Os anciãos daquela cidade lavavam suas mãos com água no lugar da decapitação da novilha, e diziam: “Nossas mãos não derramaram este sangue, e nossos olhos não viram.” E acaso nos ocorreria que os anciãos do tribunal são derramadores de sangue? Mas sim, que ele não veio até nós e o dispensamos sem alimento, e não o vimos e o deixamos sem acompanhamento. E os sacerdotes diziam: “Perdoa a teu povo Israel, que resgataste, ó Eterno, e não ponhas sangue inocente no meio de teu povo Israel.” Não precisavam dizer “e o sangue lhes será perdoado” — mas o Espírito Santo anunciava-lhes: sempre que fizerdes assim, o sangue lhes é perdoado. — A mishná esclarece que a declaração dos anciãos não é uma negação literal de culpa por assassinato — ninguém suspeitaria os membros do próprio tribunal de terem matado com as próprias mãos —, mas uma confissão de negligência num sentido mais amplo: reconhecem não terem garantido que nenhum viajante partisse de sua cidade sem provisões suficientes, nem que ninguém saísse sozinho, sem acompanhamento, exposto ao perigo. É essa omissão social e comunitária, e não o ato de matar, que as “mãos não derramaram” nega. Os sacerdotes, por sua vez, pedem perdão coletivo para todo o povo. E a mishná revela um detalhe surpreendente sobre a construção do próprio versículo bíblico: a Torá não precisava garantir explicitamente que “o sangue lhes será perdoado” — pois isso decorreria naturalmente da lógica do ritual —, mas o fez porque, segundo a tradição, essa frase final não é parte da oração dos sacerdotes, e sim uma promessa do próprio Espírito Santo, anunciando de antemão que, sempre que o ritual for cumprido dessa forma, o sangue derramado será de fato expiado.
Rambam sintetiza o sentido exato das expressões usadas pelos anciãos.
Rambam esclarece um ponto gramatical relevante: os pronomes na declaração dos anciãos (“não veio até nós”, “não o vimos”, “o deixamos”) referem-se ao próprio homem que depois foi encontrado morto — a declaração afirma que o tribunal não foi negligente em relação a essa pessoa específica antes de sua morte, de modo que não se possa dizer que a comunidade, por omissão, contribuiu indiretamente para o assassinato.
Rashi (Sotá 45b–46a), Rambam e Bartenura sobre o sentido da confissão dos anciãos.
Rashi propõe uma leitura notavelmente concreta da declaração: “não veio até nós e o dispensamos” significa que o tribunal não é culpado de ter enviado o viajante embora sem provisões suficientes, forçando-o a assaltar outros para sobreviver e, nesse processo, ser morto — de modo que sua morte teria uma raiz, ainda que remota, na negligência da cidade. “Não o vimos e o deixamos” refere-se a tê-lo deixado partir sozinho, sem companhia que o protegesse. E, sobre a cláusula final do versículo, Rashi confirma que ela não é parte da fala dos sacerdotes, mas uma garantia profética transmitida a Israel por meio de Moshe: sempre que o ritual for cumprido corretamente, o sangue será, de fato, perdoado.
Rambam observa que toda a estrutura da declaração — lavar as mãos, negar a culpa, especificar em que consistiria essa culpa — funciona como uma espécie de exame de consciência público e formalizado da liderança comunitária, obrigada a certificar-se, diante de toda a cidade, de que cumpriu seus deveres básicos de hospitalidade e proteção para com qualquer viajante, antes de poder alegar inocência pelo sangue derramado em seu território.
Bartenura confirma, em fórmula concisa, a mesma leitura de Rashi: a negação dos anciãos refere-se a não terem deixado o viajante partir sem mantimentos nem sem companhia — as duas formas concretas pelas quais uma comunidade poderia, por negligência, contribuir para a morte de um estranho em seu território, ainda que sem qualquer intenção ou ato direto de violência.