Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Bet · Mishná 1 de 10

A ordem dos jejuns

סֵדֶר תַּעֲנִיּוֹת כֵּיצַד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Bet, a mishná descreve o cerimonial das sete taanyot finais e mais severas: a arca sagrada é retirada de seu recinto reservado e exposta na praça pública, cinzas são colocadas sobre ela e sobre a cabeça de cada líder e de cada membro da comunidade, e o mais velho profere palavras que visam tocar o coração do povo ao arrependimento — não bastam o saco e o jejum externos, mas a mudança real de conduta, como se viu em Nínive.

Como é a ordem dos jejuns?A mishná passa a descrever o ritual das sete taanyot finais, as mais severas de toda a escala apresentada no Perek Alef.

Retiram a arca para a praça da cidade, e colocam cinzas de queimado sobre a arca, e na cabeça do Nasi, e na cabeça do av beit din, e cada um coloca sobre sua própria cabeça.A arca, normalmente guardada com recato dentro da sinagoga, é levada abertamente à praça pública como sinal de humilhação coletiva; cinzas de material efetivamente queimado — não mera terra — são postas sobre ela e sobre a cabeça de cada autoridade, do Nasi ao av beit din, e depois cada pessoa da comunidade faz o mesmo a si própria.

O mais velho entre eles diz diante deles palavras de repreensão: "Nossos irmãos, não está dito a respeito dos homens de Nínive: 'E D'us viu o saco deles e o jejum deles', mas sim: 'E D'us viu as obras deles, que se voltaram de seu mau caminho'" (Yoná 3:10). E na tradição profética está dito: "E rasgai vosso coração e não vossas vestes" (Yoel 2:13).O ancião da comunidade não se limita a liderar o ritual externo; ele extrai da própria narrativa de Nínive o ensinamento central de todo este perek: o que salvou aquela cidade não foi o saco nem o jejum em si, mas a mudança concreta de conduta que D'us viu — e o profeta Yoel reforça a mesma ideia, exigindo que o coração, e não apenas a roupa, seja rasgado em arrependimento.

סֵדֶר תַּעֲנִיּוֹת כֵּיצַד, מוֹצִיאִין אֶת הַתֵּבָה לִרְחוֹבָהּ שֶׁל עִיר, וְנוֹתְנִין אֵפֶר מִקְלֶה עַל גַּבֵּי הַתֵּבָה, וּבְרֹאשׁ הַנָּשִׂיא וּבְרֹאשׁ אַב בֵּית דִּין, וְכָל אֶחָד וְאֶחָד נוֹתֵן בְּרֹאשׁוֹ. הַזָּקֵן שֶׁבָּהֶן אוֹמֵר לִפְנֵיהֶן דִּבְרֵי כִבּוּשִׁין, אַחֵינוּ, לֹא נֶאֱמַר בְּאַנְשֵׁי נִינְוֵה, וַיַּרְא הָאֱלֹהִים אֶת שַׂקָּם וְאֶת תַּעֲנִיתָם, אֶלָּא (יונה ג) וַיַּרְא הָאֱלֹהִים אֶת מַעֲשֵׂיהֶם, כִּי שָׁבוּ מִדַּרְכָּם הָרָעָה. וּבַקַּבָּלָה הוּא אוֹמֵר (יואל ב) וְקִרְעוּ לְבַבְכֶם וְאַל בִּגְדֵיכֶם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Yoná 3:10; Yoel 2:13
וַיַּרְא הָאֱלֹהִים אֶת מַעֲשֵׂיהֶם כִּי שָׁבוּ מִדַּרְכָּם הָרָעָה, וַיִּנָּחֶם הָאֱלֹהִים עַל הָרָעָה אֲשֶׁר דִּבֶּר לַעֲשׂוֹת לָהֶם וְלֹא עָשָׂה. וְקִרְעוּ לְבַבְכֶם וְאַל בִּגְדֵיכֶם, וְשׁוּבוּ אֶל ה' אֱלֹהֵיכֶם, כִּי חַנּוּן וְרַחוּם הוּא, אֶרֶךְ אַפַּיִם וְרַב חֶסֶד וְנִחָם עַל הָרָעָה.
E D'us viu as obras deles, que se voltaram de seu mau caminho, e D'us se arrependeu do mal que havia falado de lhes fazer, e não o fez. Rasgai vosso coração e não vossas vestes, e voltai ao Eterno vosso D'us, pois Ele é clemente e misericordioso, longânimo e grande em bondade, e Se arrepende do mal.

A mishná escolhe deliberadamente citar não o versículo que menciona o saco e o jejum dos ninivitas, mas o que vem logo depois — aquele que atribui a salvação da cidade às suas obras. O texto de Yoná, lido isoladamente, poderia sugerir que o próprio ato do jejum e do luto externo é o que desperta a misericórdia divina; a mishná corrige essa leitura ao citar precisamente o versículo em que a Escritura credita a resposta divina à mudança concreta de comportamento, "que se voltaram de seu mau caminho". O verso de Yoel, citado como reforço da tradição profética, consolida o mesmo ensinamento: rasgar o coração, e não apenas as vestes, é a exigência real por trás de todo o ritual externo de cinzas e súplicas que o restante deste capítulo passa a descrever.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam situa este ritual apenas nas sete taanyot finais, e Bartenura explica o simbolismo de cada elemento — a arca exposta, as cinzas de fato queimadas, e a autoexposição das autoridades.

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 2:1
סדר תעניות כיצד מוציאין את התיבה לרחובה כו': זה הסדר אינו אלא בשבע אחרונות:

Esta ordem — isto é, retirar a arca para as praças da cidade e colocar cinzas de queimado sobre ela, e assim por diante — não se aplica senão às sete taanyot finais, as mais severas de toda a escala descrita no perek anterior.

Bartenura · Taanit 2:1
אֶת הַתֵּבָה. הָאָרוֹן שֶׁסֵּפֶר תּוֹרָה מֻנָּח בּוֹ, כְּלוֹמַר כְּלִי צָנוּעַ הָיָה לָנוּ וְנִתְבַּזָּה בַּעֲוֹנֵינוּ. אֵפֶר מִקְלֶה. אֵפֶר שְׂרֵפָה, דְּהָכָא צָרִיךְ שֶׁיִּהְיֶה אֵפֶר מַמָּשׁ כְּדֵי שֶׁיִּזְכּוֹר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עֲקֵידָתוֹ שֶׁל יִצְחָק וִירַחֵם. וּבְרֹאשׁ הַנָּשִׂיא וְכוּ'. וְהֵן עַצְמָן אֵינָם נוֹטְלִים, כְּדֵי שֶׁיִּתְבַּיְּשׁוּ יוֹתֵר, לְפִי שֶׁאֵינוֹ דוֹמֶה מִתְבַּיֵּשׁ מֵעַצְמוֹ לַמִּתְבַּיֵּשׁ מֵאֲחֵרִים.

"A arca" — o receptáculo onde o rolo da Torá é depositado, isto é: tínhamos um utensílio recatado, e por nossos pecados ele é exposto publicamente. Por que à praça da cidade? Para dizer: clamamos em recato dentro da sinagoga e não fomos respondidos, então nos humilhamos publicamente na praça da cidade. "Cinzas de queimado" — cinzas de fato provenientes de combustão, pois aqui é necessário que sejam cinzas propriamente ditas, para que o Santo, bendito seja, se lembre da Akedá de Yitzchak e tenha misericórdia. "Na cabeça do Nasi etc." — eles próprios não colocam as cinzas em si mesmos, para que sua vergonha seja ainda maior, pois não é o mesmo envergonhar-se por si próprio e ser envergonhado por outros.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará, localiza o rito na praça pública e explica por que as cinzas exigidas são especificamente cinzas de queimado, e não mera terra.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 15a — a praça da cidade e o sentido das cinzas
בִּרְחוֹבָהּ שֶׁל עִיר – בְּגָלוּי, כִּי הָךְ דְּאָמְרִינַן בְּמַסֶּכֶת מְגִלָּה, "בְּנֵי הָעִיר שֶׁמָּכְרוּ רְחוֹבָהּ שֶׁל עִיר", וְהָתָם מְפָרֵשׁ בְּהֶדְיָא, אָמַר רַבִּי זֵירָא: הוֹאִיל וְהָעָם מִתְפַּלְּלִים בּוֹ בְּתַעֲנִיּוֹת וּבְמַעֲמָדוֹת. אֵפֶר מִקְלֶה – אֵפֶר מַמָּשׁ וְלֹא עָפָר, אֵפֶר סְתָם הוּא עָפָר.

"Na praça da cidade" — expostos publicamente, tal como se ensina em Massechet Meguilá a respeito dos "habitantes da cidade que venderam a praça de sua cidade", passagem onde se explica claramente que essa praça é o lugar onde o povo se reúne para orar em jejuns e em maamadot — Rashi liga assim a praça deste ritual à praça pública central usada regularmente para as reuniões de oração da comunidade. "Cinzas de queimado" — cinzas efetivamente provenientes de combustão, e não simplesmente terra, pois "cinza" sem qualificação, no uso corrente, pode designar mera terra; a mishná precisa, ao dizer "cinza de queimado", que aqui é necessária cinza real, ligada à memória da Akedá.