Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Tet · Mishná 12 de 15

Urim e Tumim, o shamir e o mel de flor: o que se perdeu com o Templo

מִשֶּׁמֵּתוּ נְבִיאִים הָרִאשׁוֹנִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A série de perdas se aprofunda: primeiro o oráculo do sumo sacerdote, depois — com a destruição do próprio Templo — uma cadeia de perdas que vai do miraculoso ao sensorial: uma pedra viva que cortava sem ferro, o sabor pleno dos frutos, e a própria fé simples entre os homens.

Desde que morreram os primeiros profetas, cessaram os urim e tumim. Desde que o Templo Sagrado foi destruído, cessou o shamir e o néctar de flores, e acabaram os homens de fé, pois foi dito: “Salva, ó Eterno, pois cessou o piedoso...” Rabán Shimon ben Gamliel diz em nome de Rabi Yehoshua: desde o dia em que o Templo Sagrado foi destruído, não há dia sem maldição, nem desceu o orvalho para bênção, e foi tirado o sabor dos frutos. Rabi Yosei diz: também foi tirada a gordura dos frutos. — A mishná passa de uma perda institucional — os urim e tumim, o oráculo sagrado embutido no peitoral do sumo sacerdote, extinto já com a morte dos “primeiros profetas” (os profetas do período do primeiro Templo) — para uma cadeia de perdas ligadas diretamente à destruição do Segundo Templo, que se estende do miraculoso ao cotidiano. O shamir era, segundo a tradição, uma criatura minúscula, do tamanho de um grão de cevada, capaz de partir a pedra mais dura sem contato de ferro, usada na talha das pedras do efod e do peitoral sacerdotal, que não podiam ser cortadas com instrumento metálico. O “néctar de flores” (nofet tzufim) refere-se a um mel de qualidade excepcional. E os “homens de fé” eram aqueles cuja confiança simples em Deus os levava a doar generosamente sem cálculo, sustentados por um versículo de Tehilim que lamenta justamente o desaparecimento do “piedoso” (chassid) e do “homem de fé” (ish emunim). Rabán Shimon ben Gamliel, citando seu mestre Rabi Yehoshua, amplia ainda mais o quadro: desde a destruição, nenhum dia passa sem alguma forma de maldição latente, o orvalho perdeu sua qualidade abençoadora, e os próprios frutos da terra perderam seu sabor — physical loss lida como reflexo direto da perda espiritual. Rabi Yosei acrescenta que também se perdeu sua gordura, sua substância nutritiva.

מִשֶּׁמֵּתוּ נְבִיאִים הָרִאשׁוֹנִים, בָּטְלוּ אוּרִים וְתֻמִּים. מִשֶּׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, בָּטַל הַשָּׁמִיר וְנֹפֶת צוּפִים, וּפָסְקוּ אַנְשֵׁי אֲמָנָה, שֶׁנֶּאֱמַר הוֹשִׁיעָה ה' כִּי גָמַר חָסִיד וְגוֹ'. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר מִשּׁוּם רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, מִיּוֹם שֶׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, אֵין יוֹם שֶׁאֵין בּוֹ קְלָלָה, וְלֹא יָרַד הַטַּל לִבְרָכָה, וְנִטַּל טַעַם הַפֵּרוֹת. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, אַף נִטַּל שֹׁמֶן הַפֵּרוֹת

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Tehilim 12:2
הוֹשִׁיעָה ה׳ כִּי גָמַר חָסִיד, כִּי פַסּוּ אֱמוּנִים מִבְּנֵי אָדָם
“Salva, ó Eterno, pois cessou o piedoso; pois acabaram os homens de fé dentre os filhos do homem” — o versículo que a mishná associa diretamente ao desaparecimento dos “homens de fé” após a destruição do Templo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam distingue os profetas do primeiro e do segundo Templo, e identifica o shamir e o nofet tzufim.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 9:12
מִשֶּׁמֵּתוּ נְבִיאִים הָרִאשׁוֹנִים בָּטְלוּ אוּרִים וְתֻמִּים כוּ': נְבִיאִים הָרִאשׁוֹנִים הֵם נְבִיאֵי בַּיִת רִאשׁוֹן, אֲבָל נְבִיאֵי בַּיִת שֵׁנִי וְהֵם חַגַּי זְכַרְיָה וּמַלְאָכִי וַחֲבֵרֵיהֶן קוֹרִין אוֹתָן נְבִיאִים הָאַחֲרוֹנִים. וְשָׁמִיר נָחָשׁ חוֹפֵר אֲבָנִים וּבוֹ פָּתְחוּ אוּרִים וְתֻמִּים... וְנֹפֶת צוּפִים מִין דְּבַשׁ שֶׁהָיָה בָּא מֵאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל נִקְרֵאת צוּפִים, הָיָה מְאֹד נִפְלָא בְּמַרְאֶה וּבְטַעְמוֹ וּבְרֵיחוֹ

Rambam esclarece uma distinção terminológica importante: “primeiros profetas” designa especificamente os profetas do período do primeiro Templo, em contraste com os “últimos profetas” — Chagai, Zecharyá e Malachi e seus contemporâneos —, que profetizaram já no início do período do segundo Templo. E descreve o shamir como uma criatura viva (aqui chamada de uma espécie de verme ou serpente que perfura pedras), com o qual se talhavam as pedras dos urim e tumim; e o nofet tzufim como um mel excepcional, de sabor, aroma e aparência extraordinários, originário de uma região da Terra de Israel chamada Tzufim.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi (Sotá 48a–48b), Rambam e Bartenura sobre as perdas ligadas à destruição do Templo.

Rashi · רש״י
Sotá 48a–48b, sobre a mishná
נְבִיאִים הָרִאשׁוֹנִים - בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ: נוֹפֶת צוּפִים - מְפָרֵשׁ בַּגְּמָ׳: אַנְשֵׁי אֲמָנָה - בּוֹטְחִים בְּהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְסוֹמְכִין עָלָיו לַעֲשׂוֹת טוֹב וְאֵין דּוֹאֲגִין לְחֶסְרוֹן: סֹלֶת צָפָה עַל גַּבֵּי נָפָה - מֵרֹב שׁוּמְנָהּ מְדֻבֶּקֶת בְּדׇפְנֵי נָפָה, וְדוֹמִים לְעִסָּה חַיָּה שֶׁנִּלּוֹשָׁה בְּיַיִן... מִן הַצּוֹפִים - הֶהָרִים הַגְּבוֹהִים שֶׁמִּשָּׁם צוֹפֶה לְמֵרָחוֹק

Rashi define “homens de fé” como aqueles que confiam plenamente em Deus, dispostos a agir com bondade e generosidade sem se preocupar com sua própria falta — a confiança que permite doar sem cálculo. E, sobre o “nofet tzufim”, traz uma explicação vívida da própria etimologia da expressão: o mel de altíssima qualidade se descreve como farinha fina que “flutua” sobre a peneira por causa de sua riqueza, aderindo-se às bordas como massa fresca amassada com vinho — e “tzufim” também é lido como referência aos montes altos de onde se avista (tzofeh) a grande distância, de onde viria esse mel excepcional.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 9:12
מִשֶּׁמֵּתוּ נְבִיאִים הָרִאשׁוֹנִים בָּטְלוּ אוּרִים וְתֻמִּים כוּ': נְבִיאִים הָרִאשׁוֹנִים הֵם נְבִיאֵי בַּיִת רִאשׁוֹן... טַעַם הֲנָאָה, וְשׁוּמָן יָדוּעַ, רוֹצֶה לוֹמַר בָּזֶה פֵּירוֹת אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל, וְכֵן אָנוּ מוֹצְאִים אוֹתָם הַיּוֹם בַּעֲוֹנוֹת

Comentando a extensão de Rabán Shimon ben Gamliel sobre o sabor e a gordura perdidos dos frutos, Rambam observa — com uma nota quase pessoal — que essa mesma degradação continua perceptível “em nossos próprios pecados”, isto é, na experiência de sua própria geração: os frutos da Terra de Israel, mesmo em sua época, já não possuíam o sabor e a riqueza que a tradição atribuía à era anterior à destruição, confirmando empiricamente, a seus olhos, o diagnóstico da mishná.

Bartenura · רע״ב
Sotá 9:12
מִשֶּׁמֵּתוּ נְבִיאִים הָרִאשׁוֹנִים. כׇּל הַנְּבִיאִים נִקְרָאִים נְבִיאִים רִאשׁוֹנִים, חוּץ מֵחַגַּי זְכַרְיָה וּמַלְאָכִי וְחַבְרֵיהֶן דְּאַחֲרוֹנִים נִינְהוּ, שֶׁהָיוּ בְּבִנְיַן בַּיִת שֵׁנִי: בָּטַל הַשָּׁמִיר. כְּמִין תּוֹלַעַת, בְּרִיָּתוֹ כִּשְׂעֹרָה, שֶׁהָיוּ מַרְאִים אוֹתוֹ עַל הָאֲבָנִים הָרְשׁוּמוֹת בַּדְּיוֹ וְהֵן נִבְקָעוֹת מֵאֲלֵיהֶן, וּבוֹ פִּתְּחוּ אַבְנֵי הָאֵפוֹד וְהַחֹשֶׁן: וְנֹפֶת צוּפִים. דְּבַשׁ הַבָּא מִמָּקוֹם שֶׁשְּׁמוֹ צִיפִיאָה, וּמְשֻׁבָּח מְאֹד: וּפָסְקוּ אַנְשֵׁי אֲמָנָה. אֲנָשִׁים שֶׁמַּאֲמִינִים בְּהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא

Bartenura confirma a distinção entre profetas “primeiros” e “últimos”, e descreve o shamir como uma espécie de verme minúsculo, do tamanho de um grão de cevada, com o qual se marcavam com tinta as pedras do efod e do choshen — e o próprio shamir, aplicado sobre a marca de tinta, fazia a pedra se partir sozinha, exatamente na linha desenhada, sem qualquer contato de ferro, preservando a integridade das pedras (“em sua plenitude”, conforme exige o texto bíblico). Localiza o nofet tzufim como proveniente de um lugar específico chamado Tzifia. E define os “homens de fé” simplesmente como aqueles que confiam no Santo, Bendito seja.