Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Alef · Mishná 4 de 7

Chegou o dezessete de Marcheshvan e não caiu chuva

הִגִּיעַ שִׁבְעָה עָשָׂר בְּמַרְחֶשְׁוָן וְלֹא יָרְדוּ גְשָׁמִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de fixar quando se pede chuva, a mishná abre a escala progressiva de resposta comunitária ao atraso da chuva: se catorze dias após a data em que se começou a pedi-la a chuva ainda não caiu, um grupo restrito de indivíduos passa a observar três jejuns leves.

Chegou o dezessete de Marcheshvan e não caiu chuva, os indivíduos começaram a jejuar três jejuns.Se, quatorze dias depois da data em que se começou a pedir chuva, ainda nenhuma chuva havia caído, um grupo seleto de pessoas — identificado adiante pelos comentadores como os sábios — assumia voluntariamente a obrigação de observar três jejuns, nos dias de segunda, quinta e segunda seguintes.

Comem e bebem depois de escurecer, e são permitidos no trabalho, no banho, na unção, em calçar sandália e nas relações conjugais.Apesar de jejuarem durante o dia, esses jejuns eram relativamente leves: era permitido comer e beber assim que a noite caísse, e durante o próprio dia do jejum continuavam permitidas todas as demais atividades normais — trabalhar, banhar-se, ungir o corpo com óleo, calçar sandálias de couro e manter relações conjugais —, sinal de que essa primeira etapa de jejum ainda não envolvia as restrições mais severas reservadas às etapas seguintes, caso a chuva continuasse ausente.

הִגִּיעַ שִׁבְעָה עָשָׂר בְּמַרְחֶשְׁוָן וְלֹא יָרְדוּ גְשָׁמִים, הִתְחִילוּ הַיְחִידִים מִתְעַנִּין שָׁלשׁ תַּעֲנִיּוֹת. אוֹכְלִין וְשׁוֹתִין מִשֶּׁחֲשֵׁכָה, וּמֻתָּרִין בִּמְלָאכָה וּבִרְחִיצָה וּבְסִיכָה וּבִנְעִילַת הַסַּנְדָּל וּבְתַשְׁמִישׁ הַמִּטָּה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim 11:14
וְנָתַתִּי מְטַר אַרְצְכֶם בְּעִתּוֹ יוֹרֶה וּמַלְקוֹשׁ, וְאָסַפְתָּ דְגָנֶךָ וְתִירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ.
E darei a chuva de vossa terra em seu tempo, a primeira chuva e a chuva tardia, e recolherás teu grão, teu vinho e teu azeite.

O verso da Torá promete a chuva "em seu tempo" como recompensa direta pela observância dos mandamentos — e é justamente o atraso dessa chuva prometida que dá origem a toda a escala de jejuns descrita neste perek. Quando a chuva não cai no tempo esperado, isso é lido pelos Sábios como um sinal que exige exame da conduta comunitária e apelo em oração e jejum, começando com um pequeno grupo de indivíduos particularmente sensíveis à ausência do sinal de bênção, e escalando gradualmente, como veremos nas próximas mishnayot, até jejuns severos decretados sobre toda a comunidade.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura identifica os "indivíduos" como os sábios, fixa os dias exatos dos jejuns e detalha a regra de comer antes de dormir; Rambam confirma a identificação e resume a mesma regra prática.

Bartenura · Taanit 1:4
הִגִּיעַ שִׁבְעָה עָשָׂר בְּמַרְחֶשְׁוָן. וּכְבָר עָבְרוּ שְׁלֹשָׁה זְמַנִּים, שֶׁהֵן שְׁלִישִׁי בְּמַרְחֶשְׁוָן, וּשְׁבִיעִי, וְשִׁבְעָה עָשָׂר. הִתְחִילוּ הַיְחִידִים. תַּלְמִידֵי חֲכָמִים. שָׁלֹשׁ תַּעֲנִיּוֹת. שֵׁנִי וַחֲמִישִׁי וְשֵׁנִי. אוֹכְלִים וְשׁוֹתִים מִשֶּׁחֲשֵׁכָה. מֻתָּר לָהֶם לֶאֱכֹל וְלִשְׁתּוֹת כָּל לֵיל הַתַּעֲנִית עַד שֶׁיַּעֲלֶה עַמּוּד הַשַּׁחַר כָּל זְמַן שֶׁלֹּא יָשֵׁן. אֲבָל לְאַחַר שֶׁיָּשֵׁן שֵׁינַת קֶבַע אָסוּר לֶאֱכֹל וְלִשְׁתּוֹת אִם לֹא הִתְנָה מִתְּחִלָּה קֹדֶם שֶׁיָּשֵׁן.

"Chegou o dezessete de Marcheshvan" — e já haviam passado três marcos temporais: o terceiro de Marcheshvan, o sétimo e o dezessete. "Começaram os indivíduos" — refere-se especificamente aos discípulos dos sábios, e não à população em geral. "Três jejuns" — na segunda, na quinta e na segunda seguinte. "Comem e bebem desde que escurece" — é permitido a eles comer e beber toda a noite do jejum até o amanhecer, enquanto ainda não dormiram; mas depois de terem dormido um sono fixo, é proibido comer e beber, a menos que tenham feito a condição previamente, antes de dormir, de que ainda comeriam depois.

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 1:4
הגיע שבעה עשר במרחשון ולא ירדו גשמים כו': יחידים הם התלמידים חכמים, ואלו התעניות שני וחמישי ושני.

Os "indivíduos" são os discípulos dos sábios, e esses jejuns são observados na segunda-feira, na quinta-feira e na segunda-feira seguinte — confirmando a identificação de Bartenura e o padrão de três dias que se repetirá em todas as etapas seguintes da escala de jejuns descrita neste perek.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi identifica o início da mishná no texto da Guemará e explica por que se permite comer imediatamente ao escurecer, diferentemente de Yom Kipur e de Tishá BeAv.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 10a
מתני' הגיע שבעה עשר וכו' – אוכלין ושותין משחשיכה, שאין אוכלין מבעוד יום כיום הכפורים ותשעה באב.

"Nossa mishná: chegou o dezessete" etc. — "comem e bebem desde que escurece" — isto é, não comem ainda de dia, como se faz antes de Yom Kipur e de Tishá BeAv, cujos jejuns começam já ao entardecer, antes do pôr do sol. Rashi esclarece assim que estes três jejuns iniciais são mais leves inclusive em sua delimitação temporal: começam apenas com a noite, e não antecipam sua restrição para as últimas horas do dia anterior, como fazem os dois jejuns mais severos do calendário judaico.