Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Tet · Mishná 2 de 15

Onde o ritual da novilha decapitada não se aplica

נִמְצָא טָמוּן בְּגַל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná restringe o âmbito do ritual da novilha decapitada a partir de leituras exegéticas minuciosas do versículo, e resolve o caso-limite de um cadáver encontrado exatamente entre duas cidades.

Se foi encontrado escondido num monte, ou pendurado numa árvore, ou flutuando sobre a água, não se decapitava; pois foi dito “na terra” — e não escondido num monte; “caído” — e não pendurado numa árvore; “no campo” — e não flutuando sobre a água. Se foi encontrado próximo à fronteira, ou a uma cidade de maioria não-judaica, ou a uma cidade que não tem tribunal, não se decapitava. Não se mede senão a partir de uma cidade que tem tribunal. Se foi encontrado exatamente entre duas cidades, ambas trazem duas novilhas — palavras de Rabi Eliezer. E Jerusalém não traz novilha decapitada.A mishná encadeia quatro derivações exegéticas que excluem o ritual em circunstâncias específicas: um corpo escondido sob pedras, pendurado numa árvore ou boiando na água não se enquadra nas palavras exatas do versículo — “na terra”, “caído”, “no campo” — cada expressão lida como excluindo um modo de morte que não corresponde a ela literalmente. Em seguida, exclui-se o ritual quando o corpo é achado perto da fronteira com nações estrangeiras, perto de uma cidade majoritariamente não-judaica, ou perto de uma cidade sem tribunal próprio — pois medir supõe uma cidade cujos anciãos possam sair e assumir a responsabilidade. E, no caso-limite de um cadáver equidistante entre duas cidades, Rabi Eliezer determina que ambas trazem, cada uma, sua própria novilha; a mishná fecha com a exceção de Jerusalém, que — por não ter sido dividida entre as tribos como herança territorial — nunca traz novilha decapitada, mesmo quando seria a cidade mais próxima.

נִמְצָא טָמוּן בְּגַל, אוֹ תָלוּי בְּאִילָן, אוֹ צָף עַל פְּנֵי הַמַּיִם, לֹא הָיוּ עוֹרְפִין, שֶׁנֶּאֱמַר (שם) בָּאֲדָמָה, וְלֹא טָמוּן בְּגַל. נֹפֵל, וְלֹא תָלוּי בְּאִילָן. בַּשָּׂדֶה, וְלֹא צָף עַל פְּנֵי הַמָּיִם. נִמְצָא סָמוּךְ לַסְּפָר, אוֹ לְעִיר שֶׁרֻבָּהּ נָכְרִים, אוֹ לְעִיר שֶׁאֵין בָּהּ בֵּית דִּין, לֹא הָיוּ עוֹרְפִין. אֵין מוֹדְדִין אֶלָּא מֵעִיר שֶׁיֵּשׁ בָּהּ בֵּית דִּין. נִמְצָא מְכֻוָּן בֵּין שְׁתֵּי עֲיָרוֹת, שְׁתֵּיהֶן מְבִיאוֹת שְׁתֵּי עֲגָלוֹת, דִּבְרֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר. וְאֵין יְרוּשָׁלַיִם מְבִיאָה עֶגְלָה עֲרוּפָה

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Devarim 21:1
כִּי יִמָּצֵא חָלָל בָּאֲדָמָה... נֹפֵל בַּשָּׂדֶה
“Se for encontrado um morto na terra... caído no campo” — cada termo lido como excluindo, respectivamente, o que está escondido, o que está suspenso e o que flutua.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que a proximidade da fronteira exclui o ritual, e confirma a halachá no caso do cadáver equidistante.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 9:2
נִמְצָא טָמוּן בְּגַל אוֹ תָלוּי בְּאִילָן אוֹ צָף עַל פְּנֵי הַמַּיִם כוּ': נֶאֱמַר בַּתּוֹרָה כִּי יִמָּצֵא, וּכְשֶׁהָיָה קָרוֹב לַעֲיָירוֹת הָעַכּוּ״ם הִשְׁכִּירֻם לָנוּ וְהֵם נִקְרָאוֹת סְפָר, הֲרֵי הוּא כְּאִלּוּ הִמְצִיא עַצְמוֹ לְמִיתָה... וְכֵן הֲלָכָה

Rambam explica que a proximidade da fronteira (סְפָר) equivale, juridicamente, a “trazer-se a si mesmo à morte”: quem se encontra morto perto do território de outras nações não gera obrigação de novilha decapitada, pois sua morte pode ser atribuída ao perigo inerente àquela vizinhança, e não a uma falha da comunidade judaica mais próxima. Sobre o caso do corpo encontrado exatamente entre duas cidades, Rambam nota que, embora Rabi Eliezer fale em “duas novilhas”, a halachá segue a conclusão da Guemará em Bechorot: as duas cidades trazem, em sociedade, uma única novilha.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi (Sotá 44b–45b), Rambam e Bartenura sobre os limites territoriais do ritual.

Rashi · רש״י
Sotá 44b–45b, sobre a mishná
בְּגַל - גַּל שֶׁל אֲבָנִים: נִמְצָא סָמוּךְ לַסְּפָר כוּ' - מְפָרֵשׁ טַעְמָא בַּגְּמָרָא: מַתְנִי׳ מְכֻוָּן - מְצֻמְצָם, שֶׁאֵין זוֹ קְרוֹבָה לוֹ מִזּוֹ אֲפִלּוּ כִּמְלֹא חוּט: וְאֵין יְרוּשָׁלַיִם כוּ' - מְפָרֵשׁ טַעְמָא בַּגְּמָרָא

Rashi identifica “gal” como um monte de pedras, esclarecendo o que significa um cadáver “escondido num monte”. Sobre a exclusão das cidades fronteiriças, sem tribunal ou de maioria não-judaica, remete à explicação detalhada da Guemará. E, sobre o caso do corpo “exatamente” entre duas cidades, precisa que a palavra מְכֻוָּן significa uma equidistância absoluta, tal que nenhuma das cidades esteja mais próxima nem por um fio de cabelo — daí a necessidade de uma regra especial para essa situação-limite, já que a medição ordinária não consegue decidir entre elas.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 9:2
נִמְצָא טָמוּן בְּגַל אוֹ תָלוּי בְּאִילָן אוֹ צָף עַל פְּנֵי הַמַּיִם כוּ': נֶאֱמַר בַּתּוֹרָה כִּי יִמָּצֵא... וְנֶאֱמַר בַּתּוֹרָה בָּאֲדָמָה אֲשֶׁר ה׳ אֱלֹהֶיךָ נֹתֵן לְךָ לְרִשְׁתָּהּ, וִירוּשָׁלַיִם לֹא נִתְחַלְּקָה לַשְּׁבָטִים, וּלְכָךְ אֵינָהּ מְבִיאָה עֶגְלָה עֲרוּפָה

Rambam liga a exclusão de Jerusalém a uma leitura precisa da frase “na terra que o Eterno teu Deus te dá para possuí-la”: a posse territorial ali mencionada refere-se à divisão da Terra de Israel entre as doze tribos como herança hereditária, e Jerusalém — cidade que, segundo a tradição, nunca foi formalmente dividida ou possuída por nenhuma tribo em particular, pertencendo a todo o povo — está excluída dessa categoria, por mais próxima que esteja do cadáver. Quanto à medição, nota que Rabi Eliezer permite alguma imprecisão de cálculo, enquanto o tanna kama exige que a proximidade de uma cidade seja demonstrável com exatidão.

Bartenura · רע״ב
Sotá 9:2
נִמְצָא סָמוּךְ לַסְּפָר. אֵצֶל גְּבוּל הַגּוֹיִם: לֹא הָיוּ מוֹדְדִים. דִּכְתִיב כִּי יִמָּצֵא חָלָל, פְּרָט לְמַמְצִיא אֶת עַצְמוֹ, שֶׁסָּמוּךְ לִגְבוּל הַגּוֹיִם כְּאִלּוּ הִמְצִיא עַצְמוֹ לְמִיתָה הוּא... שְׁתֵּיהֶן מְבִיאוֹת שְׁתֵּי עֲגָלוֹת דִּבְרֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, וְאֵין כֵּן הֲלָכָה, אֶלָּא שְׁתֵּיהֶן מְבִיאוֹת עֶגְלָה אַחַת בְּשֻׁתָּפוּת... אֵין יְרוּשָׁלַיִם מְבִיאָה עֶגְלָה עֲרוּפָה. דִּכְתִיב בָּאֲדָמָה אֲשֶׁר ה׳ אֱלֹהֶיךָ נוֹתֵן לְךָ נַחֲלָה לְרִשְׁתָּהּ, פְּרָט לִירוּשָׁלַיִם שֶׁלֹּא נִתְחַלְּקָה לִשְׁבָטִים

Bartenura explica a expressão “סָמוּךְ לַסְּפָר” como junto à fronteira das nações, e traz a leitura talmúdica segundo a qual “se for encontrado” exclui quem, por assim dizer, “trouxe-se a si mesmo” à morte ao permanecer perto de território estrangeiro perigoso. Sobre o cadáver equidistante entre duas cidades, esclarece que a opinião de Rabi Eliezer — duas novilhas separadas — não é a halachá final; a conclusão da Guemará em Bechorot é que as duas cidades trazem, juntas, uma única novilha em sociedade. E reafirma, com a mesma leitura de Rambam, que Jerusalém está excluída por nunca ter sido dividida entre as tribos como herança.