Chegou o dezessete de Marcheshvan e não caiu chuva, os indivíduos começaram a jejuar três jejuns. — Se, quatorze dias depois da data em que se começou a pedir chuva, ainda nenhuma chuva havia caído, um grupo seleto de pessoas — identificado adiante pelos comentadores como os sábios — assumia voluntariamente a obrigação de observar três jejuns, nos dias de segunda, quinta e segunda seguintes.
Comem e bebem depois de escurecer, e são permitidos no trabalho, no banho, na unção, em calçar sandália e nas relações conjugais. — Apesar de jejuarem durante o dia, esses jejuns eram relativamente leves: era permitido comer e beber assim que a noite caísse, e durante o próprio dia do jejum continuavam permitidas todas as demais atividades normais — trabalhar, banhar-se, ungir o corpo com óleo, calçar sandálias de couro e manter relações conjugais —, sinal de que essa primeira etapa de jejum ainda não envolvia as restrições mais severas reservadas às etapas seguintes, caso a chuva continuasse ausente.
O verso da Torá promete a chuva "em seu tempo" como recompensa direta pela observância dos mandamentos — e é justamente o atraso dessa chuva prometida que dá origem a toda a escala de jejuns descrita neste perek. Quando a chuva não cai no tempo esperado, isso é lido pelos Sábios como um sinal que exige exame da conduta comunitária e apelo em oração e jejum, começando com um pequeno grupo de indivíduos particularmente sensíveis à ausência do sinal de bênção, e escalando gradualmente, como veremos nas próximas mishnayot, até jejuns severos decretados sobre toda a comunidade.
Bartenura identifica os "indivíduos" como os sábios, fixa os dias exatos dos jejuns e detalha a regra de comer antes de dormir; Rambam confirma a identificação e resume a mesma regra prática.
"Chegou o dezessete de Marcheshvan" — e já haviam passado três marcos temporais: o terceiro de Marcheshvan, o sétimo e o dezessete. "Começaram os indivíduos" — refere-se especificamente aos discípulos dos sábios, e não à população em geral. "Três jejuns" — na segunda, na quinta e na segunda seguinte. "Comem e bebem desde que escurece" — é permitido a eles comer e beber toda a noite do jejum até o amanhecer, enquanto ainda não dormiram; mas depois de terem dormido um sono fixo, é proibido comer e beber, a menos que tenham feito a condição previamente, antes de dormir, de que ainda comeriam depois.
Os "indivíduos" são os discípulos dos sábios, e esses jejuns são observados na segunda-feira, na quinta-feira e na segunda-feira seguinte — confirmando a identificação de Bartenura e o padrão de três dias que se repetirá em todas as etapas seguintes da escala de jejuns descrita neste perek.
Rashi identifica o início da mishná no texto da Guemará e explica por que se permite comer imediatamente ao escurecer, diferentemente de Yom Kipur e de Tishá BeAv.
"Nossa mishná: chegou o dezessete" etc. — "comem e bebem desde que escurece" — isto é, não comem ainda de dia, como se faz antes de Yom Kipur e de Tishá BeAv, cujos jejuns começam já ao entardecer, antes do pôr do sol. Rashi esclarece assim que estes três jejuns iniciais são mais leves inclusive em sua delimitação temporal: começam apenas com a noite, e não antecipam sua restrição para as últimas horas do dia anterior, como fazem os dois jejuns mais severos do calendário judaico.