Desde que os assassinos se multiplicaram, cessou a novilha decapitada. Desde que veio Eliezer ben Dinai — e também se chamava ben Paracha — voltaram a chamá-lo “ben ha-Ratzchan” [filho do assassino]. Desde que os adúlteros se multiplicaram, cessaram as águas amargas, e Rabán Yochanan ben Zakai as suspendeu, pois foi dito: “Não punirei vossas filhas quando se prostituírem, nem vossas noras quando adulterarem, pois eles próprios...” Desde que morreram Yosei ben Yoezer, homem de Tzeredá, e Yosei ben Yochanan, homem de Jerusalém, cessaram os cachos, pois foi dito: “Não há cacho para comer, nem primícia que minha alma deseja.” — Com esta mishná, o tratado Sotá dá uma guinada literária e temática: da minúcia jurídica sobre a novilha decapitada, passa-se a uma sucessão de sentenças breves e melancólicas — quase um lamento estruturado — sobre práticas, instituições e tipos humanos que desapareceram de Israel à medida que a sociedade se deteriorou moralmente. A primeira baixa é a própria novilha decapitada: seu propósito depende de uma incerteza genuína sobre quem cometeu o assassinato; quando os assassinos se tornaram tão numerosos e conhecidos — a ponto de um deles, Eliezer ben Dinai, passar a ser identificado publicamente pelo apelido “filho do assassino” —, essa incerteza deixou de existir na prática, e o ritual perdeu sentido. Em seguida, as águas amargas da sotá (o próprio tema que dá nome ao tratado) são suspensas quando o adultério se generaliza — citando o versículo de Hoshea que sugere que, quando os próprios homens se corrompem, não faz sentido responsabilizar apenas as mulheres. E, por fim, a mishná lamenta o desaparecimento dos “eshkolot” — literalmente “cachos de uva”, um apelido para sábios que reuniam em si toda espécie de virtude e conhecimento, como um cacho reúne muitos grãos —, associando sua extinção a um versículo de Michá sobre a fome espiritual de uma geração sem líderes íntegros.
Rambam liga a suspensão das águas amargas à condição legal explícita para sua eficácia, e explica o sentido do apelido “eshkolot”.
Rambam ancora a suspensão das águas amargas diretamente no texto da Torá: o próprio versículo condiciona a eficácia do ritual a que “o homem esteja livre de pecado” — só quando o marido é ele mesmo inocente é que as águas podem examinar sua esposa. Quando a infidelidade masculina se generalizou, essa condição deixou de se cumprir na prática, tornando o ritual sem efeito por definição, e não apenas por decisão discricionária de Rabán Yochanan ben Zakai. E explica que “eshkolot” é um apelido para a pessoa que reúne em si todas as qualidades morais, virtudes e ramos do conhecimento — “um homem em quem está tudo”.
Rashi (Sotá 47a), Rambam e Bartenura sobre o início da série histórica de declínio.
Rashi explica que a novilha decapitada deixou de fazer sentido simplesmente porque a comunidade já reconhecia, entre si, quem eram os assassinos habituais — a incerteza que justificava o ritual havia se tornado uma ficção. Sobre o versículo de Hoshea, propõe que Deus recusa punir apenas as mulheres porque os próprios homens, tão corrompidos quanto elas, “se apartam com as prostitutas” — tornando hipócrita qualquer exame unilateral. E sobre os “eshkolot”, traz um dado notável preservado na Guemará: até a época desses sábios não havia disputa alguma entre os sábios de Israel — todos transmitiam as tradições exatamente como as haviam recebido de Moshé no Sinai, sem controvérsia.
Rambam nota que esta mishná introduz um padrão retórico que se repetirá ao longo de todo o restante do capítulo: um evento histórico específico (a multiplicação dos assassinos, dos adúlteros, a morte de determinados sábios) é apresentado como causa direta do desaparecimento de uma instituição ou virtude, quase sempre ancorado num versículo profético que já antecipava, séculos antes, esse mesmo declínio — como se a história de Israel estivesse gravada de antemão nas palavras dos profetas.
Bartenura resume as duas causas em fórmulas concisas: a novilha decapitada cessou porque a identidade dos assassinos habituais já era de conhecimento geral, esvaziando a premissa de incerteza sobre a qual o ritual se apoiava; e os “eshkolot” eram homens “em quem está tudo” — sábios cuja tradição era verdade sem mácula alguma, sem disputa nem dúvida, um ideal de integridade intelectual e moral que, segundo a mishná, desapareceu com a morte de Yosei ben Yoezer e Yosei ben Yochanan.