Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Tet · Mishná 10 de 15

Yochanan, o Sumo Sacerdote: as reformas que aboliram velhos costumes

יוֹחָנָן כֹּהֵן גָּדוֹל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A série de perdas históricas continua com um sábio que, ao contrário dos anteriores, não é lamentado por sua morte, mas por suas próprias decisões — um sumo sacerdote que aboliu, de próprio punho, quatro práticas antigas.

Yochanan, o Sumo Sacerdote, removeu a confissão do dízimo. Ele também aboliu os despertadores e os perfuradores. Até seus dias, o martelo batia em Jerusalém. E em seus dias, ninguém precisava perguntar sobre o demai.Diferente das demais entradas desta seção, marcadas pela morte de um sábio, esta mishná registra reformas ativas introduzidas por um sumo sacerdote em pleno exercício do cargo — Yochanan (identificado pela tradição rabínica com Yochanan Hircano). A primeira reforma suprime a confissão ritual do dízimo, cuja fórmula bíblica declarava, entre outras coisas, “e também o dei ao levita” — declaração que se tornou impossível de sustentar honestamente depois que Ezra, ao subir do exílio, penalizou os levitas (que não haviam subido com ele) determinando que o dízimo fosse entregue aos sacerdotes, e não a eles. A segunda e a terceira reformas eliminam dois costumes do Templo considerados, por diferentes razões, impróprios: os “despertadores” — levitas que clamavam “desperta, por que dormes, ó Eterno” — e os “perfuradores” — o costume de arranhar os olhos do bezerro para facilitar seu abate, prática que fazia o animal parecer defeituoso. E, por fim, a mishná evoca dois sinais de prosperidade material e halachica associados a essa mesma época: o som constante do martelo dos ferreiros trabalhando em Jerusalém, e a instituição do demai — uma categoria de produtos duvidosos que Yochanan tornou desnecessário questionar, ao decretar que todo comprador simplesmente separasse os dízimos duvidosos por conta própria.

יוֹחָנָן כֹּהֵן גָּדוֹל הֶעֱבִיר הוֹדָיַת הַמַּעֲשֵׂר. אַף הוּא בִטֵּל אֶת הַמְעוֹרְרִין וְאֶת הַנּוֹקְפִין. עַד יָמָיו הָיָה פַטִּישׁ מַכֶּה בִירוּשָׁלַיִם. וּבְיָמָיו אֵין אָדָם צָרִיךְ לִשְׁאֹל עַל הַדְּמָאי

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam liga a supressão da confissão à gzerá de Ezra sobre os levitas, e explica a instituição do demai.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 9:10
יוֹחָנָן כֹּהֵן גָּדוֹל הֶעֱבִיר הוֹדָיַת הַמַּעֲשֵׂר כוּ': הֶעֱבִיר, רוֹצֶה לוֹמַר הֶעֱבִיר הוֹדָיַת הַמַּעֲשֵׂר, לְפִי שֶׁלֹּא הָיוּ יְכוֹלִין לוֹמַר כְּכָל מִצְוָתְךָ אֲשֶׁר צִוִּיתָנִי, לְפִי שֶׁהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא צִוָּה לָתֵת הַמַּעֲשֵׂר רִאשׁוֹן לַלְוִיִּם וְהֵם הָיוּ נוֹתְנִין בְּאוֹתוֹ הַזְּמָן לַכֹּהֲנִים, וְזֶה הָיָה בִּגְזֵרַת בֵּית דִּינוֹ שֶׁל עֶזְרָא הַסּוֹפֵר... וּמִתַּקָּנָה זוֹ וָאֵילָךְ הַלּוֹקֵחַ פֵּרוֹת מִן הַשּׁוּק לֹא הָיָה שׁוֹאֵל אִם הֵן מְתֻקָּנִין אִם לָאו, אֶלָּא מִיָּד מַפְרִישׁ מֵהֶם תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְאוֹכֵל אֶת הַשְּׁאָר

Rambam explica, em nota que o próprio copista assinala ter transcrito de sua explicação mais extensa em Maasser Sheni, que a confissão bíblica do dízimo tornou-se impossível de recitar honestamente depois que Ezra, ao constatar que os levitas não haviam subido com ele do exílio, decretou como penalidade que o dízimo fosse entregue aos sacerdotes em vez de aos levitas — contrariando o texto literal da confissão, que declara “também o dei ao levita”. E explica que a instituição do demai eliminou a necessidade de perguntar, produto por produto, se already fora dizimado: bastava separar automaticamente a terumat maasser e o maasser sheni de qualquer produto comprado de um am ha'aretz, sem necessidade de investigação prévia.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi (Sotá 47b–48a), Rambam e Bartenura sobre as quatro reformas de Yochanan Kohen Gadol.

Rashi · רש״י
Sotá 47b, sobre a mishná
עַד יָמָיו הָיָה פַטִּישׁ מַכֶּה בִּירוּשָׁלַיִם - בְּבֵית הַנַּפָּחִים בְּחֻלּוֹ שֶׁל מוֹעֵד לַעֲשׂוֹת מְלֶאכֶת דָּבָר הָאָבֵד שֶׁמֻּתֶּרֶת בַּמּוֹעֵד, וְעָמַד הוּא וְגָזַר עַל הַנַּפָּחִים אֲפִלּוּ בְּדָבָר הָאָבֵד, מִפְּנֵי שֶׁקּוֹלָן נִשְׁמָע לְמֵרָחוֹק וְאֵין הַכֹּל יוֹדְעִין שֶׁהִיא לְדָבָר הָאָבֵד: כׇּל יָמָיו לֹא הֻצְרַךְ אָדָם לִשְׁאֹל לַחֲבֵרוֹ עַל הַדְּמַאי - אִם מְעֻשָּׂר אִם לָאו, שֶׁהוּא הִתְקִין שֶׁיְּהוּ כָּל הַלּוֹקְחִין מֵעַם הָאָרֶץ מְעַשְּׂרִין

Rashi interpreta a imagem do “martelo que bate em Jerusalém” de modo surpreendente: não é elogio, mas a descrição de um costume que o próprio Yochanan aboliu — ferreiros que trabalhavam durante o chol ha-moed (dias intermediários da festa) em obras permitidas de “bem perdido” (melechet davar ha-aved), mas cujo martelar, audível a grande distância, dava a impressão pública de desrespeito à santidade da festa, já que ninguém conseguia distinguir de longe se aquele trabalho específico era de fato permitido. E confirma que a instituição do demai eliminou definitivamente a necessidade de perguntar a um vizinho se seus produtos haviam sido dizimados, pois Yochanan decretou que todo comprador de um am ha'aretz simplesmente separasse os dízimos por conta própria.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 9:10
יוֹחָנָן כֹּהֵן גָּדוֹל הֶעֱבִיר הוֹדָיַת הַמַּעֲשֵׂר כוּ': הֶעֱבִיר... זֶה הָיָה בִּגְזֵרַת בֵּית דִּינוֹ שֶׁל עֶזְרָא הַסּוֹפֵר

Rambam nota que, embora a mishná atribua a Yochanan a “remoção” da confissão do dízimo, a causa raiz do problema remonta séculos antes, à própria gzerá de Ezra — Yochanan apenas reconheceu, na prática legal, uma contradição que já existia havia gerações entre o texto da confissão bíblica e a realidade instaurada por Ezra, formalizando o que já não podia mais ser dito com honestidade.

Bartenura · רע״ב
Sotá 9:10
הוֹדָיַת מַעֲשֵׂר. וִדּוּי מַעֲשֵׂר, בִּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן הַבַּיִת וְגַם נְתַתִּיו לַלֵוִי. לְפִי שֶׁעֶזְרָא קָנַס אֶת הַלְוִיִּם שֶׁלֹּא יִתְּנוּ לָהֶם מַעֲשֵׂר כְּשֶׁעָלָה מִן הַגּוֹלָה וּבְנֵי לֵוִי לֹא עָלוּ עִמּוֹ: בִּטֵּל אֶת הַמְעוֹרְרִים. שֶׁהָיוּ הַלְוִיִּם בְּכָל יוֹם אוֹמְרִים עַל הַדּוּכָן עוּרָה לָמָּה תִישַׁן ה', אָמַר וְכִי יֵשׁ שֵׁינָה לִפְנֵי הַמָּקוֹם, וְעָמַד וּבִטְּלָן: אֶת הַנּוֹקְפִין. שֶׁהָיוּ מְסַרְטִין לָעֵגֶל שֶׁל קָרְבָּן בֵּין קַרְנָיו כְּדֵי שֶׁיִּפֹּל לוֹ דָּם בְּעֵינָיו... וְעָמַד הוּא וּבִטְּלוֹ, שֶׁנִּרְאֶה כְּבַעַל מוּם. וְהִתְקִין לָהֶם טַבָּעוֹת בַּקַּרְקַע לְהַכְנִיס צַוַּאר הַבְּהֵמָה לְתוֹכָהּ

Bartenura explica a fundo cada uma das quatro reformas: a confissão do dízimo tornou-se impronunciável depois que Ezra penalizou os levitas por não terem subido com ele do exílio, redirecionando o dízimo aos sacerdotes; os “despertadores” eram levitas que recitavam diariamente o versículo “desperta, por que dormes, ó Eterno” — abolido por Yochanan por considerá-lo teologicamente impróprio, já que não há sono diante do Onipresente; e os “perfuradores” arranhavam os olhos do bezerro do sacrifício para que sangrasse sobre eles e ficasse cego, facilitando sua contenção e abate — prática abolida por dar ao animal a aparência de um defeito físico, e substituída por anéis fixados no chão para prender o pescoço do animal.