Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Zayin · Mishná 4 de 8

A derivação da chalitzá e a fórmula exata de Rabi Yehudá

חֲלִיצָה כֵּיצַד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Seguindo o mesmo padrão da mishná anterior, esta explica a derivação do hebraico obrigatório na chalitzá, e acrescenta a posição divergente de Rabi Yehudá, que a fundamenta de outra maneira.

A chalitzá, como? "E ela responderá e dirá" — e adiante se diz: "e os levitas responderão e dirão". Assim como a resposta dita adiante é em língua sagrada, também aqui é em língua sagrada. Rabi Yehudá diz: "e ela responderá e dirá assim" — até que ela diga nesta mesma língua.A mishná aplica à chalitzá o mesmo mecanismo de analogia verbal já visto para os bikurim: o versículo que descreve a declaração final da cunhada emprega "e ela responderá e dirá", espelhando a expressão "e os levitas responderão e dirão" do Har Guerizim, e por essa comparação deriva-se que a chalitzá também exige hebraico. Rabi Yehudá, porém, discorda do fundamento — não do resultado. Ele extrai a mesma exigência não da analogia com os levitas, mas de uma palavra adicional no próprio versículo da chalitzá: "assim" (kacha). Para ele, essa palavra sinaliza que a cunhada deve pronunciar a fórmula exatamente nestes termos fixos, sem paráfrase e sem tradução — o que, por si só, já implica que ela fale em hebraico, a língua original em que a fórmula foi dada.

חֲלִיצָה כֵּיצַד, וְעָנְתָה וְאָמְרָה, וּלְהַלָּן הוּא אוֹמֵר וְעָנוּ הַלְוִיִּם וְאָמְרוּ, מָה עֲנִיָּה הָאֲמוּרָה לְהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ, אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, וְעָנְתָה וְאָמְרָה כָּכָה, עַד שֶׁתֹּאמַר בַּלָּשׁוֹן הַזֶּה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

O versículo central desta mishná é o mesmo de Devarim 25:9 já citado na mishná anterior, mas agora com atenção à palavra "assim" (kacha), central para a opinião de Rabi Yehudá.

Devarim (Deuteronômio) 25:9
וְנִגְּשָׁה יְבִמְתּוֹ אֵלָיו לְעֵינֵי הַזְּקֵנִים, וְחָלְצָה נַעֲלוֹ מֵעַל רַגְלוֹ וְיָרְקָה בְּפָנָיו, וְעָנְתָה וְאָמְרָה כָּכָה יֵעָשֶׂה לָאִישׁ אֲשֶׁר לֹא יִבְנֶה אֶת בֵּית אָחִיו׃
"E sua cunhada se aproximará dele diante dos olhos dos anciãos, e tirará seu sapato do pé dele, e cuspirá diante dele, e responderá e dirá: assim se faz ao homem que não constrói a casa de seu irmão."
Devarim (Deuteronômio) 27:14
וְעָנוּ הַלְוִיִּם וְאָמְרוּ אֶל כָּל אִישׁ יִשְׂרָאֵל קוֹל רָם׃
"E os levitas responderão e dirão a todo homem de Israel, em voz alta."

A palavra "כָּכָה" ("assim") é o ponto de divergência entre os sábios e Rabi Yehudá. Para os sábios (o tanna kamma, cuja opinião abre a mishná), essa palavra é dispensável para a derivação, que se apoia inteiramente na gezerá shavá "responder"/"responder"; para Rabi Yehudá, ao contrário, é precisamente essa palavra que carrega o peso normativo, indicando que a Torá exige uma fórmula fixa e exata — "assim, com estas palavras exatas" — sem qualquer necessidade de recorrer à comparação com os levitas. A Guemará (Sotá 33b) debate longamente qual das duas leituras é mais econômica.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam não comenta esta mishná especificamente; Bartenura explica por que, na visão de Rabi Yehudá, a gezerá shavá se torna desnecessária.

Bartenura · Sotá 7:4
וְעָנְתָה וְאָמְרָה כָּכָה. אֵינוֹ צָרִיךְ לְלַמְּדָהּ בִּגְזֵרָה שָׁוָה, שֶׁמֵּעַצְמָהּ הִיא לְמֵדָה, וְעָנְתָה וְאָמְרָה כָּכָה, כַּלָּשׁוֹן הַזֶּה תֹּאמַר

Bartenura resume com precisão a posição de Rabi Yehudá: ele não precisa recorrer à gezerá shavá para chegar à mesma conclusão prática, porque o próprio versículo já se ensina sozinho — a palavra "כָּכָה" ("assim") indica diretamente que a cunhada deve dizer a fórmula "com esta mesma linguagem", isto é, exatamente nestes termos, sem paráfrase. E como a fórmula bíblica está registrada em hebraico, dizer "com esta mesma linguagem" equivale, na prática, a exigir o hebraico — mas a exigência nasce da fixidez da fórmula, não de uma comparação externa com os levitas do Har Guerizim.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 32a e 33b) e Bartenura (Rambam não comenta esta mishná especificamente).

Rashi · רש״י
Sotá 32a e 33b, sobre a mishná
וְחָלִיצָה - הִיא אוֹמֶרֶת מֵאֵן יְבָמִי וְגוֹ' וְהוּא אוֹמֵר לֹא חָפַצְתִּי לְקַחְתָּהּ, וְאַחַר הַחֲלִיצָה הִיא אוֹמֶרֶת כָּכָה יֵעָשֶׂה לָאִישׁ וְגוֹ': וְעָנְתָה וְאָמְרָה כָּכָה - דְּמַשְׁמָע כַּלָּשׁוֹן הַזֶּה תֹּאמַר: וְרַבִּי יְהוּדָה הַאי גְּזֵרָה שָׁוָה דַּעֲנִיָּה וַאֲמִירָה מַאי עָבִיד לֵיהּ

Rashi reconstrói a sequência completa do ritual: a cunhada declara que o cunhado se recusa a construir a casa do irmão falecido, ele responde que não deseja tomá-la em casamento, e — após o ato físico da chalitzá, em que ela retira o sapato dele e cospe diante dele — ela conclui com a fórmula "assim se faz ao homem". Rashi então levanta a pergunta central da sugiá: se Rabi Yehudá deriva a exigência de hebraico diretamente da palavra "assim", o que ele faz com a gezerá shavá de "responder"/"responder" que os sábios usam? A resposta da Guemará é que Rabi Yehudá emprega essa mesma gezerá shavá para outro propósito — derivar a exigência de hebraico na bênção sacerdotal, tratada na sexta mishná deste perek.

Bartenura · רע״ב
Sotá 7:4
וְעָנְתָה וְאָמְרָה כָּכָה. אֵינוֹ צָרִיךְ לְלַמְּדָהּ בִּגְזֵרָה שָׁוָה, שֶׁמֵּעַצְמָהּ הִיא לְמֵדָה, וְעָנְתָה וְאָמְרָה כָּכָה, כַּלָּשׁוֹן הַזֶּה תֹּאמַר

Bartenura enfatiza a elegância da posição de Rabi Yehudá: ao contrário da opinião anônima da mishná, que precisa importar a exigência de hebraico de um contexto externo — as bênçãos e maldições do Har Guerizim —, Rabi Yehudá encontra a mesma conclusão dentro do próprio versículo da chalitzá, sem necessidade de comparação. A palavra "assim" já basta para fixar tanto a exatidão da fórmula quanto, por consequência, sua língua original. Essa autossuficiência textual é o que torna, segundo Bartenura, a leitura de Rabi Yehudá mais direta — ainda que a halachá final não dependa dessa escolha, já que ambas as abordagens chegam ao mesmo resultado prático.