Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Tet · Mishná 1 de 15

Abrindo o Perek Tet: a novilha decapitada e a língua sagrada

עֶגְלָה עֲרוּפָה בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Tet — e a seção final de todo o tratado Sotá —, a mishná retoma o ritual da novilha decapitada, instituído em Devarim 21 para o caso de um homicídio sem testemunhas, e discute quantos juízes do Sinédrio saem para medir a distância até o cadáver.

A novilha decapitada — na língua sagrada, como foi dito: “Se for encontrado um morto... e sairão teus anciãos e teus juízes” (Devarim 21). Três do Grande Tribunal que está em Jerusalém saíam. Rabi Yehudá diz: cinco — pois foi dito “teus anciãos”, dois, e “teus juízes”, dois, e um tribunal não pode ser par; acrescenta-se a eles mais um.Abrindo o Perek Tet — e a última seção de todo o tratado Sotá —, a mishná retoma o ritual da עֶגְלָה עֲרוּפָה (a novilha de pescoço quebrado), instituído em Devarim 21 para o caso de um cadáver encontrado no campo sem que se saiba quem o matou. Fixa, antes de tudo, que a confissão pronunciada pelos anciãos e a fórmula recitada pelos sacerdotes devem ser ditas exclusivamente na língua sagrada, o hebraico, e determina quantos juízes do Sinédrio de Jerusalém saem para medir a distância entre o cadáver e as cidades vizinhas: o tanna kama fala em três, extraindo dois do termo “teus anciãos” e um do requisito de que todo tribunal tenha número ímpar; Rabi Yehudá, lendo também “teus juízes” como indicando dois juízes adicionais, eleva o número a cinco.

עֶגְלָה עֲרוּפָה, בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר (דברים כא) כִּי יִמָּצֵא חָלָל בָּאֲדָמָה וְגוֹ' וְיָצְאוּ זְקֵנֶיךָ וְשֹׁפְטֶיךָ, שְׁלשָׁה מִבֵּית דִּין הַגָּדוֹל שֶׁבִּירוּשָׁלַיִם הָיוּ יוֹצְאִין. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר חֲמִשָּׁה, שֶׁנֶּאֱמַר זְקֵנֶיךָ, שְׁנַיִם, וְשֹׁפְטֶיךָ, שְׁנַיִם, וְאֵין בֵּית דִּין שָׁקוּל, מוֹסִיפִין עֲלֵיהֶן עוֹד אֶחָד

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Devarim 21:1–2
כִּי יִמָּצֵא חָלָל בָּאֲדָמָה אֲשֶׁר יְהוָה אֱלֹהֶיךָ נֹתֵן לְךָ לְרִשְׁתָּהּ, נֹפֵל בַּשָּׂדֶה, לֹא נוֹדַע מִי הִכָּהוּ. וְיָצְאוּ זְקֵנֶיךָ וְשֹׁפְטֶיךָ וּמָדְדוּ אֶל הֶעָרִים אֲשֶׁר סְבִיבֹת הֶחָלָל
“Se for encontrado um morto na terra que o Eterno teu Deus te dá para possuí-la, caído no campo, sem que se saiba quem o feriu, sairão teus anciãos e teus juízes, e medirão até as cidades que estão ao redor do morto.”

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam identifica a base textual da exigência do hebraico e explica o conceito de “tribunal par”.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 9:1
עֶגְלָה עֲרוּפָה בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ שֶׁנֶּאֱמַר כִּי יִמָּצֵא כוּ': נֶאֱמַר בְּעֶגְלָה עֲרוּפָה וְעָנוּ וְאָמְרוּ, וְנֶאֱמַר וְעָנוּ הַלְוִיִּם וְאָמְרוּ אֶל כָּל אִישׁ יִשְׂרָאֵל, מַה לְּהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ... וְעִנְיַן בֵּית דִּין שָׁקוּל שֶׁיְּהֵא מִנְיָן מְיֻחָד עַד שֶׁאֶפְשָׁר לִהְיוֹת בּוֹ אַחֲרֵי רַבִּים לְהַטּוֹת, כְּמוֹ שֶׁנְּבָאֵר בִּתְחִלַּת סַנְהֶדְרִין

Rambam explica que a exigência de recitar em hebraico é extraída por analogia verbal: no trecho da novilha decapitada está escrito “e responderão e dirão”, e a mesma expressão aparece a respeito dos levitas que, no Monte Gerizim e no Monte Eival, “responderão e dirão a todo homem de Israel” — ali a Torá exige explicitamente o hebraico, e por analogia verbal também aqui. Quanto ao “tribunal par”, explica que um tribunal deve ter um número determinado de membros tal que seja sempre possível decidir “atrás da maioria” — o mesmo princípio que será desenvolvido no início do tratado Sanhedrin.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi (sobre a Guemará, Sotá 44b), Rambam e Bartenura sobre a abertura do Perek Tet.

Rashi · רש״י
Sotá 44b, sobre a mishná
מַתְנִי׳ עֶגְלָה עֲרוּפָה בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ - נֶאֱמֶרֶת, מַה שֶּׁהַזְּקֵנִים אוֹמְרִים יָדֵינוּ לֹא שָׁפְכוּ וְהַכֹּהֲנִים אוֹמְרִים כַּפֵּר לְעַמְּךָ יִשְׂרָאֵל, בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ הֻזְקְקוּ מִן הַתּוֹרָה לְאָמְרָהּ: שֶׁנֶּאֱמַר כִּי יִמָּצֵא חָלָל - וּבַגְּמָרָא פָּרִיךְ הֵיכִי יָלֵיף מֵהָכָא: הָיוּ יוֹצְאִין - וּבָאִין שָׁם וּמוֹדְדִין מִן הֶחָלָל לְצַד הָעֲיָרוֹת שֶׁסְּבִיבוֹתָיו לֵידַע אֵיזוֹ קְרוֹבָה

Rashi esclarece que a “língua sagrada” refere-se especificamente às duas fórmulas do ritual — a declaração dos anciãos, “nossas mãos não derramaram este sangue”, e a fórmula sacerdotal, “perdoa a teu povo Israel” —, que a Torá exige que sejam pronunciadas em hebraico. Observa que a Guemará questiona como exatamente esse requisito se extrai do versículo “se for encontrado um morto”, sinalizando que a derivação depende de uma analogia verbal explicada adiante, e não é evidente à primeira leitura. E explica que os juízes efetivamente saem e se deslocam até o local para medir a distância entre o cadáver e as cidades vizinhas, a fim de determinar qual delas está mais próxima.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 9:1
עֶגְלָה עֲרוּפָה בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ שֶׁנֶּאֱמַר כִּי יִמָּצֵא כוּ': נֶאֱמַר בְּעֶגְלָה עֲרוּפָה וְעָנוּ וְאָמְרוּ... אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ. וְעִנְיַן בֵּית דִּין שָׁקוּל שֶׁיְּהֵא מִנְיָן מְיֻחָד עַד שֶׁאֶפְשָׁר לִהְיוֹת בּוֹ אַחֲרֵי רַבִּים לְהַטּוֹת

Abrindo o capítulo, Rambam situa esta mishná como o início de um tema inteiramente novo — o ritual da novilha decapitada —, que ocupará o Perek Tet até sua nona mishná. Reafirma que a exigência da língua sagrada aplica-se às duas declarações rituais, extraída por analogia verbal do trecho sobre a bênção e a maldição no Monte Gerizim e no Monte Eival. E nota que a disputa entre o tanna kama e Rabi Yehudá sobre o número de juízes — três ou cinco — depende apenas de quantos juízes cada leitura do versículo implica, sempre respeitando a regra geral de que todo tribunal deve ter número ímpar de membros.

Bartenura · רע״ב
Sotá 9:1
עֶגְלָה עֲרוּפָה בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ. מַה שֶּׁהַזְּקֵנִים אוֹמְרִים יָדֵינוּ לֹא שָׁפְכוּ אֶת הַדָּם הַזֶּה וְהַכֹּהֲנִים אוֹמְרִים כַּפֵּר לְעַמְּךָ יִשְׂרָאֵל וְגוֹ', בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ הֻזְקְקוּ לְאָמְרָן: שֶׁנֶּאֱמַר כִּי יִמָּצֵא כוּ'. וּבְאוֹתוֹ פָּרָשָׁה נֶאֱמָר וְעָנוּ וְאָמְרוּ, וְנֶאֱמַר לְהַלָּן וְעָנוּ הַלְוִיִּם וְאָמְרוּ, מַה לְּהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ: הָיוּ יוֹצְאִים. וּבָאִים שָׁם וּמוֹדְדִים מִן הֶחָלָל לְצַד הָעֲיָרוֹת שֶׁסְּבִיבוֹתָיו לֵידַע אֵיזוֹ קְרוֹבָה: אֵין בֵּית דִּין שָׁקוּל. אֵין בֵּית דִּין עֲשׂוּיִין שֶׁיְּהֵא אֶפְשָׁר לַחְלֹק שָׁוֶה בְּשָׁוֶה, אֶלָּא שֶׁיְּהֵא הָרֹב לְצַד אֶחָד לְקַיֵּם אַחֲרֵי רַבִּים לְהַטּוֹת

Bartenura precisa a fonte exata da exigência da língua sagrada: no mesmo trecho da novilha decapitada está escrito “e responderão e dirão”, expressão que reaparece adiante a respeito dos levitas que pronunciam a bênção e a maldição no Monte Gerizim e no Monte Eival — ali exigindo explicitamente o hebraico; por analogia verbal, também aqui. Confirma que os juízes efetivamente se deslocam até o local para medir a distância até as cidades vizinhas. E explica a expressão “tribunal par”: um tribunal não pode ter número par de membros, pois é preciso que seja sempre possível “inclinar-se atrás da maioria” — o princípio segundo o qual a decisão de todo tribunal segue o voto majoritário.