Se sua cabeça foi encontrada num lugar e seu corpo em outro, levam a cabeça até o corpo — palavras de Rabi Eliezer. Rabi Akiva diz: o corpo até a cabeça. — Como esclarecem os próprios mefarshim, esta mishná já não trata da medição para a novilha decapitada — assunto que só retorna na mishná seguinte —, mas de uma questão distinta: a obrigação de sepultar um morto sem responsável (met mitzvá) precisamente no local onde foi encontrado, um dos princípios fundamentais da lei de enterro. Quando cabeça e corpo aparecem separados, é preciso decidir qual das duas partes determina o “local do achado” para efeito de sepultamento. Rabi Eliezer raciocina que o corpo permanece onde caiu e apenas a cabeça se deslocou — daí que se deve trazer a cabeça até o corpo; Rabi Akiva inverte a lógica, supondo que a cabeça marca o ponto exato da queda enquanto o corpo, ainda com resquício de movimento, pode ter rolado — daí que se deve trazer o corpo até a cabeça. A halachá segue Rabi Akiva.
Rambam situa a disputa no princípio de que o met mitzvá “adquire seu lugar” e deve ser sepultado onde foi achado.
Rambam confirma explicitamente que a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Akiva não diz respeito à medição para a novilha decapitada, mas ao princípio segundo o qual “o met mitzvá adquire seu lugar” — ou seja, deve ser sepultado nas quatro cotovelos em torno do ponto exato em que foi encontrado, sem ser transportado para outro local. A questão prática é apenas qual das duas partes do corpo — cabeça ou tronco — define esse “ponto exato”. Rambam fixa a halachá conforme Rabi Akiva: leva-se o corpo até a cabeça.
Rashi (Sotá 45b), Rambam e Bartenura sobre o sepultamento do met mitzvá.
Rashi levanta e descarta a hipótese de que a mishná ainda trataria da medição para a novilha, mostrando que, se assim fosse, a redação faria pouco sentido — pois a medição sempre parte do corpo, não da cabeça. Conclui que o assunto real é onde sepultar o met mitzvá, e recorda que essa obrigação de enterrar o morto sem dono exatamente no local do achado é uma das dez condições que, segundo a tradição, Josué estabeleceu ao dividir a Terra de Israel — parte do direito consuetudinário fundacional do povo em sua terra.
Rambam resume o princípio: todo met mitzvá “adquire seu lugar” e deve ser sepultado dentro das quatro cotovelos do ponto onde foi achado — regra que, no caso de um corpo desmembrado, obriga a decidir qual metade determina esse ponto. Fecha reafirmando que a halachá segue Rabi Akiva: o corpo é levado até a cabeça, e ali se sepulta o met mitzvá por inteiro.
Bartenura confirma que o assunto mudou do capítulo da medição para o do met mitzvá, e explica a lógica de cada opinião com uma imagem física precisa: para Rabi Eliezer, quando alguém cai morto, é a cabeça que naturalmente tende a se deslocar (rolando, sendo arrastada), enquanto o corpo permanece onde caiu — por isso se traz a cabeça até o corpo. Para Rabi Akiva, ocorre o oposto: a cabeça marca o ponto exato onde a pessoa caiu, e é o corpo que pode ter “corrido e ido” adiante por inércia — por isso se traz o corpo até a cabeça. Bartenura fecha confirmando que a halachá segue Rabi Akiva.