo, seus sacerdotes e levitas subiam efetivamente a Jerusalém para a atividade litúrgica, enquanto os israelitas atribuídos àquele mesmo turno, em vez de subir todos fisicamente, permaneciam reunidos em suas próprias cidades espalhadas por Eretz Yisrael, lendo publicamente a passagem da Criação do mundo — presença espiritual substituindo a presença física, para que ninguém ficasse sem representação junto à oferenda oferecida em seu nome.

אֵלּוּ הֵן מַעֲמָדוֹת, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר (במדבר כח) צַו אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְאָמַרְתָּ אֲלֵהֶם אֶת קָרְבָּנִי לַחְמִי, וְכִי הֵיאַךְ קָרְבָּנוֹ שֶׁל אָדָם קָרֵב, וְהוּא אֵינוֹ עוֹמֵד עַל גַּבָּיו, הִתְקִינוּ נְבִיאִים הָרִאשׁוֹנִים עֶשְׂרִים וְאַרְבַּע מִשְׁמָרוֹת. עַל כָּל מִשְׁמָר וּמִשְׁמָר הָיָה מַעֲמָד בִּירוּשָׁלַיִם שֶׁל כֹּהֲנִים, שֶׁל לְוִיִּם, וְשֶׁל יִשְׂרְאֵלִים. הִגִּיעַ זְמַן הַמִּשְׁמָר לַעֲלוֹת, כֹּהֲנִים וּלְוִיִּם עוֹלִים לִירוּשָׁלַיִם, וְיִשְׂרָאֵל שֶׁבְּאוֹתוֹ מִשְׁמָר מִתְכַּנְּסִין לְעָרֵיהֶן וְקוֹרְאִין בְּמַעֲשֵׂה בְרֵאשִׁית:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bamidbar 28:2-3
צַו אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְאָמַרְתָּ אֲלֵהֶם, אֶת קָרְבָּנִי לַחְמִי לְאִשַּׁי רֵיחַ נִיחֹחִי, תִּשְׁמְרוּ לְהַקְרִיב לִי בְּמוֹעֲדוֹ. וְאָמַרְתָּ לָהֶם, זֶה הָאִשֶּׁה אֲשֶׁר תַּקְרִיבוּ לַה', כְּבָשִׂים בְּנֵי שָׁנָה תְמִימִם שְׁנַיִם לַיּוֹם, עֹלָה תָמִיד.
Ordena aos filhos de Israel, e dize-lhes: Minha oferenda, meu pão para Minhas ofertas ígneas, de aroma agradável para Mim, guardareis para Me oferecer a seu tempo determinado. E lhes dirás: Esta é a oferenda ígnea que oferecereis ao Eterno: cordeiros de um ano, sem defeito, dois por dia, holocausto contínuo.

O verso usa uma linguagem de posse pessoal impressionante — "Minha oferenda, meu pão" — atribuindo o sacrifício coletivo diário diretamente a D'us, mas a mishná lê nele também a contrapartida: se é oferenda "de" Israel, coletivamente, então em algum sentido ela pertence a cada israelita individualmente, como sua própria oferenda pessoal. É dessa leitura que nasce a pergunta retórica da mishná — como pode a oferenda de alguém ser trazida sem que ele esteja presente? — e a resposta engenhosa dos primeiros profetas: criar uma estrutura de representação rotativa que garante que, a cada momento do ano, algum grupo de israelitas, ainda que fisicamente em suas cidades distantes, esteja espiritualmente "presente junto" à oferenda oferecida em Jerusalém, através da oração e da leitura da Criação — o relato bíblico da origem de tudo que também fundamenta, simbolicamente, a existência contínua do mundo sustentada por esse mesmo sacrifício diário.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam esclarece o sentido amplo do termo maamad; Bartenura explica por que a pergunta retórica da mishná justifica precisamente a instituição descrita.

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 4:2
אלו הן מעמדות לפי שנאמר צו את בני ישראל כו': כבר נתבאר לך מזה הלשון כי מלת מעמד כוללת משמרות הכהנים ומשמרות הלוים ומעמד ישראל וזה מבואר במשנתנו זאת:

"Estes são os turnos leigos, como está dito: ordena aos filhos de Israel, etc." — já se explicou a partir desta linguagem que a palavra maamad abrange tanto os turnos dos sacerdotes quanto os turnos dos levitas e o turno dos israelitas — e isso está claro nesta nossa mishná, que descreve as três categorias reunidas sob o mesmo sistema de rotação.

Bartenura · Taanit 4:2
אֵלּוּ הֵן מַעֲמָדוֹת. מַה טַּעַם קָאָמַר, מַה טַּעַם תִּקְּנוּ מַעֲמָדוֹת, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר צַו אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְגוֹ':

"Estes são os turnos leigos" — a mishná está respondendo a uma pergunta implícita de razão: por que motivo instituíram os turnos leigos? Porque está dito "ordena aos filhos de Israel, etc." — a citação bíblica funciona como a justificativa teológica completa para toda a instituição descrita na sequência da mishná.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi detalha a função litúrgica dos que ficavam em suas cidades e identifica Shmuel e David como os "primeiros profetas" que instituíram os vinte e quatro turnos.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 26a-27a — a função dos turnos leigos e a identidade dos primeiros profetas
אלו הן מעמדות – המתענין מתפללין בעריהם שיתקבל ברצון קרבן אחיהם כדלקמן: נביאים הראשונים – שמואל ודוד בגמרא מפרש: על כל משמר – ארבעה ועשרים משמרות של כהנים היו ושמואל ודוד תיקנום ועל כל משמר היה מעמד בירושלים שקבועין ועומדין בעיר ועומדין על קרבן אחיהם ולבד אלו הדרים בירושלים היו מעמדות בכל עיר שישראל נחלקו לכ"ד מעמדות כנגד ארבעה ועשרים משמרות: כהנים ולוים – של משמר היו עולים בירושלים כהנים לעבודה ולוים לשיר: והשאר היו מתכנסין לעריהם – ומתפללין על קרבן אחיהם שיתקבל ברצון ומתענין ומוציאין ספר תורה ביום תעניתם:

"Estes são os turnos leigos" — os que jejuavam rezavam em suas cidades para que a oferenda de seus irmãos fosse aceita com boa vontade, como se explica adiante. "Primeiros profetas" — Shmuel e David; a Guemará explica esse ponto em detalhe. "Para cada turno" — havia vinte e quatro turnos de sacerdotes, instituídos por Shmuel e David, e para cada turno havia um turno leigo em Jerusalém, composto de pessoas fixas que permaneciam na cidade acompanhando a oferenda de seus irmãos; e, além desses residentes em Jerusalém, havia turnos leigos em cada cidade, pois Israel se dividiu em vinte e quatro turnos correspondentes aos vinte e quatro turnos sacerdotais. "Sacerdotes e levitas" — do turno subiam a Jerusalém: os sacerdotes para o serviço do Templo, os levitas para o canto litúrgico. "E os demais se reuniam em suas cidades" — e rezavam pela oferenda de seus irmãos, para que fosse aceita com boa vontade, e jejuavam, e retiravam o rolo da Torá no dia de seu jejum — o gesto físico de trazer o Sefer Torá tornava tangível, mesmo à distância de Jerusalém, a participação de cada cidade no serviço central do Templo.