As bênçãos do Sumo Sacerdote, como? O sacristão da sinagoga toma um rolo da Torá e o entrega ao chefe da sinagoga, e o chefe da sinagoga o entrega ao vice, e o vice o entrega ao Sumo Sacerdote, e o Sumo Sacerdote fica de pé, o recebe, e lê ficando de pé; e lê "Depois da morte" e "Mas no décimo dia". E enrola a Torá, coloca-a em seu colo, e diz: "mais do que li diante de vocês está escrito aqui". E o "no décimo dia" que está no quinto livro, dos Números, ele lê de cor, e recita sobre ela oito bênçãos: sobre a Torá, sobre o serviço, sobre a gratidão, sobre o perdão do pecado, sobre o Templo, sobre Israel, sobre os cohanim, e sobre o restante da oração. — A mishná detalha a cerimônia solene realizada no auge de Yom Kipur, após a conclusão do serviço mais sagrado do ano no Santo dos Santos. O rolo da Torá passa por uma cadeia de mãos — do sacristão ao chefe da sinagoga, deste ao vice do Sumo Sacerdote, e finalmente ao próprio Sumo Sacerdote — numa sequência que expressa honra crescente. Ele lê de pé (indicando que, momentos antes, estava sentado, algo permitido apenas no pátio das mulheres, área não totalmente santificada) as duas passagens de Vaikrá relativas ao serviço do dia. Ao enrolar o pergaminho, ele declara publicamente que o restante da porção — que ainda vai recitar de memória — não deve ser confundido com uma lacuna no próprio rolo; e então lê de cor a passagem dos Números referente às ofertas de Yom Kipur, evitando o desconforto de manusear um segundo rolo diante da congregação. Por fim, recita oito bênçãos que abrangem a totalidade da vida religiosa e nacional de Israel: da Torá ao perdão, do Templo ao próprio povo e seus sacerdotes.
A mishná se apoia diretamente nas passagens de Yom Kipur em Vaikrá 16 e Vaikrá 23, e no complemento das ofertas em Bemidbar 29 — as três porções que compõem a leitura do dia.
As três leituras correspondem à sequência litúrgica de Yom Kipur: primeiro a passagem do serviço propriamente dito do Sumo Sacerdote (Vaikrá 16), depois a passagem que declara o dia sagrado e institui a aflição da alma (Vaikrá 23), e por fim a passagem que detalha as ofertas adicionais específicas do dia (Bemidbar 29) — lida de cor por estar distante das primeiras duas dentro do mesmo rolo. As oito bênçãos finais não têm um único versículo-fonte; são uma instituição rabínica que resume, em forma de oração, os grandes temas nacionais e religiosos do dia mais sagrado do calendário.
Rambam explica por que a terceira porção é lida de memória e localiza a cerimônia no pátio das mulheres; Bartenura detalha o conteúdo de cada uma das oito bênçãos.
Rambam explica por que o Sumo Sacerdote lê de cor a passagem dos Números: como regra geral, não se enrola um rolo da Torá diante da congregação em busca de outra passagem — isso demoraria e envergonharia o público —, e também não é permitido que a mesma pessoa leia de dois rolos de Torá diferentes numa mesma leitura pública, para não sugerir que havia algum defeito no primeiro rolo. Rambam extrai ainda uma informação geográfica sutil do próprio texto: como a mishná especifica que o Sumo Sacerdote "fica de pé e recebe" — implicando que antes estava sentado —, e a lei proíbe sentar-se no pátio de Israel (reservado, nesse privilégio, apenas aos reis da linhagem de David), conclui-se que toda essa leitura ocorria no pátio das mulheres, área de santidade menor.
Bartenura identifica o conteúdo e a fórmula de encerramento de cada uma das últimas bênçãos: a bênção pelo perdão do pecado corresponde ao texto "Tu nos escolheste", encerrando com "o Rei que perdoa e absolve nossas iniquidades"; a bênção pelo Templo pede que a Presença divina resida ali, encerrando com "que reside em Tzion"; a bênção pelos cohanim pede que suas ofertas sejam aceitas com favor, encerrando com "que santifica os cohanim"; e a última, "sobre o restante da oração", pede a salvação de Israel de seus inimigos, encerrando com "Teu povo Israel necessita de salvação". Juntas, as oito bênçãos formam uma súmula completa da relação entre Deus, o Templo, o povo e seus sacerdotes.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 41a), Rambam e Bartenura.
Rashi explica por que o Sumo Sacerdote sente necessidade de anunciar publicamente "mais do que li diante de vocês está escrito aqui": sem essa declaração, a congregação poderia supor erroneamente que a passagem seguinte — lida de memória — não constava no próprio rolo, e que ele estava usando um pergaminho incompleto ou defeituoso. Rashi também esclarece por que não se recorre a um segundo rolo já preparado na passagem correta: fazer isso lançaria suspeita sobre o primeiro rolo, como se algo nele estivesse desqualificado — daí a preferência por lidar com o desconforto de recitar de memória a ler de um rolo alternativo.
Rambam preserva o texto litúrgico exato de cada bênção, oferecendo uma reconstrução preciosa da liturgia real de Yom Kipur no Templo: a primeira bênção — "que nos escolheu de entre todos os povos" — precede a leitura, e as demais seguem em sequência definida: "que nos deu Sua Torá, Torá de verdade" pela Torá; "aceita, Eterno nosso Deus" pelo serviço; "agradecemos a Ti" pela gratidão; "perdoa-nos, nosso Pai" pelo perdão do pecado — formando um encadeamento litúrgico que Rambam registra com notável precisão histórica, preservando uma liturgia que de outra forma se perderia.
Bartenura detalha a hierarquia comunitária por trás da cadeia de entrega do rolo: o sacristão cuida das necessidades práticas da sinagoga; o chefe da sinagoga decide questões de precedência, como quem lidera as orações; o vice do Sumo Sacerdote é seu substituto designado, pronto para assumir o posto caso este se torne inapto para o serviço. Bartenura explica que toda essa passagem de mão em mão — do sacristão ao chefe, do chefe ao vice, do vice ao Sumo Sacerdote — visa exclusivamente honrar o Sumo Sacerdote, cumprindo o princípio de que "na multidão do povo está o esplendor do rei": quanto mais pessoas participam de sua honraria, maior a glória manifesta.