Yochanan, o Sumo Sacerdote, removeu a confissão do dízimo. Ele também aboliu os despertadores e os perfuradores. Até seus dias, o martelo batia em Jerusalém. E em seus dias, ninguém precisava perguntar sobre o demai. — Diferente das demais entradas desta seção, marcadas pela morte de um sábio, esta mishná registra reformas ativas introduzidas por um sumo sacerdote em pleno exercício do cargo — Yochanan (identificado pela tradição rabínica com Yochanan Hircano). A primeira reforma suprime a confissão ritual do dízimo, cuja fórmula bíblica declarava, entre outras coisas, “e também o dei ao levita” — declaração que se tornou impossível de sustentar honestamente depois que Ezra, ao subir do exílio, penalizou os levitas (que não haviam subido com ele) determinando que o dízimo fosse entregue aos sacerdotes, e não a eles. A segunda e a terceira reformas eliminam dois costumes do Templo considerados, por diferentes razões, impróprios: os “despertadores” — levitas que clamavam “desperta, por que dormes, ó Eterno” — e os “perfuradores” — o costume de arranhar os olhos do bezerro para facilitar seu abate, prática que fazia o animal parecer defeituoso. E, por fim, a mishná evoca dois sinais de prosperidade material e halachica associados a essa mesma época: o som constante do martelo dos ferreiros trabalhando em Jerusalém, e a instituição do demai — uma categoria de produtos duvidosos que Yochanan tornou desnecessário questionar, ao decretar que todo comprador simplesmente separasse os dízimos duvidosos por conta própria.
Rambam liga a supressão da confissão à gzerá de Ezra sobre os levitas, e explica a instituição do demai.
Rambam explica, em nota que o próprio copista assinala ter transcrito de sua explicação mais extensa em Maasser Sheni, que a confissão bíblica do dízimo tornou-se impossível de recitar honestamente depois que Ezra, ao constatar que os levitas não haviam subido com ele do exílio, decretou como penalidade que o dízimo fosse entregue aos sacerdotes em vez de aos levitas — contrariando o texto literal da confissão, que declara “também o dei ao levita”. E explica que a instituição do demai eliminou a necessidade de perguntar, produto por produto, se already fora dizimado: bastava separar automaticamente a terumat maasser e o maasser sheni de qualquer produto comprado de um am ha'aretz, sem necessidade de investigação prévia.
Rashi (Sotá 47b–48a), Rambam e Bartenura sobre as quatro reformas de Yochanan Kohen Gadol.
Rashi interpreta a imagem do “martelo que bate em Jerusalém” de modo surpreendente: não é elogio, mas a descrição de um costume que o próprio Yochanan aboliu — ferreiros que trabalhavam durante o chol ha-moed (dias intermediários da festa) em obras permitidas de “bem perdido” (melechet davar ha-aved), mas cujo martelar, audível a grande distância, dava a impressão pública de desrespeito à santidade da festa, já que ninguém conseguia distinguir de longe se aquele trabalho específico era de fato permitido. E confirma que a instituição do demai eliminou definitivamente a necessidade de perguntar a um vizinho se seus produtos haviam sido dizimados, pois Yochanan decretou que todo comprador de um am ha'aretz simplesmente separasse os dízimos por conta própria.
Rambam nota que, embora a mishná atribua a Yochanan a “remoção” da confissão do dízimo, a causa raiz do problema remonta séculos antes, à própria gzerá de Ezra — Yochanan apenas reconheceu, na prática legal, uma contradição que já existia havia gerações entre o texto da confissão bíblica e a realidade instaurada por Ezra, formalizando o que já não podia mais ser dito com honestidade.
Bartenura explica a fundo cada uma das quatro reformas: a confissão do dízimo tornou-se impronunciável depois que Ezra penalizou os levitas por não terem subido com ele do exílio, redirecionando o dízimo aos sacerdotes; os “despertadores” eram levitas que recitavam diariamente o versículo “desperta, por que dormes, ó Eterno” — abolido por Yochanan por considerá-lo teologicamente impróprio, já que não há sono diante do Onipresente; e os “perfuradores” arranhavam os olhos do bezerro do sacrifício para que sangrasse sobre eles e ficasse cego, facilitando sua contenção e abate — prática abolida por dar ao animal a aparência de um defeito físico, e substituída por anéis fixados no chão para prender o pescoço do animal.