Se o assassino for encontrado antes de a novilha ser decapitada, ela sairá e pastará no rebanho. Desde que a novilha foi decapitada, será enterrada em seu lugar — pois sobre uma dúvida ela veio desde o início, expiou sua dúvida e foi embora. Se a novilha foi decapitada e depois se encontra o assassino, este será morto. — A mishná trata a novilha decapitada como um instrumento de expiação vinculado exclusivamente à incerteza (safek) sobre a identidade do assassino — não como um sacrifício de valor intrínseco. Por isso, se o verdadeiro culpado é identificado antes da decapitação, o ritual se torna desnecessário e o animal, que ainda não foi consagrado a nada, simplesmente retorna ao uso comum, podendo pastar como qualquer outro animal do rebanho. Mas, uma vez decapitada, a novilha já cumpriu sua função sobre aquela dúvida específica — expiou a incerteza que existia no momento do ritual —, e por isso não pode mais ser aproveitada de forma alguma: é sepultada no próprio lugar, tratada como algo que absorveu, e agora carrega, a impureza do sangue derramado. E, no caso mais grave — quando o assassino é descoberto depois de todo o ritual já ter sido cumprido —, a mishná deixa claro que a expiação da dúvida não perdoa o crime real: identificado com certeza, o assassino é julgado e executado normalmente, como qualquer homicida convicto.
Rambam ancora a execução tardia do assassino no versículo final da parashá da novilha decapitada.
Rambam liga diretamente a última cláusula da mishná ao versículo final da própria parashá bíblica — “e tu eliminarás o sangue inocente do meio de ti, quando fizeres o que é reto aos olhos do Eterno” —, mostrando que a obrigação de executar o assassino, mesmo depois de a novilha já ter sido decapitada e ter cumprido sua função expiatória sobre a dúvida, decorre diretamente do texto da Torá: a expiação ritual da incerteza jamais substitui a exigência de justiça sobre o crime real, uma vez este seja provado.
Rashi (Sotá 47a, 47b), Rambam e Bartenura sobre os três desfechos possíveis.
Rashi assinala que a opinião desta mishná — segundo a qual o animal ainda não decapitado permanece plenamente comum, podendo pastar livremente — reflete uma posição tannaítica específica, distinta de outra tradição segundo a qual a novilha já se torna proibida para uso desde o momento em que é separada para o ritual, mesmo antes da decapitação (disputa detalhada no tratado Keritot). Quanto à novilha já decapitada, Rashi nota um detalhe fino: mesmo tendo cumprido sua função de expiar a dúvida, ela permanece proibida para qualquer proveito — como um item sagrado —, pois o próprio texto bíblico associa a ela a linguagem de “expiação”, típica das oferendas consagradas.
Rambam enfatiza a lógica temporal que estrutura toda a mishná: o status da novilha — comum, sagrada ou já consumida em sua função — depende inteiramente do momento exato da descoberta do assassino em relação à decapitação, refletindo o princípio de que o ritual existe apenas para preencher o vazio de uma incerteza real; assim que essa incerteza deixa de existir, seja antes seja depois do ato ritual, a lei se ajusta imediatamente à nova realidade conhecida.
Bartenura resume os três desfechos com precisão cirúrgica: antes da decapitação, o animal é comum como qualquer outro; depois da decapitação, “ela fez o que lhe cabia” — cumpriu integralmente sua função expiatória sobre a dúvida, independentemente do que se descubra depois; e, se o verdadeiro assassino aparece depois de tudo consumado, o mandamento bíblico de “eliminar o sangue inocente do meio de ti” exige sua execução, sem que a expiação ritual anterior tenha qualquer efeito sobre seu julgamento pessoal.