As bênçãos e maldições, como? Quando Israel atravessou o Jordão e chegou ao Har Guerizim e ao Har Eival, que ficam em Samaria, junto a Shechem, perto dos carvalhos de Moré, como está dito: "não estão eles além do Jordão..."; e adiante se diz: "e Avram passou pela terra até o lugar de Shechem, até o carvalho de Moré". Assim como o carvalho de Moré mencionado adiante é Shechem, também o carvalho de Moré mencionado aqui é Shechem. Seis tribos subiram ao topo do Har Guerizim e seis tribos subiram ao topo do Har Eival, e os cohanim, os leviim e a Arca ficavam embaixo, no meio; os cohanim rodeavam a Arca, os leviim rodeavam os cohanim, e todo Israel ficava de um lado e de outro, como está dito: "e todo Israel, seus anciãos, seus oficiais e seus juízes estavam de um lado e de outro da Arca..." Voltaram seus rostos em direção ao Har Guerizim e abriram com a bênção: "Bendito o homem que não fizer imagem esculpida nem fundida" — e estes e aqueles respondiam amém. Voltaram seus rostos em direção ao Har Eival e abriram com a maldição: "Maldito o homem que fizer imagem esculpida nem fundida" — e estes e aqueles respondiam amém, até que terminassem as bênçãos e as maldições. E depois trouxeram as pedras, construíram o altar, o revestiram de cal, e escreveram sobre ele todas as palavras da Torá em setenta línguas, como está dito: "explicado com clareza"; e levaram as pedras e vieram pernoitar em seu lugar. — Este é o relato mais extenso e detalhado de todo o perek, reconstruindo passo a passo a cerimônia de renovação da aliança prescrita em Devarim 27, realizada imediatamente após Israel atravessar o Jordão sob a liderança de Josué. A divisão simétrica de seis tribos em cada monte, a Arca cercada por cohanim e leviim no vale entre eles, a leitura alternada de bênçãos e maldições respondidas com "amém" por toda a nação, e a subsequente construção de um altar cujas pedras foram inscritas com toda a Torá em setenta línguas — para que nenhuma nação pudesse alegar ignorância da lei — compõem um dos momentos mais solenes da história bíblica de Israel, marcando sua entrada formal na Terra Prometida sob os termos da aliança.
A cerimônia inteira é regulamentada em Devarim 27, com a identificação geográfica apoiada numa analogia verbal com Bereshit e a confirmação do arranjo das tribos em Yehoshua 8.
A identificação geográfica de Shechem depende de uma gezerá shavá sobre a expressão "carvalho de Moré": ela aparece tanto em Devarim 11:30, referindo-se ao Har Guerizim e Har Eival, quanto em Bereshit 12:6, no relato da chegada de Avraham a Shechem — e essa coincidência verbal fixa a localização exata dos dois montes junto à cidade de Shechem, hoje identificada com a região de Nablus. A palavra "בַּאֵר הֵיטֵב" ("explicado com clareza") é interpretada como exigindo a inscrição em setenta línguas — todas as línguas então conhecidas das nações — para que a Torá fosse acessível a qualquer povo que desejasse aprendê-la.
Rambam esclarece o alcance da inscrição em setenta línguas; Bartenura detalha a geografia, a formação e o destino final das pedras.
Rambam esclarece o que a mishná quer dizer com "setenta línguas": não que cada palavra da Torá fosse repetida setenta vezes em setenta idiomas diferentes numa mesma superfície, mas que o texto foi escrito "na escrita de cada uma dessas nações" — ou seja, foi produzida uma versão completa da Torá em cada um dos sistemas de escrita das setenta nações então conhecidas, de modo que qualquer povo que desejasse ler e aprender a lei de Israel pudesse fazê-lo em sua própria língua e escrita.
Bartenura esclarece que o Har Guerizim e o Har Eival ficam próximos à região de Samaria, e que "de um lado e de outro" refere-se à posição do povo sobre os próprios montes. Sobre a inscrição em setenta línguas, ele confirma a leitura de Rambam: o propósito era eliminar qualquer justificativa das nações por não conhecerem a lei de Israel. Bartenura acrescenta um detalhe importante sobre a sequência dos eventos: depois de oferecer os holocaustos e as ofertas de paz sobre o altar de pedras erguido no Har Eival, os israelitas desmontaram esse mesmo altar, levaram as pedras consigo, e as reergueram permanentemente em Guilgal, onde acamparam naquela noite — de modo que as pedras inscritas com a Torá permaneceram como monumento duradouro no local do primeiro acampamento em Israel.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 32a, 33b, 35b-36a e 37a), Rambam e Bartenura.
Rashi esclarece um detalhe litúrgico essencial: cada uma das doze declarações de bênção-e-maldição do capítulo 27 de Devarim (por exemplo, "bendito quem não faz ídolo... maldito quem faz ídolo") era proferida primeiro na forma de bênção, mesmo tratando-se, em sua essência, de uma maldição — os levitas anunciavam o comportamento correto de forma positiva antes de anunciar a punição para sua transgressão. Rashi também esclarece que "estes e aqueles respondiam amém" refere-se aos grupos que estavam sobre os dois montes, não às próprias tribos pronunciando as bênçãos e maldições — apenas os levitas, posicionados no vale entre os montes, proferiam as fórmulas, virando o rosto ora para um monte, ora para o outro.
Rambam reafirma sua explicação central: a Torá foi escrita nas pedras não como uma justaposição confusa de setenta traduções simultâneas, mas como setenta cópias distintas e completas — uma para cada sistema de escrita nacional —, de modo organizado e acessível, cumprindo o mandamento de que a lei fosse "explicada com clareza" a qualquer nação que se aproximasse para lê-la.
Bartenura fecha o quadro descrevendo o destino físico das pedras: erguidas primeiro no Har Eival para servir de altar aos holocaustos e ofertas de paz que consagraram a entrada de Israel na terra, foram depois desmontadas — não destruídas, mas cuidadosamente levadas — e reerguidas em Guilgal, no acampamento onde o povo passou aquela primeira noite na Terra Prometida. Assim, a cerimônia das bênçãos e maldições, o sacrifício no altar improvisado e a inscrição universal da Torá formam uma sequência única de consagração nacional, unindo lei, culto e memória num só ato fundacional.