Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Zayin · Mishná 3 de 8

A derivação: por que os bikurim são recitados em hebraico

מִקְרָא בִכּוּרִים כֵּיצַד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa a explicar, item por item, a fonte de cada exigência da lista anterior — começando pela leitura dos primeiros frutos, cuja obrigação de hebraico é derivada por analogia verbal com as bênçãos e maldições do Har Guerizim.

A leitura dos primeiros frutos, como? "E responderás e dirás perante o Eterno, teu Deus" — e adiante se diz: "e os levitas responderão e dirão". Assim como a resposta dita adiante é em língua sagrada, também aqui é em língua sagrada. — A mishná ensina o mecanismo exegético por trás da exigência de hebraico na leitura dos bikurim: o versículo que descreve essa leitura emprega a expressão "e responderás e dirás", e a Torá emprega essa mesma expressão — "e os levitas responderão e dirão" — na descrição das bênçãos e maldições proferidas no Har Guerizim e no Har Eival, cerimônia que a Torá explicita ser realizada em hebraico. Por meio dessa analogia verbal (gezerá shavá), a tradição transfere a exigência de língua sagrada de um contexto para o outro: já que a palavra "responder" ali significa especificamente "responder em hebraico", o mesmo vale para a leitura dos primeiros frutos.

מִקְרָא בִכּוּרִים כֵּיצַד, וְעָנִיתָ וְאָמַרְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ, וּלְהַלָּן הוּא אוֹמֵר וְעָנוּ הַלְוִיִּם וְאָמְרוּ, מָה עֲנִיָּה הָאֲמוּרָה לְהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ, אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A mishná constrói uma analogia verbal explícita entre dois versículos de Devarim, unindo a cerimônia dos bikurim à cerimônia do Har Guerizim.

Devarim (Deuteronômio) 26:5
וְעָנִיתָ וְאָמַרְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ, אֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי, וַיֵּרֶד מִצְרַיְמָה...
"E responderás e dirás perante o Eterno, teu Deus: um arameu perambulante era meu pai, e desceu ao Egito..."
Devarim (Deuteronômio) 27:14
וְעָנוּ הַלְוִיִּם וְאָמְרוּ אֶל כָּל אִישׁ יִשְׂרָאֵל קוֹל רָם׃
"E os levitas responderão e dirão a todo homem de Israel, em voz alta."

A Guemará (Sotá 33a) explica por trás desta gezerá shavá uma segunda analogia: a "resposta" dos levitas no Har Guerizim é comparada, por sua vez, à revelação no Sinai — "e Deus lhe responderia com voz" (Shemot 19:19) —, que ocorreu inequivocamente em hebraico. É essa cadeia de duas analogias verbais, e não apenas a comparação direta entre bikurim e Har Guerizim, que fundamenta em última instância a exigência do hebraico para a leitura dos primeiros frutos. Uma gezerá shavá é uma das treze regras clássicas de interpretação da Torá: quando a mesma expressão aparece em dois contextos distintos, a lei de um pode ser transferida ao outro.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam não comenta esta mishná especificamente (sua explicação da regra geral aparece já na mishná anterior); Bartenura detalha o mecanismo da palavra "כֵּיצַד" e a origem da resposta levítica.

Bartenura · Sotá 7:3
כֵּיצַד. כְּמוֹ מִנַּיִן: וּלְהַלָּן הוּא אוֹמֵר. בַּבְּרָכוֹת וּקְלָלוֹת שֶׁל הַר גְּרִזִּים: מָה עֲנִיָּה הָאֲמוּרָה לְהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ. דִּכְתִיב וְאָמְרוּ אֶל כָּל אִישׁ יִשְׂרָאֵל קוֹל רָם, וּכְתִיב הָתָם וְהָאֱלֹהִים יַעֲנֶנּוּ בְקוֹל, מַה לְּהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ, אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ

Bartenura observa primeiro um ponto de linguagem: a palavra "כֵּיצַד" ("como?"), que abre esta mishná, funciona aqui no sentido de "de onde se deriva?" — um pedido pela fonte textual, não apenas pela descrição do procedimento. Em seguida, Bartenura reconstrói a cadeia completa de duas etapas: primeiro se compara "e responderão... em voz alta" do Har Guerizim com "e Deus lhe responderia com voz" do Sinai, estabelecendo que a resposta dos levitas foi em hebraico; depois se transfere essa qualidade, por meio da segunda gezerá shavá, à leitura dos bikurim, fechando o círculo derivativo que a mishná apresenta de forma condensada.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 32a-33a) e Bartenura (Rambam não comenta esta mishná especificamente).

Rashi · רש״י
Sotá 32a, sobre a mishná
כֵּיצַד - כְּמוֹ מִנַּיִן: וּלְהַלָּן הוּא אוֹמֵר - בִּבְרָכוֹת וּקְלָלוֹת שֶׁל הַר גְּרִזִּים, וּלְקַמָּן מְפָרֵשׁ הָתָם גּוּפֵיהּ מְנָא לָן

Rashi confirma o sentido da palavra "כֵּיצַד" como equivalente a "de onde se deriva?" — um pedido de fonte, não de procedimento — e observa que o próprio fundamento da exigência de hebraico no Har Guerizim (a comparação com o Sinai) só será explicado mais adiante, na quinta mishná deste perek, quando a cerimônia das bênçãos e maldições for tratada em detalhe. Aqui a mishná já pressupõe esse elo estabelecido para poder aplicá-lo, por sua vez, à leitura dos bikurim.

Bartenura · רע״ב
Sotá 7:3
כֵּיצַד. כְּמוֹ מִנַּיִן: וּלְהַלָּן הוּא אוֹמֵר. בַּבְּרָכוֹת וּקְלָלוֹת שֶׁל הַר גְּרִזִּים: מָה עֲנִיָּה הָאֲמוּרָה לְהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ. דִּכְתִיב וְאָמְרוּ אֶל כָּל אִישׁ יִשְׂרָאֵל קוֹל רָם, וּכְתִיב הָתָם וְהָאֱלֹהִים יַעֲנֶנּוּ בְקוֹל, מַה לְּהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ, אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ

Bartenura resume, em linhas simples, a estrutura lógica completa da mishná: a pergunta "כֵּיצַד" busca a base textual de uma halachá já mencionada; a resposta aponta para o versículo das bênçãos e maldições, que emprega a mesma raiz "responder" que aparece na cerimônia do Sinai — e é justamente essa raiz compartilhada, atestada como hebraico no contexto da revelação, que permite estender a exigência de língua sagrada tanto ao Har Guerizim quanto, por extensão, à leitura dos primeiros frutos.