A novilha decapitada — na língua sagrada, como foi dito: “Se for encontrado um morto... e sairão teus anciãos e teus juízes” (Devarim 21). Três do Grande Tribunal que está em Jerusalém saíam. Rabi Yehudá diz: cinco — pois foi dito “teus anciãos”, dois, e “teus juízes”, dois, e um tribunal não pode ser par; acrescenta-se a eles mais um. — Abrindo o Perek Tet — e a última seção de todo o tratado Sotá —, a mishná retoma o ritual da עֶגְלָה עֲרוּפָה (a novilha de pescoço quebrado), instituído em Devarim 21 para o caso de um cadáver encontrado no campo sem que se saiba quem o matou. Fixa, antes de tudo, que a confissão pronunciada pelos anciãos e a fórmula recitada pelos sacerdotes devem ser ditas exclusivamente na língua sagrada, o hebraico, e determina quantos juízes do Sinédrio de Jerusalém saem para medir a distância entre o cadáver e as cidades vizinhas: o tanna kama fala em três, extraindo dois do termo “teus anciãos” e um do requisito de que todo tribunal tenha número ímpar; Rabi Yehudá, lendo também “teus juízes” como indicando dois juízes adicionais, eleva o número a cinco.
Rambam identifica a base textual da exigência do hebraico e explica o conceito de “tribunal par”.
Rambam explica que a exigência de recitar em hebraico é extraída por analogia verbal: no trecho da novilha decapitada está escrito “e responderão e dirão”, e a mesma expressão aparece a respeito dos levitas que, no Monte Gerizim e no Monte Eival, “responderão e dirão a todo homem de Israel” — ali a Torá exige explicitamente o hebraico, e por analogia verbal também aqui. Quanto ao “tribunal par”, explica que um tribunal deve ter um número determinado de membros tal que seja sempre possível decidir “atrás da maioria” — o mesmo princípio que será desenvolvido no início do tratado Sanhedrin.
Rashi (sobre a Guemará, Sotá 44b), Rambam e Bartenura sobre a abertura do Perek Tet.
Rashi esclarece que a “língua sagrada” refere-se especificamente às duas fórmulas do ritual — a declaração dos anciãos, “nossas mãos não derramaram este sangue”, e a fórmula sacerdotal, “perdoa a teu povo Israel” —, que a Torá exige que sejam pronunciadas em hebraico. Observa que a Guemará questiona como exatamente esse requisito se extrai do versículo “se for encontrado um morto”, sinalizando que a derivação depende de uma analogia verbal explicada adiante, e não é evidente à primeira leitura. E explica que os juízes efetivamente saem e se deslocam até o local para medir a distância entre o cadáver e as cidades vizinhas, a fim de determinar qual delas está mais próxima.
Abrindo o capítulo, Rambam situa esta mishná como o início de um tema inteiramente novo — o ritual da novilha decapitada —, que ocupará o Perek Tet até sua nona mishná. Reafirma que a exigência da língua sagrada aplica-se às duas declarações rituais, extraída por analogia verbal do trecho sobre a bênção e a maldição no Monte Gerizim e no Monte Eival. E nota que a disputa entre o tanna kama e Rabi Yehudá sobre o número de juízes — três ou cinco — depende apenas de quantos juízes cada leitura do versículo implica, sempre respeitando a regra geral de que todo tribunal deve ter número ímpar de membros.
Bartenura precisa a fonte exata da exigência da língua sagrada: no mesmo trecho da novilha decapitada está escrito “e responderão e dirão”, expressão que reaparece adiante a respeito dos levitas que pronunciam a bênção e a maldição no Monte Gerizim e no Monte Eival — ali exigindo explicitamente o hebraico; por analogia verbal, também aqui. Confirma que os juízes efetivamente se deslocam até o local para medir a distância até as cidades vizinhas. E explica a expressão “tribunal par”: um tribunal não pode ter número par de membros, pois é preciso que seja sempre possível “inclinar-se atrás da maioria” — o princípio segundo o qual a decisão de todo tribunal segue o voto majoritário.