Desde que o Sinédrio cessou, cessou o canto nas casas de banquete, pois foi dito: “Com canto não beberão vinho...” — A mishná estabelece uma conexão inesperada entre a autoridade judicial suprema de Israel e um costume aparentemente trivial da vida social — o canto que acompanhava o vinho nas festas. A ligação, explicam os mefarshim, passa por um versículo de Eichá que descreve o luto coletivo de Jerusalém após a destruição: “os anciãos cessaram da porta, os jovens de seu canto” — colocando lado a lado, no mesmo verso, o fim dos anciãos que se assentavam “na porta” (expressão associada aos juízes do Sinédrio) e o fim do canto dos jovens, como se um dependesse do outro. A ideia subjacente parece ser que a música festiva de uma sociedade só floresce genuinamente quando sustentada por uma ordem moral e judicial estável; quando essa autoridade central desaparece, mesmo as expressões mais leves de alegria coletiva perdem seu lugar apropriado.
Rambam identifica a fonte bíblica que liga explicitamente os “anciãos da porta” ao silêncio dos jovens.
Rambam identifica os “anciãos” do versículo de Eichá com os próprios juízes do Sinédrio, apoiando-se no mandamento da Torá “juízes... darás para ti em todas as tuas portas” — expressão que consagrou a imagem do juiz “sentado à porta” como sinônimo de autoridade judicial. A partir dessa identificação, o paralelismo do versículo de Eichá — anciãos da porta e jovens do canto cessando juntos, no mesmo verso — torna-se a base textual direta da afirmação da mishná.
Rashi (Sotá 48a), Rambam e Bartenura sobre o elo entre o Sinédrio e o canto festivo.
Rashi assinala que o próprio versículo citado pela mishná, isoladamente, não menciona o Sinédrio — a ligação entre o fim do canto festivo e o fim da autoridade judicial central depende de uma derivação adicional, detalhada na Guemará, que conecta esse versículo de Yeshayahu ao versículo de Eichá sobre os “anciãos da porta”.
Rambam observa que, embora a explicação plena do estatuto e da função do Sinédrio pertença propriamente ao tratado Sanhedrin, esta mishná já pressupõe a imagem consagrada dos juízes “sentados à porta” da cidade — o espaço público onde tradicionalmente se administrava a justiça — como o pano de fundo necessário para compreender por que seu desaparecimento é sentido, no versículo profético, lado a lado com o silêncio da juventude.
Bartenura oferece uma etimologia interessante para o próprio termo “Sanhedrin”: derivada, segundo ele, da ideia de que esses juízes “odeiam a parcialidade no julgamento” — não fazendo distinção de pessoas ao julgar. E confirma a leitura de que os “anciãos que se sentam na porta”, mencionados por Eichá, são precisamente os membros do Sinédrio; seu desaparecimento e o silenciamento do canto juvenil são apresentados pelo próprio versículo bíblico como um único evento de perda simultânea, não como duas coincidências separadas.