Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Zayin · Mishná 2 de 8

O que se diz apenas em hebraico

וְאֵלּוּ נֶאֱמָרִין בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Em contraste direto com a mishná anterior, esta apresenta a lista complementar: os oito textos rituais que a lei exige serem recitados exclusivamente em hebraico, a língua sagrada.

E estes são ditos apenas em língua sagrada: a leitura dos primeiros frutos, a chalitzá, as bênçãos e as maldições, a bênção sacerdotal, e a bênção do Sumo Sacerdote, e a porção do rei, e a porção da novilha decapitada, e o discurso do sacerdote ungido para a guerra quando ele fala ao povo.Diferentemente da lista de textos flexíveis quanto à língua, esta mishná reúne oito cerimônias cuja validade depende estritamente do hebraico. A leitura dos primeiros frutos é a declaração que o agricultor faz ao trazer os bikurim ao Templo; a chalitzá é o ritual verbal pelo qual a cunhada libera o cunhado da obrigação do levirato; as bênçãos e maldições são as proferidas no Har Guerizim e no Har Eival, detalhadas na quinta mishná deste perek; a bênção sacerdotal é a fórmula de bênção que os cohanim pronunciam sobre o povo; a bênção do Sumo Sacerdote refere-se às orações que ele recita em Yom Kipur; a porção do rei é a leitura pública que o monarca faz a cada sete anos na festa de Sucot, descrita ao final deste perek; a porção da novilha decapitada é a declaração dos anciãos da cidade mais próxima de um cadáver encontrado sem assassino identificado; e o discurso do sacerdote ungido para a guerra é a exortação que ele dirige às tropas antes da batalha.

וְאֵלּוּ נֶאֱמָרִין בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ. מִקְרָא בִכּוּרִים, וַחֲלִיצָה, בְּרָכוֹת וּקְלָלוֹת, בִּרְכַּת כֹּהֲנִים, וּבִרְכַּת כֹּהֵן גָּדוֹל, וּפָרָשַׁת הַמֶּלֶךְ, וּפָרָשַׁת עֶגְלָה עֲרוּפָה, וּמְשׁוּחַ מִלְחָמָה בְּשָׁעָה שֶׁמְּדַבֵּר אֶל הָעָם:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

As duas mishnayot seguintes explicarão em detalhe a derivação do hebraico obrigatório para bikurim e chalitzá; aqui bastam os versículos centrais de cada cerimônia listada.

Devarim (Deuteronômio) 26:5
וְעָנִיתָ וְאָמַרְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ, אֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי...
"E responderás e dirás perante o Eterno, teu Deus: um arameu perambulante era meu pai..."
Devarim (Deuteronômio) 25:9
וְעָנְתָה וְאָמְרָה כָּכָה יֵעָשֶׂה לָאִישׁ אֲשֶׁר לֹא יִבְנֶה אֶת בֵּית אָחִיו׃
"E responderá e dirá: assim se faz ao homem que não constrói a casa de seu irmão."
Devarim (Deuteronômio) 21:7-8
וְעָנוּ וְאָמְרוּ יָדֵינוּ לֹא שָׁפְכוּ אֶת הַדָּם הַזֶּה... כַּפֵּר לְעַמְּךָ יִשְׂרָאֵל...
"E responderão e dirão: nossas mãos não derramaram este sangue... perdoa a teu povo Israel..."

O padrão comum a quase todos os itens desta lista é o verbo "responder" (עָנָה) associado à fala — construção que a Guemará compara, por gezerá shavá (analogia verbal), à "resposta" dos levitas no Har Guerizim, que a Torá explicita ser em hebraico. Assim, cada vez que a Torá emprega "וְעָנָה... וְאָמַר" para descrever a fórmula de uma cerimônia, a tradição deriva que ela deve ser pronunciada na língua sagrada. As duas próximas mishnayot desenvolverão essa derivação para os bikurim e para a chalitzá especificamente.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam liga o hebraico obrigatório à mesma raiz verbal "responder"; Bartenura identifica brevemente cada uma das oito cerimônias listadas.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 7:2
וְאֵלּוּ נֶאֱמָרִין בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ מִקְרָא בִכּוּרִים כוּ׳. וְעָנוּ הַלְוִיִּם וְאָמְרוּ אֶל כָּל אִישׁ יִשְׂרָאֵל קוֹל רָם, וְאָמַר מֹשֶׁה יְדַבֵּר וְהָאֱלֹהִים יַעֲנֶנּוּ בְקוֹל, מַה לְּהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ. וְלָמַד רַבִּי יְהוּדָה חֲלִיצָה מִמַּה שֶּׁאָמַר כָּכָה, לְפִי שֶׁבְּכָל מָקוֹם שֶׁאָמַר בַּתּוֹרָה כָּכָה אוֹ כֹּה רוֹצֶה לוֹמַר בַּלָּשׁוֹן הַזֶּה, לֹא לְהוֹסִיף וְלֹא לִגְרֹעַ

Rambam explica a fonte comum a toda a lista: como os levitas "responderam e disseram" no Har Guerizim em hebraico — comparando-se essa "resposta" à revelação no Sinai, onde "Deus lhe responderia com voz" —, a analogia verbal estende o hebraico obrigatório a todas as cerimônias cuja fórmula bíblica usa o mesmo padrão de "responder e dizer". Rambam antecipa também a opinião de Rabi Yehudá, que deriva a exigência de hebraico na chalitzá não da analogia verbal, mas da palavra "assim" (כָּכָה): sempre que a Torá emprega essa palavra, ela indica uma fórmula exata, fixa nesses termos precisos, sem que se possa acrescentar ou subtrair — o que, segundo essa opinião, obriga o hebraico por si só.

Bartenura · Sotá 7:2
מִקְרָא בִכּוּרִים. שֶׁהָיָה קוֹרֵא מֵאֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי עַד סוֹף הַפָּרָשָׁה: וַחֲלִיצַת יְבָמָה. הִיא אוֹמֶרֶת מֵאֵן יְבָמִי לְהָקִים לְאָחִיו שֵׁם בְּיִשְׂרָאֵל לֹא אָבָה יַבְּמִי, וְהוּא אוֹמֵר לֹא חָפַצְתִּי לְקַחְתָּהּ, וְאַחַר הַחֲלִיצָה אוֹמֶרֶת כָּכָה יֵעָשֶׂה לָאִישׁ: וּפָרָשַׁת הַמֶּלֶךְ. הִיא פָּרָשַׁת הַקְהֵל, כְּדִמְפָרֵשׁ בְּסוֹף פִּרְקִין

Bartenura identifica cada uma das oito cerimônias com precisão prática: a leitura dos bikurim vai desde "um arameu perambulante era meu pai" até o fim da passagem; a chalitzá envolve uma troca ritual de falas — a cunhada declara que o cunhado se recusa a construir a casa do irmão, ele responde que não deseja tomá-la, e após o ato da chalitzá ela conclui dizendo "assim se faz ao homem". Bartenura esclarece ainda que a "porção do rei" mencionada aqui é a mesma "porção do Hakhel" — a grande assembleia septenal — que será detalhada na última mishná deste perek, unificando a terminologia entre as duas passagens.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 32a), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 32a, sobre a mishná
וְאֵלּוּ נֶאֱמָרִין בְּלָשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ - וְלֹא אָמְרִינַן נִגְמַר מֵהָנֵי דִּלְעֵיל שֶׁנִּכְתַּב וְנִסְדַּר עֲלֵיהֶן כָּל מִצְוַת דִּבּוּרָם, וְאֵין צָרִיךְ לְאָמְרָן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ כִּדְכְתִיב בְּכֻלְּהוּ, מִשּׁוּם דִּבְהָנֵי כְּתִיב עִכּוּבָא: מִקְרָא בִכּוּרִים - שֶׁהָיָה קוֹרֵא מֵאֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי עַד סוֹף כָּל הַפָּרָשָׁה: וַחֲלִיצַת יְבָמָה - הִיא אוֹמֶרֶת מֵאֵן יְבָמִי וְגוֹ' וְהוּא אוֹמֵר לֹא חָפַצְתִּי לְקַחְתָּהּ, וְאַחַר הַחֲלִיצָה הִיא אוֹמֶרֶת כָּכָה יֵעָשֶׂה לָאִישׁ וְגוֹ'

Rashi explica por que se pode considerar que estas oito cerimônias exigem especificamente o hebraico, e não simplesmente que a mishná anterior não as tenha mencionado: para os textos da lista precedente, a própria escrita bíblica já organiza toda a "mitzvá de sua fala" de tal forma que não se depreende exigência de língua alguma; já para os itens desta segunda lista, a Torá emprega uma formulação que indica um requisito de validade — ou seja, "está escrito neles um impedimento" —, tornando o hebraico condição sem a qual o ato não se cumpre corretamente, e não mera preferência estilística.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 7:2
וְעָנוּ הַלְוִיִּם וְאָמְרוּ אֶל כָּל אִישׁ יִשְׂרָאֵל קוֹל רָם, וְאָמַר מֹשֶׁה יְדַבֵּר וְהָאֱלֹהִים יַעֲנֶנּוּ בְקוֹל, מַה לְּהַלָּן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ אַף כָּאן בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ

Rambam volta a enfatizar a analogia verbal central: assim como a revelação no Sinai — descrita como "Deus lhe responderia com voz" — ocorreu em hebraico, e assim como os levitas "responderam" em voz alta no Har Guerizim também em hebraico, qualquer outra cerimônia cuja fórmula bíblica emprega esse mesmo padrão de "responder e dizer" herda a mesma exigência. Esse raciocínio unifica as bênçãos e maldições, a leitura dos bikurim e — segundo a maioria dos sábios — a chalitzá sob uma única derivação textual comum.

Bartenura · רע״ב
Sotá 7:2
בִּרְכַּת כֹּהֲנִים. נְשִׂיאַת כַּפַּיִם: בִּרְכוֹת כֹּהֵן גָּדוֹל. בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים אַחַר עֲבוֹדַת הַיּוֹם שֶׁלִּפְנַי וְלִפְנִים הוּא קוֹרֵא אֶת הַפָּרָשָׁה בַּתּוֹרָה, וּמְבָרֵךְ שְׁמֹנֶה בְרָכוֹת הַמְּפֹרָשׁוֹת בְּמַתְנִיתִין: וּפָרָשַׁת עֶגְלָה עֲרוּפָה. יָדֵינוּ לֹא שָׁפְכוּ אֶת הַדָּם הַזֶּה, כַּפֵּר לְעַמְּךָ יִשְׂרָאֵל וְגוֹ': פָּרָשַׁת מְשׁוּחַ מִלְחָמָה. וְהָיָה כְּקָרָבְכֶם וְגוֹ' שְׁמַע יִשְׂרָאֵל אַתֶּם קְרֵבִים הַיּוֹם וְגוֹ'

Bartenura completa a identificação das cerimônias restantes: a bênção sacerdotal é o próprio ato de "levantar as mãos"; as bênçãos do Sumo Sacerdote ocorrem em Yom Kipur, após o serviço mais sagrado do ano no Santo dos Santos, quando ele lê a passagem da Torá e recita as oito bênçãos que a mishná detalhará adiante; a porção da novilha decapitada é a declaração "nossas mãos não derramaram este sangue... perdoa a teu povo Israel"; e o discurso do sacerdote ungido para a guerra corresponde à passagem "e será, quando vos aproximardes... ouve, Israel, vós vos aproximais hoje", dirigida ao exército antes do combate — cada uma dessas fórmulas, por empregar o padrão verbal de "responder", exige o hebraico.