Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Tet · Mishná 6 de 15

Nossas mãos não derramaram este sangue: a declaração dos anciãos

יָדֵינוּ לֹא שָׁפְכוּ אֶת הַדָּם הַזֶּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

No ponto culminante do ritual, a mishná explica o sentido preciso da declaração dos anciãos e da súplica dos sacerdotes — e revela que o próprio versículo seguinte é, segundo a tradição, um anúncio profético.

Os anciãos daquela cidade lavavam suas mãos com água no lugar da decapitação da novilha, e diziam: “Nossas mãos não derramaram este sangue, e nossos olhos não viram.” E acaso nos ocorreria que os anciãos do tribunal são derramadores de sangue? Mas sim, que ele não veio até nós e o dispensamos sem alimento, e não o vimos e o deixamos sem acompanhamento. E os sacerdotes diziam: “Perdoa a teu povo Israel, que resgataste, ó Eterno, e não ponhas sangue inocente no meio de teu povo Israel.” Não precisavam dizer “e o sangue lhes será perdoado” — mas o Espírito Santo anunciava-lhes: sempre que fizerdes assim, o sangue lhes é perdoado.A mishná esclarece que a declaração dos anciãos não é uma negação literal de culpa por assassinato — ninguém suspeitaria os membros do próprio tribunal de terem matado com as próprias mãos —, mas uma confissão de negligência num sentido mais amplo: reconhecem não terem garantido que nenhum viajante partisse de sua cidade sem provisões suficientes, nem que ninguém saísse sozinho, sem acompanhamento, exposto ao perigo. É essa omissão social e comunitária, e não o ato de matar, que as “mãos não derramaram” nega. Os sacerdotes, por sua vez, pedem perdão coletivo para todo o povo. E a mishná revela um detalhe surpreendente sobre a construção do próprio versículo bíblico: a Torá não precisava garantir explicitamente que “o sangue lhes será perdoado” — pois isso decorreria naturalmente da lógica do ritual —, mas o fez porque, segundo a tradição, essa frase final não é parte da oração dos sacerdotes, e sim uma promessa do próprio Espírito Santo, anunciando de antemão que, sempre que o ritual for cumprido dessa forma, o sangue derramado será de fato expiado.

זִקְנֵי אוֹתָהּ הָעִיר רוֹחֲצִין אֶת יְדֵיהֶן בַּמַּיִם בִּמְקוֹם עֲרִיפָה שֶׁל עֶגְלָה, וְאוֹמְרִים, יָדֵינוּ לֹא שָׁפְכֻה אֶת הַדָּם הַזֶּה וְעֵינֵינוּ לֹא רָאוּ. וְכִי עַל דַּעְתֵּנוּ עָלְתָה, שֶׁזִּקְנֵי בֵית דִּין שׁוֹפְכֵי דָמִים הֵן, אֶלָּא שֶׁלֹּא בָא לְיָדֵינוּ וּפְטַרְנוּהוּ בְלֹא מָזוֹן, וְלֹא רְאִינוּהוּ וְהִנַּחְנוּהוּ בְלֹא לְוָיָה. וְהַכֹּהֲנִים אוֹמְרִים, כַּפֵּר לְעַמְּךָ יִשְׂרָאֵל אֲשֶׁר פָּדִיתָ ה' וְאַל תִּתֵּן דָּם נָקִי בְּקֶרֶב עַמְּךָ יִשְׂרָאֵל. לֹא הָיוּ צְרִיכִים לוֹמַר וְנִכַּפֵּר לָהֶם הַדָּם, אֶלָּא רוּחַ הַקֹּדֶשׁ מְבַשַּׂרְתָּן, אֵימָתַי שֶׁתַּעֲשׂוּ כָּכָה, הַדָּם מִתְכַּפֵּר לָהֶם

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Devarim 21:7–8
יָדֵינוּ לֹא שָׁפְכוּ אֶת הַדָּם הַזֶּה וְעֵינֵינוּ לֹא רָאוּ. כַּפֵּר לְעַמְּךָ יִשְׂרָאֵל אֲשֶׁר פָּדִיתָ ה׳ וְאַל תִּתֵּן דָּם נָקִי בְּקֶרֶב עַמְּךָ יִשְׂרָאֵל, וְנִכַּפֵּר לָהֶם הַדָּם
“Nossas mãos não derramaram este sangue, e nossos olhos não viram. Perdoa a teu povo Israel, que resgataste, ó Eterno, e não ponhas sangue inocente no meio de teu povo Israel — e o sangue lhes será perdoado.”
Nota: a mishná lê a última cláusula do versículo — “e o sangue lhes será perdoado” — não como parte do que os sacerdotes dizem, mas como uma garantia divina anunciada por profecia (רוּחַ הַקֹּדֶשׁ), que assegura de antemão o resultado do ritual quando corretamente cumprido.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam sintetiza o sentido exato das expressões usadas pelos anciãos.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 9:6
זִקְנֵי אוֹתָהּ הָעִיר רוֹחֲצִין אֶת יְדֵיהֶן כַּמַּיִם כוּ': אֵלּוּ הַכִּנּוּיִים שֶׁאוֹמֵר פְּטַרְנוּהוּ וּרְאִינוּהוּ וְהִנַּחְנוּהוּ חוֹזְרִין עַל הַהָרוּג, רוֹצֶה לוֹמַר בְּכָךְ שֶׁאָנוּ לֹא פָּשַׁעְנוּ בּוֹ וְלֹא חָטָאנוּ בְּעִנְיָנוֹ שֶׁנִּהְיֶה כְּאִלּוּ סִבַּבְנוּ הֲרִיגָתוֹ

Rambam esclarece um ponto gramatical relevante: os pronomes na declaração dos anciãos (“não veio até nós”, “não o vimos”, “o deixamos”) referem-se ao próprio homem que depois foi encontrado morto — a declaração afirma que o tribunal não foi negligente em relação a essa pessoa específica antes de sua morte, de modo que não se possa dizer que a comunidade, por omissão, contribuiu indiretamente para o assassinato.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi (Sotá 45b–46a), Rambam e Bartenura sobre o sentido da confissão dos anciãos.

Rashi · רש״י
Sotá 45b–46a, sobre a mishná
לֹא בָא לְיָדֵינוּ וּפְטַרְנוּהוּ - בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ בְּלֹא מָזוֹנוֹת, וְהַיְינוּ יָדֵינוּ לֹא שָׁפְכוּ, לֹא נֶהֱרַג עַל יָדֵינוּ שֶׁפְּטַרְנוּהוּ בְּלֹא מָזוֹנוֹת וְהֻצְרַךְ לְלִסְטֵם אֶת הַבְּרִיּוֹת וְעַל כָּךְ נֶהֱרַג: לֹא רְאִינוּהוּ וְהִנַּחְנוּהוּ - יְחִידִי בְּלֹא חֲבוּרָה, וְהַיְינוּ וְעֵינֵינוּ לֹא רָאוּ: וְהַכֹּהֲנִים אוֹמְרִים - כִּדְכְתִיב לְעֵיל וְנִגְּשׁוּ הַכֹּהֲנִים בְּנֵי לֵוִי: וְלֹא הָיוּ צְרִיכִים לוֹמַר וְנִכַּפֵּר לָהֶם הַדָּם - כְּלוֹמַר שֶׁרוּחַ הַקֹּדֶשׁ בִּשְּׂרָה אֶת יִשְׂרָאֵל עַל יְדֵי מֹשֶׁה רַבֵּנוּ, לְכִשְׁיַּעֲשׂוּ כֵן וְנִכַּפֵּר לָהֶם הַדָּם

Rashi propõe uma leitura notavelmente concreta da declaração: “não veio até nós e o dispensamos” significa que o tribunal não é culpado de ter enviado o viajante embora sem provisões suficientes, forçando-o a assaltar outros para sobreviver e, nesse processo, ser morto — de modo que sua morte teria uma raiz, ainda que remota, na negligência da cidade. “Não o vimos e o deixamos” refere-se a tê-lo deixado partir sozinho, sem companhia que o protegesse. E, sobre a cláusula final do versículo, Rashi confirma que ela não é parte da fala dos sacerdotes, mas uma garantia profética transmitida a Israel por meio de Moshe: sempre que o ritual for cumprido corretamente, o sangue será, de fato, perdoado.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 9:6
זִקְנֵי אוֹתָהּ הָעִיר רוֹחֲצִין אֶת יְדֵיהֶן כַּמַּיִם כוּ': אֵלּוּ הַכִּנּוּיִים... רוֹצֶה לוֹמַר בְּכָךְ שֶׁאָנוּ לֹא פָּשַׁעְנוּ בּוֹ

Rambam observa que toda a estrutura da declaração — lavar as mãos, negar a culpa, especificar em que consistiria essa culpa — funciona como uma espécie de exame de consciência público e formalizado da liderança comunitária, obrigada a certificar-se, diante de toda a cidade, de que cumpriu seus deveres básicos de hospitalidade e proteção para com qualquer viajante, antes de poder alegar inocência pelo sangue derramado em seu território.

Bartenura · רע״ב
Sotá 9:6
לֹא בָא לְיָדֵינוּ וּפְטַרְנוּהוּ. בְּלֹא מְזוֹנוֹת: וְלֹא רְאִינוּהוּ וְהִנַּחְנוּהוּ. יְחִידִי בְּלֹא חֲבוּרָה

Bartenura confirma, em fórmula concisa, a mesma leitura de Rashi: a negação dos anciãos refere-se a não terem deixado o viajante partir sem mantimentos nem sem companhia — as duas formas concretas pelas quais uma comunidade poderia, por negligência, contribuir para a morte de um estranho em seu território, ainda que sem qualquer intenção ou ato direto de violência.