Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Zayin · Mishná 8 de 8

Encerrando o Perek Zayin: a porção do rei e o rei Agripa

פָּרָשַׁת הַמֶּלֶךְ כֵּיצַד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Zayin, a mishná descreve a cerimônia do Hakhel — a grande assembleia septenal em que o rei lê publicamente porções da Torá — culminando no episódio emocionante do rei Agripa.

A porção do rei, como? Ao final do primeiro dia da festa, no oitavo, ao final do ano sabático, fazem para ele uma plataforma de madeira no pátio, e ele senta-se sobre ela, como está dito: "ao final de sete anos, no tempo determinado...". O sacristão da sinagoga toma um rolo da Torá e o entrega ao chefe da sinagoga, e o chefe da sinagoga o entrega ao vice, e o vice o entrega ao Sumo Sacerdote, e o Sumo Sacerdote o entrega ao rei, e o rei fica de pé, o recebe, e lê sentado. O rei Agripa ficou de pé, recebeu, e leu de pé, e os sábios o elogiaram. E quando chegou a "não poderás pôr sobre ti um homem estrangeiro", suas lágrimas escorreram. Disseram-lhe: não temas, Agripa, tu és nosso irmão, tu és nosso irmão, tu és nosso irmão. E lê desde o início de "Estas são as palavras" até "Ouve", e "Ouve", e "E será se ouvirdes", "Certamente dizimarás", "Quando terminares de dizimar", e a porção do rei, e as bênçãos e maldições, até que termine toda a porção. As bênçãos que o Sumo Sacerdote abençoa, o rei abençoa; exceto que ele dá a das festas no lugar da do perdão do pecado. — Encerrando o Perek Zayin, a mishná culmina numa das cerimônias mais grandiosas do calendário bíblico: o Hakhel, realizado uma vez a cada sete anos, ao final do ano sabático, na festa de Sucot, quando todo o povo de Israel — homens, mulheres, crianças e estrangeiros — se reunia no Templo para ouvir o rei ler porções escolhidas da Torá. A cadeia de entrega do rolo espelha exatamente a da mishná anterior, culminando agora não no Sumo Sacerdote, mas no próprio monarca, que recebe o rolo de pé — em sinal de respeito — mas lê sentado, prerrogativa exclusiva dos reis da linhagem davídica. O episódio do rei Agripa I, que optou por ler de pé apesar de não ser estritamente obrigado, e que chorou ao ler o versículo que exclui estrangeiros da monarquia — sendo ele mesmo descendente de prosélitos pelo lado paterno —, revela tanto a humildade excepcional do monarca quanto a resposta calorosa e política do povo, que o consolou publicamente como "irmão". A leitura combina passagens de aceitação do jugo celestial, dízimos, a própria porção real, e as bênçãos e maldições, concluindo com as mesmas oito bênçãos do Sumo Sacerdote — trocando apenas a bênção do perdão do pecado pela dos festivais, mais apropriada ao contexto de Sucot.

פָּרָשַׁת הַמֶּלֶךְ כֵּיצַד. מוֹצָאֵי יוֹם טוֹב הָרִאשׁוֹן שֶׁל חָג, בַּשְּׁמִינִי בְּמוֹצָאֵי שְׁבִיעִית, עוֹשִׂין לוֹ בִימָה שֶׁל עֵץ בָּעֲזָרָה, וְהוּא יוֹשֵׁב עָלֶיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר מִקֵּץ שֶׁבַע שָׁנִים בְּמֹעֵד וְגוֹ'. חַזַּן הַכְּנֶסֶת נוֹטֵל סֵפֶר תּוֹרָה וְנוֹתְנָהּ לְרֹאשׁ הַכְּנֶסֶת, וְרֹאשׁ הַכְּנֶסֶת נוֹתְנָהּ לַסְּגָן, וְהַסְּגָן נוֹתְנָהּ לְכֹהֵן גָּדוֹל, וְכֹהֵן גָּדוֹל נוֹתְנָהּ לַמֶּלֶךְ, וְהַמֶּלֶךְ עוֹמֵד וּמְקַבֵּל וְקוֹרֵא יוֹשֵׁב. אַגְרִיפָּס הַמֶּלֶךְ עָמַד וְקִבֵּל וְקָרָא עוֹמֵד, וְשִׁבְּחוּהוּ חֲכָמִים. וּכְשֶׁהִגִּיעַ לְלֹא תוּכַל לָתֵת עָלֶיךָ אִישׁ נָכְרִי, זָלְגוּ עֵינָיו דְּמָעוֹת. אָמְרוּ לוֹ, אַל תִּתְיָרֵא אַגְרִיפָּס, אָחִינוּ אָתָּה, אָחִינוּ אָתָּה, אָחִינוּ אָתָּה. וְקוֹרֵא מִתְּחִלַּת אֵלֶּה הַדְּבָרִים עַד שְׁמַע, וּשְׁמַע, וְהָיָה אִם שָׁמֹעַ, עַשֵּׂר תְּעַשֵּׂר, כִּי תְכַלֶּה לַעְשֵׂר, וּפָרָשַׁת הַמֶּלֶךְ, וּבְרָכוֹת וּקְלָלוֹת, עַד שֶׁגּוֹמֵר כָּל הַפָּרָשָׁה. בְּרָכוֹת שֶׁכֹּהֵן גָּדוֹל מְבָרֵךְ אוֹתָן, הַמֶּלֶךְ מְבָרֵךְ אוֹתָן, אֶלָּא שֶׁנּוֹתֵן שֶׁל רְגָלִים תַּחַת מְחִילַת הֶעָוֹן:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

O mandamento do Hakhel está fixado em Devarim 31; a exclusão de reis não israelitas, no versículo que faz Agripa chorar, em Devarim 17.

Devarim (Deuteronômio) 31:10-12
מִקֵּץ שֶׁבַע שָׁנִים בְּמֹעֵד שְׁנַת הַשְּׁמִטָּה בְּחַג הַסֻּכּוֹת... הַקְהֵל אֶת הָעָם, הָאֲנָשִׁים וְהַנָּשִׁים וְהַטַּף...
"Ao final de sete anos, no tempo determinado do ano sabático, na festa de Sucot... reúne o povo, os homens, as mulheres e as crianças..."
Devarim (Deuteronômio) 17:15
לֹא תוּכַל לָתֵת עָלֶיךָ אִישׁ נָכְרִי אֲשֶׁר לֹא אָחִיךָ הוּא׃
"Não poderás pôr sobre ti um homem estrangeiro, que não seja teu irmão."

O rei Agripa I era neto de Herodes, o Grande — de origem edomita/idumeia por linha paterna — mas sua mãe, segundo a tradição, era de origem judaica, o que tecnicamente o qualificava, ainda que de modo controverso, a ocupar o trono. Sua reação emocional ao versículo de Devarim 17:15, e a resposta imediata e repetida três vezes do povo — "tu és nosso irmão" —, tornou-se um dos episódios mais citados sobre a tensão entre legitimidade dinástica e lealdade popular no fim do período do Segundo Templo. A Guemará (Sotá 41b) nota, com tom crítico velado, que essa mesma bajulação coletiva teria contribuído para a deterioração moral que precedeu a destruição do Templo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam esclarece a identidade e a origem controversa de Agripa; Bartenura detalha a sequência exata das leituras e a razão dos saltos entre porções.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 7:8
וְאַגְרִיפָּס הָיָה מִקְּהַל גֵּרִים וְלֹא הָיָה לוֹ אֵם מִיִּשְׂרָאֵל, וְלֹא הָיָה מֻתָּר לְמַנּוֹתוֹ בְּשׁוּם פָּנִים, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר שׂוֹם תָּשִׂים עָלֶיךָ מֶלֶךְ מִקֶּרֶב אַחֶיךָ... וְאָמְנָם אָמְרוּ לוֹ אַחִינוּ אַתָּה מִשּׁוּם שְׁלוֹם הַמַּלְכוּת, וְאָמְרוּ בְּאוֹתָהּ שָׁעָה נִתְחַיְּבוּ שׂוֹנְאֵיהֶם שֶׁל יִשְׂרָאֵל כְּלָיָה מִפְּנֵי שֶׁהֶחֱנִיפוּ לוֹ לְאַגְרִיפָּס

Rambam adota a posição mais crítica sobre a origem de Agripa: para ele, o rei pertencia a uma família de prosélitos e não tinha mãe de origem israelita, tornando sua ascensão ao trono tecnicamente proibida pela exigência de que o rei venha "do meio de teus irmãos". Rambam interpreta a resposta "tu és nosso irmão" não como reconhecimento sincero de legitimidade, mas como bajulação motivada pela conveniência política de manter a paz com a monarquia vigente — e nota, com desaprovação, que a tradição atribui a essa mesma bajulação coletiva parte da responsabilidade moral pela destruição que se seguiria.

Bartenura · Sotá 7:8
וְקוֹרֵא מִתְּחִלַּת אֵלֶּה הַדְּבָרִים עַד שְׁמַע. שֶׁבְּוָאֶתְחַנַּן. וּמְחַבֵּר עִם פָּרָשַׁת שְׁמַע פָּרָשַׁת וְהָיָה אִם שָׁמֹעַ, שֶׁיֵּשׁ בְּפָרָשַׁת שְׁמַע קַבָּלַת מַלְכוּת שָׁמַיִם וּבְפָרָשַׁת וְהָיָה אִם שָׁמֹעַ קַבָּלַת עֹל מִצְוֹת. וּמְדַלֵּג, וְקוֹרֵא עַשֵּׂר תְּעַשֵּׂר. וּמִשָּׁם מְדַלֵּג וְקוֹרֵא כִּי תְכַלֶּה לַעְשֵׂר, מִפְּנֵי שֶׁהוּא זְמַן אָסִיף וּמַתְּנוֹת עֲנִיִּים... וְאַחַר כָּךְ בְּרָכוֹת וּקְלָלוֹת, שֶׁהֵן קַבָּלַת גְּזֵרוֹת וָעֳנָשִׁים שֶׁל תּוֹרָה. וְחוֹזֵר וְקוֹרֵא פָּרָשַׁת הַמֶּלֶךְ

Bartenura reconstrói a lógica temática por trás da sequência aparentemente descontínua de leituras: o rei começa em "estas são as palavras" (início de Devarim) e avança até o Shemá, que expressa a aceitação do jugo celestial; conecta-se diretamente a "e será se ouvirdes", que expressa a aceitação do jugo dos mandamentos; salta então para "certamente dizimarás" e "quando terminares de dizimar" — apropriadas à época do ano, tempo de colheita e separação de dízimos aos pobres; segue com as bênçãos e maldições, que representam a aceitação dos decretos e punições da Torá; e conclui, por fim, voltando à própria porção do rei, "certamente porás sobre ti um rei" — fechando o ciclo temático da assembleia com a instituição da realeza que a própria cerimônia encena.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Encerrando o Perek Zayin, perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 40b-41b), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 41a-41b, sobre a mishná
בשמיני - בַּגְּמָרָא פָּרֵיךְ בַּשְּׁמִינִי סָלְקָא דַעְתָּךְ, הָא אָמְרַתְּ בְּמוֹצָאֵי יוֹם טוֹב הָרִאשׁוֹן, וּמְשַׁנֵּינַן אֵימָא בַּשְּׁמִינִית, בְּמוֹצָאֵי שְׁבִיעִית, בְּסֻכּוֹת שֶׁבִּתְחִלַּת שָׁנָה שְׁמִינִית: אגריפס המלך - מֶלֶךְ יִשְׂרָאֵל הָיָה מִזַּרְעוֹ שֶׁל הוֹרְדוֹס, וְהוּא שֶׁנֶּחְרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ בְּיָמָיו: אחינו אתה - שֶׁאִמּוֹ מִיִּשְׂרָאֵל

Rashi resolve uma ambiguidade textual importante: a palavra "בַּשְּׁמִינִי" ("no oitavo") não pode significar o oitavo dia da festa de Sucot, pois isso contradiria a afirmação anterior de que a cerimônia ocorre "ao final do primeiro dia" da festa; a Guemará corrige a leitura para "בַּשְּׁמִינִית" ("no oitavo ano"), referindo-se ao início do oitavo ano do ciclo sabático, imediatamente após o ano de shemitá terminar. Sobre a identidade de Agripa, Rashi adota uma posição mais branda que Rambam: identifica-o como rei de Israel da linhagem de Herodes, em cujos dias o Segundo Templo foi destruído, e explica que o povo o chamou de "irmão" porque, afinal, sua mãe era de origem israelita — reconhecendo alguma legitimidade real ao vínculo, ainda que talvez politicamente convenient.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 7:8
וּמַה שֶּׁהָיָה קוֹרֵא מִן הַתּוֹרָה הוּא מֵאֵלֶּה הַדְּבָרִים עַד סוֹף פָּרָשַׁת שְׁמַע, וּמְחַבֵּר אוֹתָהּ עִם פָּרָשַׁת וְהָיָה אִם שָׁמֹעַ עַד סוֹף הַפָּרָשָׁה, וּמְחַבֵּר אוֹתָהּ בְּפָרָשַׁת עַשֵּׂר תְּעַשֵּׂר, וְקוֹרֵא עַל הַסֵּדֶר עַד סוֹף הַבְּרָכוֹת וְהַקְּלָלוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר אֲשֶׁר כָּרַת אִתָּם בְּחוֹרֵב

Rambam confirma e detalha a extensão exata de cada porção lida pelo rei, enfatizando a continuidade final: da porção do dízimo em diante, a leitura segue em ordem contínua até o fim das bênçãos e maldições, encerrando com a menção explícita da aliança "que Ele firmou com eles em Chorev" (o Sinai) — uma referência que, ao concluir o Hakhel, conecta simbolicamente a assembleia septenal de leitura pública à própria revelação original da Torá no deserto, fechando o círculo entre a entrega da lei e sua renovação periódica diante de todo o povo reunido.

Bartenura · רע״ב
Sotá 7:8
אַגְרִיפָּס הַמֶּלֶךְ. מִזַּרְעוֹ שֶׁל הוֹרוֹדוּס הָיָה, וּבְיָמָיו נֶחְרַב בַּיִת שֵׁנִי: זָלְגוּ עֵינָיו דְּמָעוֹת. שֶׁהַמִּקְרָא הַזֶּה פְּסָלוֹ מִן הַמַּלְכוּת: אָחִינוּ אָתָּה. שֶׁאִמּוֹ מִיִּשְׂרָאֵל

Encerrando o Perek Zayin, Bartenura resume o episódio com economia: Agripa, descendente de Herodes, reinou nos dias que precederam a destruição do Segundo Templo; suas lágrimas brotaram porque compreendeu que o próprio versículo que estava lendo o desqualificava, a rigor, da monarquia que ocupava; e a resposta tripla do povo — "tu és nosso irmão" — apoiou-se no fato de que sua mãe era de origem israelita, oferecendo-lhe conforto público diante de uma leitura que, de outro modo, teria sido profundamente constrangedora. Com este episódio humano e político, encerra-se o Perek Zayin, que passou das leis de língua litúrgica às grandes cerimônias nacionais de Israel — do Har Guerizim ao Hakhel.