A porção do rei, como? Ao final do primeiro dia da festa, no oitavo, ao final do ano sabático, fazem para ele uma plataforma de madeira no pátio, e ele senta-se sobre ela, como está dito: "ao final de sete anos, no tempo determinado...". O sacristão da sinagoga toma um rolo da Torá e o entrega ao chefe da sinagoga, e o chefe da sinagoga o entrega ao vice, e o vice o entrega ao Sumo Sacerdote, e o Sumo Sacerdote o entrega ao rei, e o rei fica de pé, o recebe, e lê sentado. O rei Agripa ficou de pé, recebeu, e leu de pé, e os sábios o elogiaram. E quando chegou a "não poderás pôr sobre ti um homem estrangeiro", suas lágrimas escorreram. Disseram-lhe: não temas, Agripa, tu és nosso irmão, tu és nosso irmão, tu és nosso irmão. E lê desde o início de "Estas são as palavras" até "Ouve", e "Ouve", e "E será se ouvirdes", "Certamente dizimarás", "Quando terminares de dizimar", e a porção do rei, e as bênçãos e maldições, até que termine toda a porção. As bênçãos que o Sumo Sacerdote abençoa, o rei abençoa; exceto que ele dá a das festas no lugar da do perdão do pecado. — Encerrando o Perek Zayin, a mishná culmina numa das cerimônias mais grandiosas do calendário bíblico: o Hakhel, realizado uma vez a cada sete anos, ao final do ano sabático, na festa de Sucot, quando todo o povo de Israel — homens, mulheres, crianças e estrangeiros — se reunia no Templo para ouvir o rei ler porções escolhidas da Torá. A cadeia de entrega do rolo espelha exatamente a da mishná anterior, culminando agora não no Sumo Sacerdote, mas no próprio monarca, que recebe o rolo de pé — em sinal de respeito — mas lê sentado, prerrogativa exclusiva dos reis da linhagem davídica. O episódio do rei Agripa I, que optou por ler de pé apesar de não ser estritamente obrigado, e que chorou ao ler o versículo que exclui estrangeiros da monarquia — sendo ele mesmo descendente de prosélitos pelo lado paterno —, revela tanto a humildade excepcional do monarca quanto a resposta calorosa e política do povo, que o consolou publicamente como "irmão". A leitura combina passagens de aceitação do jugo celestial, dízimos, a própria porção real, e as bênçãos e maldições, concluindo com as mesmas oito bênçãos do Sumo Sacerdote — trocando apenas a bênção do perdão do pecado pela dos festivais, mais apropriada ao contexto de Sucot.
O mandamento do Hakhel está fixado em Devarim 31; a exclusão de reis não israelitas, no versículo que faz Agripa chorar, em Devarim 17.
O rei Agripa I era neto de Herodes, o Grande — de origem edomita/idumeia por linha paterna — mas sua mãe, segundo a tradição, era de origem judaica, o que tecnicamente o qualificava, ainda que de modo controverso, a ocupar o trono. Sua reação emocional ao versículo de Devarim 17:15, e a resposta imediata e repetida três vezes do povo — "tu és nosso irmão" —, tornou-se um dos episódios mais citados sobre a tensão entre legitimidade dinástica e lealdade popular no fim do período do Segundo Templo. A Guemará (Sotá 41b) nota, com tom crítico velado, que essa mesma bajulação coletiva teria contribuído para a deterioração moral que precedeu a destruição do Templo.
Rambam esclarece a identidade e a origem controversa de Agripa; Bartenura detalha a sequência exata das leituras e a razão dos saltos entre porções.
Rambam adota a posição mais crítica sobre a origem de Agripa: para ele, o rei pertencia a uma família de prosélitos e não tinha mãe de origem israelita, tornando sua ascensão ao trono tecnicamente proibida pela exigência de que o rei venha "do meio de teus irmãos". Rambam interpreta a resposta "tu és nosso irmão" não como reconhecimento sincero de legitimidade, mas como bajulação motivada pela conveniência política de manter a paz com a monarquia vigente — e nota, com desaprovação, que a tradição atribui a essa mesma bajulação coletiva parte da responsabilidade moral pela destruição que se seguiria.
Bartenura reconstrói a lógica temática por trás da sequência aparentemente descontínua de leituras: o rei começa em "estas são as palavras" (início de Devarim) e avança até o Shemá, que expressa a aceitação do jugo celestial; conecta-se diretamente a "e será se ouvirdes", que expressa a aceitação do jugo dos mandamentos; salta então para "certamente dizimarás" e "quando terminares de dizimar" — apropriadas à época do ano, tempo de colheita e separação de dízimos aos pobres; segue com as bênçãos e maldições, que representam a aceitação dos decretos e punições da Torá; e conclui, por fim, voltando à própria porção do rei, "certamente porás sobre ti um rei" — fechando o ciclo temático da assembleia com a instituição da realeza que a própria cerimônia encena.
Encerrando o Perek Zayin, perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 40b-41b), Rambam e Bartenura.
Rashi resolve uma ambiguidade textual importante: a palavra "בַּשְּׁמִינִי" ("no oitavo") não pode significar o oitavo dia da festa de Sucot, pois isso contradiria a afirmação anterior de que a cerimônia ocorre "ao final do primeiro dia" da festa; a Guemará corrige a leitura para "בַּשְּׁמִינִית" ("no oitavo ano"), referindo-se ao início do oitavo ano do ciclo sabático, imediatamente após o ano de shemitá terminar. Sobre a identidade de Agripa, Rashi adota uma posição mais branda que Rambam: identifica-o como rei de Israel da linhagem de Herodes, em cujos dias o Segundo Templo foi destruído, e explica que o povo o chamou de "irmão" porque, afinal, sua mãe era de origem israelita — reconhecendo alguma legitimidade real ao vínculo, ainda que talvez politicamente convenient.
Rambam confirma e detalha a extensão exata de cada porção lida pelo rei, enfatizando a continuidade final: da porção do dízimo em diante, a leitura segue em ordem contínua até o fim das bênçãos e maldições, encerrando com a menção explícita da aliança "que Ele firmou com eles em Chorev" (o Sinai) — uma referência que, ao concluir o Hakhel, conecta simbolicamente a assembleia septenal de leitura pública à própria revelação original da Torá no deserto, fechando o círculo entre a entrega da lei e sua renovação periódica diante de todo o povo reunido.
Encerrando o Perek Zayin, Bartenura resume o episódio com economia: Agripa, descendente de Herodes, reinou nos dias que precederam a destruição do Segundo Templo; suas lágrimas brotaram porque compreendeu que o próprio versículo que estava lendo o desqualificava, a rigor, da monarquia que ocupava; e a resposta tripla do povo — "tu és nosso irmão" — apoiou-se no fato de que sua mãe era de origem israelita, oferecendo-lhe conforto público diante de uma leitura que, de outro modo, teria sido profundamente constrangedora. Com este episódio humano e político, encerra-se o Perek Zayin, que passou das leis de língua litúrgica às grandes cerimônias nacionais de Israel — do Har Guerizim ao Hakhel.