Rabi Shimon ben Elazar diz: a pureza tirou o sabor e o aroma; os dízimos tiraram a gordura do grão. Mas os sábios dizem: a prostituição e a feitiçaria consumiram tudo. — Onde a mishná anterior ligava o declínio do sabor dos frutos diretamente à destruição do Templo, esta mishná apresenta duas visões alternativas sobre a causa real dessa perda — ambas de caráter mais teológico do que histórico. Rabi Shimon ben Elazar propõe uma leitura quase mística: enquanto Israel observava rigorosamente as leis de pureza ritual (tahará), o próprio Santo, Bendito seja, purificava reciprocamente os frutos da terra, livrando-os de qualquer sabor ou odor desagradável — de modo que o abandono dessa prática teria retirado também essa bênção compensatória. De modo semelhante, ele associa o cumprimento fiel dos dízimos à “gordura” (shemen) do grão, jogando com o fato de que o próprio dízimo é chamado, na Torá, de “chelev” (gordura, no sentido de a melhor parte). Os sábios, por sua vez, rejeitam essa correlação ritual-recompensa e apontam para uma causa moral mais direta e severa: não foi o abandono de práticas rituais específicas, mas a prostituição e a feitiçaria — dois pecados associados à corrupção social generalizada — que consumiram tudo, sabor, aroma e gordura de uma só vez.
Rambam resume a leitura de Rabi Shimon ben Elazar como uma extensão direta da mishná anterior.
Rambam explica a lógica de Rabi Shimon ben Elazar de forma concisa: não é a pureza ou os dízimos em si que produziam o sabor e a gordura dos frutos, mas o abandono de sua observância que retirou esse “prazer” sensorial — implicando uma correlação direta e proporcional entre a fidelidade ritual de Israel e a própria qualidade física dos produtos da terra, ideia que ecoa temas semelhantes já expressos na mishná anterior.
Rashi (Sotá 49a), Rambam e Bartenura sobre as duas explicações do declínio do sabor.
Rashi articula com precisão a lógica de reciprocidade que sustenta a opinião de Rabi Shimon ben Elazar: enquanto Israel se mantinha em estado de pureza ritual, o próprio Deus “purificava” reciprocamente os frutos da terra de qualquer mau cheiro ou mau sabor — uma espécie de bênção espelhada. E explica o trocadilho por trás da segunda cláusula: a palavra “chelev” (gordura), usada pela Torá para descrever a porção superior do dízimo (“toda a gordura do azeite novo”), é a mesma associada à “gordura do grão” que se perdeu quando o povo deixou de separar corretamente os dízimos — como se o próprio nome do preceito carregasse, em si, a bênção que seu cumprimento gerava.
Rambam nota que, ao contrapor a explicação de Rabi Shimon ben Elazar à dos sábios — que atribuem a mesma perda a causas morais mais graves, prostituição e feitiçaria —, a mishná não busca necessariamente decidir qual das duas está certa, mas antes ilustrar como diferentes sábios liam os mesmos sinais físicos de declínio como espelhos de diferentes falhas espirituais de sua geração, sejam elas rituais ou éticas.
Bartenura confirma, quase palavra por palavra, a leitura de Rashi: a pureza ritual gerava, como bênção paralela, a pureza sensorial dos próprios frutos da terra; e o termo “chelev”, aplicado ao dízimo na Torá, explica por que seu abandono especificamente “tirou a gordura” do grão. A justaposição, no final da mishná, com a opinião mais severa dos sábios — que atribuem a mesma perda à prostituição e à feitiçaria — deixa ao leitor duas lentes complementares, ritual e moral, para compreender o mesmo fenômeno de declínio.