Retiravam-se os anciãos de Jerusalém e iam embora. Os anciãos daquela cidade traziam “uma novilha do gado que não foi trabalhada, que não puxou o jugo”, e o defeito físico não a invalida, e a desciam a um vale robusto. E “robusto” — como o sentido indica: duro. Ainda que não seja robusto, é válida. E a decapitavam com um cutelo por trás de seu pescoço. E seu lugar é proibido de semear e de trabalhar, mas é permitido pentear ali linho e talhar ali pedras. — Concluída a fase judicial da medição, a mishná passa à execução do ritual propriamente dito, agora sob responsabilidade exclusiva da cidade identificada como a mais próxima — os anciãos de Jerusalém, cujo papel se esgotava em medir, retornam para casa. A novilha deve ser um animal jovem, nunca submetido a trabalho algum, e a mishná esclarece que um defeito físico (que normalmente desqualificaria um animal para oferendas) aqui não invalida, pois a novilha não é um korban no sentido técnico. Desce-se o animal a um “nachal eitan” — um vale “robusto”, que a mishná interpreta literalmente como terreno duro e não cultivado, embora reafirme que, mesmo faltando essa robustez, o ritual permanece válido, pois a palavra não é condição indispensável (le'ikuvá), mas recomendação (le-mitzvá). A decapitação é feita por trás do pescoço, com um instrumento cortante grande — inversão simbólica do sacrifício comum, que normalmente é degolado pela frente. Por fim, o lugar da decapitação fica permanentemente interditado para semeadura e lavoura — como memorial perpétuo do sangue derramado —, mas permanecem permitidos ali trabalhos que não envolvem o próprio solo, como pentear linho ou talhar pedras.
Rambam esclarece o sentido de “robusto”, o instrumento da decapitação, e o alcance exato da proibição de trabalhar o local.
Rambam explica que “eitan” significa, em seu uso bíblico geral, algo “grande” ou “forte” — daí a leitura de que o terreno deve ser duro e não cultivado; mas, mesmo faltando essa dureza extrema, o ritual permanece válido, contanto que o lugar não tenha sido cultivado. Identifica o “kofitz” como uma faca grande e larga, própria para cortar carne. E fixa exatamente o alcance da proibição de trabalhar o terreno: aplica-se apenas a atividades que envolvem diretamente o solo (como arar ou semear), mas não a trabalhos realizados sobre o terreno sem afetá-lo — como pentear linho estendido no chão ou talhar pedras ali colhidas.
Rashi (Sotá 45b–46b), Rambam e Bartenura sobre a execução do ritual e o lugar interditado.
Rashi confirma que a função dos anciãos de Jerusalém encerra-se com a medição, cumprindo à risca o mandamento “sairão... e medirão”; a partir daí, o encargo passa inteiramente à cidade mais próxima. Reafirma que a exigência de um vale “robusto” não é condição essencial, mas apenas recomendação — o ritual continua válido mesmo num terreno comum. Identifica precisamente “por trás” como o lado oposto ao pescoço frontal — decapitação pela nuca. E enfatiza que a proibição de trabalhar o local é permanente, “para sempre”, mas restrita a atividades que tocam diretamente o corpo da terra, como esclarecido em detalhe pela Guemará.
Rambam sublinha que a interdição perpétua do lugar da decapitação — visível a todos os que passam por ali, ano após ano, sem lavoura nem semeadura — funciona como um memorial público do derramamento de sangue que ali foi, ao menos ritualmente, expiado; e insiste que essa marca no terreno não impede trabalhos que não penetram o solo, distinção que ecoa a lógica geral da halachá de separar o que é “trabalho da terra em si” do que apenas se realiza sobre ela.
Bartenura percorre cada expressão da mishná em sequência — a dispensa dos anciãos de Jerusalém, a robustez do vale como recomendação e não requisito, o kofitz como faca grande, a decapitação pela nuca, a interdição perpétua — e fecha explicando a regra hermenêutica por trás da distinção entre trabalhos proibidos e permitidos: assim como “semear” é, por definição, uma atividade realizada no próprio corpo da terra, toda atividade análoga (lavrar, arar) também se proíbe; mas pentear linho estendido sobre o solo, ou talhar pedras ali recolhidas, não tocam o corpo da terra em si, e por isso permanecem permitidos mesmo no local interditado.