Se foi encontrado escondido num monte, ou pendurado numa árvore, ou flutuando sobre a água, não se decapitava; pois foi dito “na terra” — e não escondido num monte; “caído” — e não pendurado numa árvore; “no campo” — e não flutuando sobre a água. Se foi encontrado próximo à fronteira, ou a uma cidade de maioria não-judaica, ou a uma cidade que não tem tribunal, não se decapitava. Não se mede senão a partir de uma cidade que tem tribunal. Se foi encontrado exatamente entre duas cidades, ambas trazem duas novilhas — palavras de Rabi Eliezer. E Jerusalém não traz novilha decapitada. — A mishná encadeia quatro derivações exegéticas que excluem o ritual em circunstâncias específicas: um corpo escondido sob pedras, pendurado numa árvore ou boiando na água não se enquadra nas palavras exatas do versículo — “na terra”, “caído”, “no campo” — cada expressão lida como excluindo um modo de morte que não corresponde a ela literalmente. Em seguida, exclui-se o ritual quando o corpo é achado perto da fronteira com nações estrangeiras, perto de uma cidade majoritariamente não-judaica, ou perto de uma cidade sem tribunal próprio — pois medir supõe uma cidade cujos anciãos possam sair e assumir a responsabilidade. E, no caso-limite de um cadáver equidistante entre duas cidades, Rabi Eliezer determina que ambas trazem, cada uma, sua própria novilha; a mishná fecha com a exceção de Jerusalém, que — por não ter sido dividida entre as tribos como herança territorial — nunca traz novilha decapitada, mesmo quando seria a cidade mais próxima.
Rambam explica por que a proximidade da fronteira exclui o ritual, e confirma a halachá no caso do cadáver equidistante.
Rambam explica que a proximidade da fronteira (סְפָר) equivale, juridicamente, a “trazer-se a si mesmo à morte”: quem se encontra morto perto do território de outras nações não gera obrigação de novilha decapitada, pois sua morte pode ser atribuída ao perigo inerente àquela vizinhança, e não a uma falha da comunidade judaica mais próxima. Sobre o caso do corpo encontrado exatamente entre duas cidades, Rambam nota que, embora Rabi Eliezer fale em “duas novilhas”, a halachá segue a conclusão da Guemará em Bechorot: as duas cidades trazem, em sociedade, uma única novilha.
Rashi (Sotá 44b–45b), Rambam e Bartenura sobre os limites territoriais do ritual.
Rashi identifica “gal” como um monte de pedras, esclarecendo o que significa um cadáver “escondido num monte”. Sobre a exclusão das cidades fronteiriças, sem tribunal ou de maioria não-judaica, remete à explicação detalhada da Guemará. E, sobre o caso do corpo “exatamente” entre duas cidades, precisa que a palavra מְכֻוָּן significa uma equidistância absoluta, tal que nenhuma das cidades esteja mais próxima nem por um fio de cabelo — daí a necessidade de uma regra especial para essa situação-limite, já que a medição ordinária não consegue decidir entre elas.
Rambam liga a exclusão de Jerusalém a uma leitura precisa da frase “na terra que o Eterno teu Deus te dá para possuí-la”: a posse territorial ali mencionada refere-se à divisão da Terra de Israel entre as doze tribos como herança hereditária, e Jerusalém — cidade que, segundo a tradição, nunca foi formalmente dividida ou possuída por nenhuma tribo em particular, pertencendo a todo o povo — está excluída dessa categoria, por mais próxima que esteja do cadáver. Quanto à medição, nota que Rabi Eliezer permite alguma imprecisão de cálculo, enquanto o tanna kama exige que a proximidade de uma cidade seja demonstrável com exatidão.
Bartenura explica a expressão “סָמוּךְ לַסְּפָר” como junto à fronteira das nações, e traz a leitura talmúdica segundo a qual “se for encontrado” exclui quem, por assim dizer, “trouxe-se a si mesmo” à morte ao permanecer perto de território estrangeiro perigoso. Sobre o cadáver equidistante entre duas cidades, esclarece que a opinião de Rabi Eliezer — duas novilhas separadas — não é a halachá final; a conclusão da Guemará em Bechorot é que as duas cidades trazem, juntas, uma única novilha em sociedade. E reafirma, com a mesma leitura de Rambam, que Jerusalém está excluída por nunca ter sido dividida entre as tribos como herança.