Estes são ditos em qualquer língua: a porção da sotá, a confissão do dízimo, a leitura do Shemá, a oração, a bênção após as refeições, o juramento de testemunho e o juramento de depósito. — Iniciando o Perek Zayin, a mishná apresenta uma lista de sete textos e fórmulas rituais cuja eficácia não depende de serem pronunciados em hebraico: bastam ser recitados numa língua que o falante compreenda. A porção da sotá é a advertência que o sacerdote dirige à mulher suspeita antes de fazê-la beber as águas; a confissão do dízimo é a declaração feita ao final de cada ciclo trienal de dízimos, atestando que foram entregues corretamente; a leitura do Shemá e a oração (Amidá) constituem os pilares do serviço diário de rezar; a bênção após as refeições agradece pelo pão que se comeu; e os dois juramentos — de testemunho e de depósito — obrigam quem jura em qualquer idioma que tenha compreendido plenamente o que estava jurando, de modo que negar falsamente gera responsabilidade mesmo que o juramento não tenha sido pronunciado em hebraico.
Cada um dos sete textos desta mishná tem uma base textual própria na Torá, da qual se deriva que a língua exata não é condição de validade — ao contrário dos textos do próximo perek, ditos apenas em hebraico.
O verbo "e dirá" (וְאָמַר) na porção da sotá e o verbo "e dirás" (וְאָמַרְתָּ) na confissão do dízimo não especificam língua alguma, ao contrário de outros textos onde a Torá emprega verbos de "responder" (עניה) atrelados ao hebraico. Da mesma forma, "ouvido a voz do juramento" (וְשָׁמְעָה קוֹל אָלָה) indica apenas que a pessoa compreendeu o que ouviu, seja qual for o idioma — e desse mesmo versículo deriva-se, por analogia verbal, também o juramento de depósito. Rambam e Bartenura detalham a fonte específica para cada um dos sete itens da lista.
Rambam percorre a fonte de cada item da lista; Bartenura acrescenta que, na oração pública, ainda que em qualquer língua, o indivíduo isolado deve preferir o hebraico.
Rambam percorre a base de cada item: a porção da sotá deriva de "e dirá o sacerdote à mulher" — a tradição recebida entende que ele pode dizer em qualquer língua; a confissão do dízimo, de "e dirás perante o Eterno, teu Deus", em qualquer língua que se fale. Quanto à oração, Rambam faz uma ressalva importante que vai além do texto simples da mishná: a permissão de orar em qualquer língua vale para a oração pública, mas o indivíduo que reza sozinho deve tomar cuidado para rezar apenas em hebraico — a leniência da mishná pressupõe a assistência que a oração comunitária recebe, ausente na oração individual.
Bartenura confirma a mesma distinção de Rambam quanto à oração e explica a base da leitura do Shemá: a própria palavra "Shemá" ("ouve") indica que a exigência é compreender o que se ouve, em qualquer língua que a pessoa efetivamente entenda — não há vínculo formal com o hebraico como existe, por exemplo, na recitação dos bikurim, que a próxima mishná tratará. Bartenura nota que os juramentos de testemunho e de depósito seguem a mesma lógica: obrigam em qualquer língua na qual quem jurou tenha efetivamente compreendido o teor do que negava.
Iniciando o Perek Zayin, perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 32a), Rambam e Bartenura.
Rashi explica por que era necessário um versículo específico para permitir a porção da sotá em qualquer língua: sem ele, poder-se-ia argumentar por raciocínio a fortiori que, se a cerimônia mais branda de chalitzá exige hebraico, a sotá, mais severa, exigiria certamente o mesmo — daí a necessidade de uma fonte explícita que libere a leitura da advertência em qualquer idioma que a mulher compreenda. Sobre a confissão do dízimo, Rashi detalha o próprio procedimento por trás da fórmula: no terceiro ano do ciclo, a pessoa retira todos os seus dízimos de casa, entregando o primeiro dízimo ao levita, o dízimo do pobre aos necessitados e o segundo dízimo — se ainda não levado a Jerusalém — declarando então que cumpriu corretamente cada etapa.
Rambam observa que a fonte do juramento de testemunho está no versículo "e ouvir a voz do juramento" — a expressão "ouvir" já indica que o essencial é a compreensão, em qualquer língua que a testemunha efetivamente escute e entenda. E é a partir desse mesmo juramento de testemunho, e não de uma fonte independente, que se aprende a regra do juramento de depósito: como a palavra "pecar" (תֶּחֱטָא) aparece em ambos os contextos na Torá, a analogia verbal permite estender a leniência de um caso ao outro, unificando a halachá dos dois tipos de juramento sob o mesmo princípio.
Iniciando o Perek Zayin, Bartenura resume a cadeia de fontes que justifica cada item: a porção da sotá, do versículo "e dirá à mulher"; a confissão do dízimo, de "e dirás perante o Eterno, teu Deus" — ambos empregando o verbo genérico "dizer" (אמר), sem exigência de língua específica. Bartenura reforça a ressalva sobre a oração: embora a comunidade que reza em conjunto possa fazê-lo em qualquer língua, apoiada pela força coletiva da assembleia, o indivíduo que reza sozinho — sem essa assistência — deve manter-se fiel ao hebraico, marcando uma diferença sutil mas relevante entre oração pública e privada que a mishná, em sua formulação simples, não deixa explícita.