Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Alef · Mishná 7 de 7 (última do perek)

Como pessoas repreendidas pelo Onipresente

כִּבְנֵי אָדָם הַנְּזוּפִין לַמָּקוֹם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Alef, a mishná descreve a etapa final da escala de resposta à seca, quando nem mesmo as treze taanyot trouxeram chuva: a comunidade inteira passa a viver com sobriedade, como quem foi repreendido por D'us, enquanto os indivíduos retomam seus próprios jejuns até o fim de Nissan.

Passaram estes e não foram respondidos, diminuem em negócios, em construção e em plantio, em noivados e em casamentos, e em saudações entre uma pessoa e seu próximo, como pessoas repreendidas pelo Onipresente.Se mesmo as treze taanyot não trouxerem chuva, a comunidade não decreta mais jejuns, mas adota uma postura geral de sobriedade e retração em toda a vida cotidiana: reduz-se a atividade comercial, param-se novas construções e plantios festivos, adiam-se noivados e casamentos, e até mesmo as saudações cordiais entre as pessoas se reduzem — um comportamento coletivo semelhante ao de alguém que sabe ter sido repreendido por D'us e vive, por consequência, num estado de luto e introspecção.

Os indivíduos voltam a jejuar até que saia Nissan.Enquanto a comunidade como um todo já não jejua mais formalmente nessa etapa final, os indivíduos — os sábios que haviam começado a escala no início do capítulo — retomam seus próprios jejuns pessoais, continuando-os até o final do mês de Nissan.

Saiu Nissan e não caiu chuva, é sinal de maldição, pois está dito: "Acaso não é hoje a colheita do trigo?" etc.Se, apesar de tudo, nenhuma chuva tivesse caído durante todo o inverno até o final de Nissan, isso já não seria mais tratado como atraso temporário, mas como um sinal claro e grave de maldição — apoiando-se a mishná no verso de Shmuel sobre a colheita do trigo, em que o próprio profeta invoca um trovão fora de estação como sinal do desagrado divino.

עָבְרוּ אֵלּוּ וְלֹא נַעֲנוּ, מְמַעֲטִין בְּמַשָּׂא וּמַתָּן, בְּבִנְיָן וּבִנְטִיעָה, בְּאֵרוּסִין וּבְנִשּׂוּאִין וּבִשְׁאֵלַת שָׁלוֹם בֵּין אָדָם לַחֲבֵרוֹ, כִּבְנֵי אָדָם הַנְּזוּפִין לַמָּקוֹם. הַיְחִידִים חוֹזְרִים וּמִתְעַנִּים עַד שֶׁיֵּצֵא נִיסָן. יָצָא נִיסָן וְלֹא יָרְדוּ גְשָׁמִים, סִימַן קְלָלָה, שֶׁנֶּאֱמַר הֲלוֹא קְצִיר חִטִּים הַיּוֹם, וְגוֹ':

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shmuel Alef 12:17-18
הֲלוֹא קְצִיר חִטִּים הַיּוֹם, אֶקְרָא אֶל ה' וְיִתֵּן קֹלוֹת וּמָטָר, וּדְעוּ וּרְאוּ כִּי רָעַתְכֶם רַבָּה אֲשֶׁר עֲשִׂיתֶם בְּעֵינֵי ה' לִשְׁאוֹל לָכֶם מֶלֶךְ. וַיִּקְרָא שְׁמוּאֵל אֶל ה', וַיִּתֵּן ה' קֹלֹת וּמָטָר בַּיּוֹם הַהוּא.
Acaso não é hoje a colheita do trigo? Clamarei ao Eterno e Ele dará trovões e chuva, e sabereis e vereis que é grande vossa maldade que fizestes aos olhos do Eterno, ao pedirdes para vós um rei. E Shmuel clamou ao Eterno, e o Eterno deu trovões e chuva naquele dia.

A mishná cita este episódio de Shmuel como prova de que a chuva fora de sua estação natural — no caso, durante a colheita do trigo, quando chuva normalmente não cai em Eretz Yisrael — é reconhecida na própria Escritura como sinal extraordinário do desagrado divino. Shmuel invoca precisamente essa anomalia climática como demonstração pública e inequívoca de que o pedido do povo por um rei humano, à revelia da liderança direta de D'us, fora um erro grave. Por analogia inversa, a mishná ensina que a ausência de chuva quando ela deveria normalmente ter caído — até o final de Nissan — é igualmente lida como sinal de maldição, fechando o tema deste primeiro perek com a ideia de que os padrões climáticos de Eretz Yisrael funcionam como barômetro constante da relação entre Israel e seu Criador.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura precisa quais construções e plantios são de fato restringidos, e Rambam detalha a mesma distinção entre atividades de alegria e atividades essenciais.

Bartenura · Taanit 1:7
בְּבִנְיָן וּבִנְטִיעָה. וְדַוְקָא בִּנְיָן שֶׁל שִׂמְחָה כְּגוֹן בֵּית חָתְנוּת לַעֲשׂוֹת בּוֹ חֻפָּתוֹ, וּנְטִיעָה שֶׁל שִׂמְחָה כְּגוֹן אִילָן גָּדוֹל הַמֵּסֵךְ עַל הָאָרֶץ לְטַיֵּל הַמְּלָכִים תַּחְתָּיו. אֲבָל בַּיִת לָדוּר בּוֹ וּנְטִיעַת אִילָן לְפֵרוֹתָיו מֻתָּר. יָצָא נִיסָן. הַגְּשָׁמִים סִימַן קְלָלָה כְּשֶׁלֹּא יָרְדוּ כְּלָל קֹדֶם שֶׁיָּצָא נִיסָן.

"Em construção e em plantio" — refere-se especificamente à construção de alegria, como a casa nupcial preparada para a celebração do casamento de um filho, e ao plantio de alegria, como uma grande árvore frondosa plantada para que reis passeiem sob sua sombra; mas construir uma casa para nela morar, ou plantar uma árvore por causa de seus frutos, continua permitido mesmo nesta etapa mais severa, pois são necessidades essenciais, e não expressões de festa que caberia suspender num tempo de luto. "Saiu Nissan" — a chuva é sinal de maldição apenas quando não caiu absolutamente nada antes do fim de Nissan.

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 1:7
עברו אלו ולא נענו ממעטין במשא ומתן כו': ובנין ונטיעה האסורים באלו התעניות הוא בנין של שמחה ונטיעה של שמחה, כמו הפתוחים והציורין כמו שעושין העשירים המאריכים בבנינם, ונטיעת הבשמים והפרדסים שעושין המלכים. אבל בנין לדירה ונטיעה הנטועה לפירותיה ולחיות בשבחה אינו אסור, ואין מבטלין אותה לעולם.

A construção e o plantio proibidos nestes jejuns referem-se à construção de alegria e ao plantio de alegria — como as construções ornamentadas e esculpidas que os ricos fazem quando se estendem em seus edifícios, e o plantio de jardins de especiarias e pomares que costumam fazer os reis. Mas construir uma casa para moradia, e plantar uma árvore por seus frutos ou para sustento, isso não é proibido, e nunca se cancela essa atividade — pois trata-se de necessidades básicas da vida, e não de manifestações de celebração que a atmosfera de luto comunitário exigiria suspender.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará que discute a rotina de todo o dia de jejum severo, explica a divisão do dia entre exame das questões da cidade e a leitura pública da Torá.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 12b — a estrutura completa do dia de jejum severo
היכי עבדי – מאי עבדי בכינופיא דמצפרא ובכוליה יומא דתעניתא. ריבעא דיומא – מחצות ואילך עושין ב' חלקים, בפלגא דהיינו ריבעא דיומא קרו ויחל משה, ומפטירין דרשו ה' בהמצאו.

"Como agem?" — o que fazem na assembleia matinal e durante todo o dia do jejum? A Guemará descreve a divisão precisa do dia: "um quarto do dia" — a partir do meio-dia em diante dividem-se as horas restantes em duas partes; na metade, isto é, no primeiro quarto após o meio-dia, leem a passagem de "Vayechal Moshé" — a súplica de Moshé por perdão após o pecado do bezerro de ouro —, e como haftará leem "Dirshu Hashem behimatzo", "buscai o Eterno enquanto Ele pode ser achado", de Yeshaayahu — mostrando que o dia inteiro do jejum comunitário mais severo era estruturado em torno tanto do exame moral da comunidade quanto da leitura pública de textos de arrependimento e súplica.

Aqui se completa o Perek Alef — sete mishnayot dedicadas à menção e ao pedido de chuva: a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre quando começar a mencionar os poderes da chuva na Amidá, e por que fazê-lo justamente numa festa em que ela é sinal de maldição (1:1); a distinção entre mencionar e pedir chuva, a regra dos dois oficiantes do oitavo dia e do primeiro dia de Pessach, e até quando se estende o pedido (1:2); a data fixada para o pedido em Eretz Yisrael, e a opinião de Rabán Gamliel de adiá-la em consideração aos peregrinos que regressavam da Festa (1:3); o início da escala de jejuns, com os indivíduos observando três jejuns leves quando a chuva atrasa (1:4); a passagem da responsabilidade para o tribunal, que decreta três jejuns semelhantes sobre toda a comunidade (1:5); a escalada para jejuns mais severos, e depois para treze taanyot com toque de shofar e fechamento de lojas (1:6); e, por fim, a etapa final de sobriedade comunitária geral, o retorno dos indivíduos a seus próprios jejuns, e o sinal de maldição caso nem mesmo até o fim de Nissan a chuva tenha caído (1:7). O tratado prossegue no Perek Bet, que trata da ordem exata das orações e súplicas nos dias de jejum comunitário, e amplia a discussão para outras calamidades além da seca.