Desde que morreram os primeiros profetas, cessaram os urim e tumim. Desde que o Templo Sagrado foi destruído, cessou o shamir e o néctar de flores, e acabaram os homens de fé, pois foi dito: “Salva, ó Eterno, pois cessou o piedoso...” Rabán Shimon ben Gamliel diz em nome de Rabi Yehoshua: desde o dia em que o Templo Sagrado foi destruído, não há dia sem maldição, nem desceu o orvalho para bênção, e foi tirado o sabor dos frutos. Rabi Yosei diz: também foi tirada a gordura dos frutos. — A mishná passa de uma perda institucional — os urim e tumim, o oráculo sagrado embutido no peitoral do sumo sacerdote, extinto já com a morte dos “primeiros profetas” (os profetas do período do primeiro Templo) — para uma cadeia de perdas ligadas diretamente à destruição do Segundo Templo, que se estende do miraculoso ao cotidiano. O shamir era, segundo a tradição, uma criatura minúscula, do tamanho de um grão de cevada, capaz de partir a pedra mais dura sem contato de ferro, usada na talha das pedras do efod e do peitoral sacerdotal, que não podiam ser cortadas com instrumento metálico. O “néctar de flores” (nofet tzufim) refere-se a um mel de qualidade excepcional. E os “homens de fé” eram aqueles cuja confiança simples em Deus os levava a doar generosamente sem cálculo, sustentados por um versículo de Tehilim que lamenta justamente o desaparecimento do “piedoso” (chassid) e do “homem de fé” (ish emunim). Rabán Shimon ben Gamliel, citando seu mestre Rabi Yehoshua, amplia ainda mais o quadro: desde a destruição, nenhum dia passa sem alguma forma de maldição latente, o orvalho perdeu sua qualidade abençoadora, e os próprios frutos da terra perderam seu sabor — physical loss lida como reflexo direto da perda espiritual. Rabi Yosei acrescenta que também se perdeu sua gordura, sua substância nutritiva.
Rambam distingue os profetas do primeiro e do segundo Templo, e identifica o shamir e o nofet tzufim.
Rambam esclarece uma distinção terminológica importante: “primeiros profetas” designa especificamente os profetas do período do primeiro Templo, em contraste com os “últimos profetas” — Chagai, Zecharyá e Malachi e seus contemporâneos —, que profetizaram já no início do período do segundo Templo. E descreve o shamir como uma criatura viva (aqui chamada de uma espécie de verme ou serpente que perfura pedras), com o qual se talhavam as pedras dos urim e tumim; e o nofet tzufim como um mel excepcional, de sabor, aroma e aparência extraordinários, originário de uma região da Terra de Israel chamada Tzufim.
Rashi (Sotá 48a–48b), Rambam e Bartenura sobre as perdas ligadas à destruição do Templo.
Rashi define “homens de fé” como aqueles que confiam plenamente em Deus, dispostos a agir com bondade e generosidade sem se preocupar com sua própria falta — a confiança que permite doar sem cálculo. E, sobre o “nofet tzufim”, traz uma explicação vívida da própria etimologia da expressão: o mel de altíssima qualidade se descreve como farinha fina que “flutua” sobre a peneira por causa de sua riqueza, aderindo-se às bordas como massa fresca amassada com vinho — e “tzufim” também é lido como referência aos montes altos de onde se avista (tzofeh) a grande distância, de onde viria esse mel excepcional.
Comentando a extensão de Rabán Shimon ben Gamliel sobre o sabor e a gordura perdidos dos frutos, Rambam observa — com uma nota quase pessoal — que essa mesma degradação continua perceptível “em nossos próprios pecados”, isto é, na experiência de sua própria geração: os frutos da Terra de Israel, mesmo em sua época, já não possuíam o sabor e a riqueza que a tradição atribuía à era anterior à destruição, confirmando empiricamente, a seus olhos, o diagnóstico da mishná.
Bartenura confirma a distinção entre profetas “primeiros” e “últimos”, e descreve o shamir como uma espécie de verme minúsculo, do tamanho de um grão de cevada, com o qual se marcavam com tinta as pedras do efod e do choshen — e o próprio shamir, aplicado sobre a marca de tinta, fazia a pedra se partir sozinha, exatamente na linha desenhada, sem qualquer contato de ferro, preservando a integridade das pedras (“em sua plenitude”, conforme exige o texto bíblico). Localiza o nofet tzufim como proveniente de um lugar específico chamado Tzifia. E define os “homens de fé” simplesmente como aqueles que confiam no Santo, Bendito seja.