A leitura dos primeiros frutos, como? "E responderás e dirás perante o Eterno, teu Deus" — e adiante se diz: "e os levitas responderão e dirão". Assim como a resposta dita adiante é em língua sagrada, também aqui é em língua sagrada. — A mishná ensina o mecanismo exegético por trás da exigência de hebraico na leitura dos bikurim: o versículo que descreve essa leitura emprega a expressão "e responderás e dirás", e a Torá emprega essa mesma expressão — "e os levitas responderão e dirão" — na descrição das bênçãos e maldições proferidas no Har Guerizim e no Har Eival, cerimônia que a Torá explicita ser realizada em hebraico. Por meio dessa analogia verbal (gezerá shavá), a tradição transfere a exigência de língua sagrada de um contexto para o outro: já que a palavra "responder" ali significa especificamente "responder em hebraico", o mesmo vale para a leitura dos primeiros frutos.
A mishná constrói uma analogia verbal explícita entre dois versículos de Devarim, unindo a cerimônia dos bikurim à cerimônia do Har Guerizim.
A Guemará (Sotá 33a) explica por trás desta gezerá shavá uma segunda analogia: a "resposta" dos levitas no Har Guerizim é comparada, por sua vez, à revelação no Sinai — "e Deus lhe responderia com voz" (Shemot 19:19) —, que ocorreu inequivocamente em hebraico. É essa cadeia de duas analogias verbais, e não apenas a comparação direta entre bikurim e Har Guerizim, que fundamenta em última instância a exigência do hebraico para a leitura dos primeiros frutos. Uma gezerá shavá é uma das treze regras clássicas de interpretação da Torá: quando a mesma expressão aparece em dois contextos distintos, a lei de um pode ser transferida ao outro.
Rambam não comenta esta mishná especificamente (sua explicação da regra geral aparece já na mishná anterior); Bartenura detalha o mecanismo da palavra "כֵּיצַד" e a origem da resposta levítica.
Bartenura observa primeiro um ponto de linguagem: a palavra "כֵּיצַד" ("como?"), que abre esta mishná, funciona aqui no sentido de "de onde se deriva?" — um pedido pela fonte textual, não apenas pela descrição do procedimento. Em seguida, Bartenura reconstrói a cadeia completa de duas etapas: primeiro se compara "e responderão... em voz alta" do Har Guerizim com "e Deus lhe responderia com voz" do Sinai, estabelecendo que a resposta dos levitas foi em hebraico; depois se transfere essa qualidade, por meio da segunda gezerá shavá, à leitura dos bikurim, fechando o círculo derivativo que a mishná apresenta de forma condensada.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 32a-33a) e Bartenura (Rambam não comenta esta mishná especificamente).
Rashi confirma o sentido da palavra "כֵּיצַד" como equivalente a "de onde se deriva?" — um pedido de fonte, não de procedimento — e observa que o próprio fundamento da exigência de hebraico no Har Guerizim (a comparação com o Sinai) só será explicado mais adiante, na quinta mishná deste perek, quando a cerimônia das bênçãos e maldições for tratada em detalhe. Aqui a mishná já pressupõe esse elo estabelecido para poder aplicá-lo, por sua vez, à leitura dos bikurim.
Bartenura resume, em linhas simples, a estrutura lógica completa da mishná: a pergunta "כֵּיצַד" busca a base textual de uma halachá já mencionada; a resposta aponta para o versículo das bênçãos e maldições, que emprega a mesma raiz "responder" que aparece na cerimônia do Sinai — e é justamente essa raiz compartilhada, atestada como hebraico no contexto da revelação, que permite estender a exigência de língua sagrada tanto ao Har Guerizim quanto, por extensão, à leitura dos primeiros frutos.