Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Zayin · Mishná 5 de 8

As bênçãos e maldições no Har Guerizim e Har Eival

בְּרָכוֹת וּקְלָלוֹת כֵּיצַד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná narra em detalhe a grande cerimônia nacional realizada logo após a travessia do Jordão: a proclamação solene das bênçãos e maldições entre dois montes, seguida da construção do altar e da inscrição da Torá em setenta línguas.

As bênçãos e maldições, como? Quando Israel atravessou o Jordão e chegou ao Har Guerizim e ao Har Eival, que ficam em Samaria, junto a Shechem, perto dos carvalhos de Moré, como está dito: "não estão eles além do Jordão..."; e adiante se diz: "e Avram passou pela terra até o lugar de Shechem, até o carvalho de Moré". Assim como o carvalho de Moré mencionado adiante é Shechem, também o carvalho de Moré mencionado aqui é Shechem. Seis tribos subiram ao topo do Har Guerizim e seis tribos subiram ao topo do Har Eival, e os cohanim, os leviim e a Arca ficavam embaixo, no meio; os cohanim rodeavam a Arca, os leviim rodeavam os cohanim, e todo Israel ficava de um lado e de outro, como está dito: "e todo Israel, seus anciãos, seus oficiais e seus juízes estavam de um lado e de outro da Arca..." Voltaram seus rostos em direção ao Har Guerizim e abriram com a bênção: "Bendito o homem que não fizer imagem esculpida nem fundida" — e estes e aqueles respondiam amém. Voltaram seus rostos em direção ao Har Eival e abriram com a maldição: "Maldito o homem que fizer imagem esculpida nem fundida" — e estes e aqueles respondiam amém, até que terminassem as bênçãos e as maldições. E depois trouxeram as pedras, construíram o altar, o revestiram de cal, e escreveram sobre ele todas as palavras da Torá em setenta línguas, como está dito: "explicado com clareza"; e levaram as pedras e vieram pernoitar em seu lugar.Este é o relato mais extenso e detalhado de todo o perek, reconstruindo passo a passo a cerimônia de renovação da aliança prescrita em Devarim 27, realizada imediatamente após Israel atravessar o Jordão sob a liderança de Josué. A divisão simétrica de seis tribos em cada monte, a Arca cercada por cohanim e leviim no vale entre eles, a leitura alternada de bênçãos e maldições respondidas com "amém" por toda a nação, e a subsequente construção de um altar cujas pedras foram inscritas com toda a Torá em setenta línguas — para que nenhuma nação pudesse alegar ignorância da lei — compõem um dos momentos mais solenes da história bíblica de Israel, marcando sua entrada formal na Terra Prometida sob os termos da aliança.

בְּרָכוֹת וּקְלָלוֹת כֵּיצַד. כֵּיוָן שֶׁעָבְרוּ יִשְׂרָאֵל אֶת הַיַּרְדֵּן וּבָאוּ אֶל הַר גְּרִזִּים וְאֶל הַר עֵיבָל שֶׁבְּשׁוֹמְרוֹן שֶׁבְּצַד שְׁכֶם שֶׁבְּאֵצֶל אֵלוֹנֵי מֹרֶה, שֶׁנֶּאֱמַר הֲלֹא הֵמָּה בְּעֵבֶר הַיַּרְדֵּן וְגוֹ', וּלְהַלָּן הוּא אוֹמֵר וַיַּעֲבֹר אַבְרָם בָּאָרֶץ עַד מְקוֹם שְׁכֶם עַד אֵלוֹן מוֹרֶה, מָה אֵלוֹן מוֹרֶה הָאָמוּר לְהַלָּן שְׁכֶם, אַף אֵלוֹן מוֹרֶה הָאָמוּר כָּאן שְׁכֶם. שִׁשָּׁה שְׁבָטִים עָלוּ לְרֹאשׁ הַר גְּרִזִּים וְשִׁשָּׁה שְׁבָטִים עָלוּ לְרֹאשׁ הַר עֵיבָל, וְהַכֹּהֲנִים וְהַלְוִיִּם וְהָאָרוֹן עוֹמְדִים לְמַטָּה בָאֶמְצַע, הַכֹּהֲנִים מַקִּיפִין אֶת הָאָרוֹן, וְהַלְוִיִּם אֶת הַכֹּהֲנִים, וְכָל יִשְׂרָאֵל מִכָּאן וּמִכָּאן, שֶׁנֶּאֱמַר וְכָל יִשְׂרָאֵל וּזְקֵנָיו וְשֹׁטְרָיו וְשֹׁפְטָיו עֹמְדִים מִזֶּה וּמִזֶּה לָאָרוֹן וְגוֹ'. הָפְכוּ פְנֵיהֶם כְּלַפֵּי הַר גְּרִזִּים וּפָתְחוּ בַבְּרָכָה, בָּרוּךְ הָאִישׁ אֲשֶׁר לֹא יַעֲשֶׂה פֶסֶל וּמַסֵּכָה, וְאֵלּוּ וָאֵלּוּ עוֹנִין אָמֵן. הָפְכוּ פְנֵיהֶם כְּלַפֵּי הַר עֵיבָל וּפָתְחוּ בַקְּלָלָה, אָרוּר הָאִישׁ אֲשֶׁר יַעֲשֶׂה פֶסֶל וּמַסֵּכָה, וְאֵלּוּ וָאֵלּוּ עוֹנִין אָמֵן, עַד שֶׁגּוֹמְרִין בְּרָכוֹת וּקְלָלוֹת. וְאַחַר כָּךְ הֵבִיאוּ אֶת הָאֲבָנִים וּבָנוּ אֶת הַמִּזְבֵּחַ וְסָדוּהוּ בְסִיד, וְכָתְבוּ עָלָיו אֶת כָּל דִּבְרֵי הַתּוֹרָה בְּשִׁבְעִים לָשׁוֹן, שֶׁנֶּאֱמַר בַּאֵר הֵיטֵב, וְנָטְלוּ אֶת הָאֲבָנִים וּבָאוּ וְלָנוּ בִמְקוֹמָן:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A cerimônia inteira é regulamentada em Devarim 27, com a identificação geográfica apoiada numa analogia verbal com Bereshit e a confirmação do arranjo das tribos em Yehoshua 8.

Devarim (Deuteronômio) 27:12-13
אֵלֶּה יַעַמְדוּ לְבָרֵךְ אֶת הָעָם עַל הַר גְּרִזִּים... וְאֵלֶּה יַעַמְדוּ עַל הַקְּלָלָה בְּהַר עֵיבָל...
"Estes ficarão para abençoar o povo sobre o Har Guerizim... e estes ficarão sobre a maldição no Har Eival..."
Devarim (Deuteronômio) 27:2-3, 8
וַהֲקֵמֹתָ לְךָ אֲבָנִים גְּדֹלוֹת וְשַׂדְתָּ אֹתָם בַּשִּׂיד... וְכָתַבְתָּ עֲלֵיהֶן אֶת כָּל דִּבְרֵי הַתּוֹרָה הַזֹּאת... בַּאֵר הֵיטֵב׃
"E levantarás para ti pedras grandes e as revestirás de cal... e escreverás sobre elas todas as palavras desta Torá... com clareza explicada."
Yehoshua (Josué) 8:33
וְכָל יִשְׂרָאֵל וּזְקֵנָיו וְשֹׁטְרִים וְשֹׁפְטָיו עֹמְדִים מִזֶּה וּמִזֶּה לָאָרוֹן, נֶגֶד הַכֹּהֲנִים הַלְוִיִּם נֹשְׂאֵי אֲרוֹן בְּרִית ה'׃
"E todo Israel, e seus anciãos, e oficiais, e seus juízes, estavam de um lado e de outro da Arca, diante dos cohanim leviim que carregavam a Arca da aliança do Eterno."

A identificação geográfica de Shechem depende de uma gezerá shavá sobre a expressão "carvalho de Moré": ela aparece tanto em Devarim 11:30, referindo-se ao Har Guerizim e Har Eival, quanto em Bereshit 12:6, no relato da chegada de Avraham a Shechem — e essa coincidência verbal fixa a localização exata dos dois montes junto à cidade de Shechem, hoje identificada com a região de Nablus. A palavra "בַּאֵר הֵיטֵב" ("explicado com clareza") é interpretada como exigindo a inscrição em setenta línguas — todas as línguas então conhecidas das nações — para que a Torá fosse acessível a qualquer povo que desejasse aprendê-la.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam esclarece o alcance da inscrição em setenta línguas; Bartenura detalha a geografia, a formação e o destino final das pedras.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 7:5
בְּרָכוֹת וּקְלָלוֹת כֵּיצַד כֵּיוָן שֶׁעָבְרוּ יִשְׂרָאֵל אֶת הַיַּרְדֵּן כוּ׳. מַה שֶּׁאָמַר בְּשִׁבְעִים לָשׁוֹן, רוֹצֶה לוֹמַר בִּכְתִיבַת כָּל אֻמָּה מֵאֵלּוּ הָאֻמּוֹת

Rambam esclarece o que a mishná quer dizer com "setenta línguas": não que cada palavra da Torá fosse repetida setenta vezes em setenta idiomas diferentes numa mesma superfície, mas que o texto foi escrito "na escrita de cada uma dessas nações" — ou seja, foi produzida uma versão completa da Torá em cada um dos sistemas de escrita das setenta nações então conhecidas, de modo que qualquer povo que desejasse ler e aprender a lei de Israel pudesse fazê-lo em sua própria língua e escrita.

Bartenura · Sotá 7:5
שֶׁבְּשׁוֹמְרוֹן. אֵצֶל שׁוֹמְרוֹן: מִכָּאן וּמִכָּאן. עַל הֶהָרִים: בְּשִׁבְעִים לָשׁוֹן. בִּכְתָב שֶׁל שִׁבְעִים אֻמּוֹת, וְכָל הָרוֹצֶה לְלָמְדָהּ יָבֹא וְיִלְמֹד. שֶׁלֹּא יִהְיֶה פִּתְחוֹן פֶּה לָאֻמּוֹת לוֹמַר לֹא הָיָה לָנוּ מֵהֵיכָן לִלְמֹד: אֶת הָאֲבָנִים. סָתְרוּ אֶת הַמִּזְבֵּחַ לְאַחַר שֶׁהֶעֱלוּ הָעוֹלוֹת וְהַשְּׁלָמִים: וְלָנוּ בִמְקוֹמָן. בְּבֵית מְלוֹנָם בַּגִּלְגָּל, וְשָׁם הֵקִימוּ אֶת הָאֲבָנִים

Bartenura esclarece que o Har Guerizim e o Har Eival ficam próximos à região de Samaria, e que "de um lado e de outro" refere-se à posição do povo sobre os próprios montes. Sobre a inscrição em setenta línguas, ele confirma a leitura de Rambam: o propósito era eliminar qualquer justificativa das nações por não conhecerem a lei de Israel. Bartenura acrescenta um detalhe importante sobre a sequência dos eventos: depois de oferecer os holocaustos e as ofertas de paz sobre o altar de pedras erguido no Har Eival, os israelitas desmontaram esse mesmo altar, levaram as pedras consigo, e as reergueram permanentemente em Guilgal, onde acamparam naquela noite — de modo que as pedras inscritas com a Torá permaneceram como monumento duradouro no local do primeiro acampamento em Israel.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 32a, 33b, 35b-36a e 37a), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 32a, 33b e 35b-36a, sobre a mishná
הַהָפְכוּ - הַלְוִיִּם פְּנֵיהֶם כְּלַפֵּי הַר גְּרִזִּים וּפָתְחוּ בַבְּרָכָה, כָּל הָאֲרוּרִים הָיוּ אוֹמְרִים תְּחִלָּה בִּלְשׁוֹן בְּרָכָה: אֵלּוּ וָאֵלּוּ - שֶׁבְּהַר גְּרִזִּים וְשֶׁבְּהַר עֵיבָל, וְהָא דִּכְתִיב וְאֵלֶּה יַעַמְדוּ לְבָרֵךְ, לֹא שֶׁהָיוּ הַשְּׁבָטִים מְבָרְכִין וּמְקַלְּלִין, אֶלָּא הַלְוִיִּם הָעוֹמְדִים בֵּין שְׁנֵי הֶהָרִים הוֹפְכִין פְּנֵיהֶם לְהַר גְּרִזִּים בִּבְרָכָה וּלְהַר עֵיבָל בִּקְלָלָה: הַשְּׁלוֹשׁ יוֹשְׁבִים כּוּתִּיִּים - עַכְשָׁו הֵן יוֹשְׁבִין בָּהֶן שֶׁהוֹשִׁיבָן סַנְחֵרִיב כְּשֶׁהִגְלָה עֲשֶׂרֶת הַשְּׁבָטִים

Rashi esclarece um detalhe litúrgico essencial: cada uma das doze declarações de bênção-e-maldição do capítulo 27 de Devarim (por exemplo, "bendito quem não faz ídolo... maldito quem faz ídolo") era proferida primeiro na forma de bênção, mesmo tratando-se, em sua essência, de uma maldição — os levitas anunciavam o comportamento correto de forma positiva antes de anunciar a punição para sua transgressão. Rashi também esclarece que "estes e aqueles respondiam amém" refere-se aos grupos que estavam sobre os dois montes, não às próprias tribos pronunciando as bênçãos e maldições — apenas os levitas, posicionados no vale entre os montes, proferiam as fórmulas, virando o rosto ora para um monte, ora para o outro.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 7:5
מַה שֶּׁאָמַר בְּשִׁבְעִים לָשׁוֹן, רוֹצֶה לוֹמַר בִּכְתִיבַת כָּל אֻמָּה מֵאֵלּוּ הָאֻמּוֹת

Rambam reafirma sua explicação central: a Torá foi escrita nas pedras não como uma justaposição confusa de setenta traduções simultâneas, mas como setenta cópias distintas e completas — uma para cada sistema de escrita nacional —, de modo organizado e acessível, cumprindo o mandamento de que a lei fosse "explicada com clareza" a qualquer nação que se aproximasse para lê-la.

Bartenura · רע״ב
Sotá 7:5
שֶׁבְּשׁוֹמְרוֹן. אֵצֶל שׁוֹמְרוֹן: מִכָּאן וּמִכָּאן. עַל הֶהָרִים: בְּשִׁבְעִים לָשׁוֹן. בִּכְתָב שֶׁל שִׁבְעִים אֻמּוֹת, וְכָל הָרוֹצֶה לְלָמְדָהּ יָבֹא וְיִלְמֹד. שֶׁלֹּא יִהְיֶה פִּתְחוֹן פֶּה לָאֻמּוֹת לוֹמַר לֹא הָיָה לָנוּ מֵהֵיכָן לִלְמֹד: אֶת הָאֲבָנִים. סָתְרוּ אֶת הַמִּזְבֵּחַ לְאַחַר שֶׁהֶעֱלוּ הָעוֹלוֹת וְהַשְּׁלָמִים: וְלָנוּ בִמְקוֹמָן. בְּבֵית מְלוֹנָם בַּגִּלְגָּל, וְשָׁם הֵקִימוּ אֶת הָאֲבָנִים

Bartenura fecha o quadro descrevendo o destino físico das pedras: erguidas primeiro no Har Eival para servir de altar aos holocaustos e ofertas de paz que consagraram a entrada de Israel na terra, foram depois desmontadas — não destruídas, mas cuidadosamente levadas — e reerguidas em Guilgal, no acampamento onde o povo passou aquela primeira noite na Terra Prometida. Assim, a cerimônia das bênçãos e maldições, o sacrifício no altar improvisado e a inscrição universal da Torá formam uma sequência única de consagração nacional, unindo lei, culto e memória num só ato fundacional.