Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Zayin · Mishná 1 de 8

Iniciando o Perek Zayin: o que se recita em qualquer língua

אֵלּוּ נֶאֱמָרִין בְּכָל לָשׁוֹן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Iniciando o Perek Zayin, a mishná deixa para trás o caso individual da sotá e abre uma nova unidade temática: a lista dos textos rituais que a lei permite recitar em qualquer língua, e não apenas em hebraico.

Estes são ditos em qualquer língua: a porção da sotá, a confissão do dízimo, a leitura do Shemá, a oração, a bênção após as refeições, o juramento de testemunho e o juramento de depósito.Iniciando o Perek Zayin, a mishná apresenta uma lista de sete textos e fórmulas rituais cuja eficácia não depende de serem pronunciados em hebraico: bastam ser recitados numa língua que o falante compreenda. A porção da sotá é a advertência que o sacerdote dirige à mulher suspeita antes de fazê-la beber as águas; a confissão do dízimo é a declaração feita ao final de cada ciclo trienal de dízimos, atestando que foram entregues corretamente; a leitura do Shemá e a oração (Amidá) constituem os pilares do serviço diário de rezar; a bênção após as refeições agradece pelo pão que se comeu; e os dois juramentos — de testemunho e de depósito — obrigam quem jura em qualquer idioma que tenha compreendido plenamente o que estava jurando, de modo que negar falsamente gera responsabilidade mesmo que o juramento não tenha sido pronunciado em hebraico.

אֵלּוּ נֶאֱמָרִין בְּכָל לָשׁוֹן, פָּרָשַׁת סוֹטָה, וּוִדּוּי מַעֲשֵׂר, קְרִיאַת שְׁמַע, וּתְפִלָּה, וּבִרְכַּת הַמָּזוֹן, וּשְׁבוּעַת הָעֵדוּת, וּשְׁבוּעַת הַפִּקָּדוֹן:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Cada um dos sete textos desta mishná tem uma base textual própria na Torá, da qual se deriva que a língua exata não é condição de validade — ao contrário dos textos do próximo perek, ditos apenas em hebraico.

Bemidbar (Números) 5:21
וְהִשְׁבִּיעַ הַכֹּהֵן אֶת הָאִשָּׁה בִּשְׁבֻעַת הָאָלָה, וְאָמַר הַכֹּהֵן לָאִשָּׁה, יִתֵּן ה' אוֹתָךְ לְאָלָה וְלִשְׁבֻעָה בְּתוֹךְ עַמֵּךְ...
"E o sacerdote fará jurar a mulher com o juramento de maldição, e o sacerdote dirá à mulher: o Eterno te faça por maldição e por juramento no meio do teu povo..."
Devarim (Deuteronômio) 26:13
וְאָמַרְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ בִּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן הַבַּיִת...
"E dirás perante o Eterno, teu Deus: retirei o consagrado da casa..."
Vaikrá (Levítico) 5:1
וְנֶפֶשׁ כִּי תֶחֱטָא וְשָׁמְעָה קוֹל אָלָה וְהוּא עֵד אוֹ רָאָה אוֹ יָדָע...
"E se alguém pecar, tendo ouvido a voz do juramento, sendo testemunha, quer tenha visto quer soubesse..."

O verbo "e dirá" (וְאָמַר) na porção da sotá e o verbo "e dirás" (וְאָמַרְתָּ) na confissão do dízimo não especificam língua alguma, ao contrário de outros textos onde a Torá emprega verbos de "responder" (עניה) atrelados ao hebraico. Da mesma forma, "ouvido a voz do juramento" (וְשָׁמְעָה קוֹל אָלָה) indica apenas que a pessoa compreendeu o que ouviu, seja qual for o idioma — e desse mesmo versículo deriva-se, por analogia verbal, também o juramento de depósito. Rambam e Bartenura detalham a fonte específica para cada um dos sete itens da lista.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam percorre a fonte de cada item da lista; Bartenura acrescenta que, na oração pública, ainda que em qualquer língua, o indivíduo isolado deve preferir o hebraico.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 7:1
נֶאֱמַר בְּסוֹטָה וְאָמַר הַכֹּהֵן לָאִשָּׁה, וּבָא בַּקַּבָּלָה בְּכָל לָשׁוֹן שֶׁהוּא אוֹמֵר. וְאָמַר בְּוִדּוּי מַעֲשֵׂר, וְאָמַרְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ, בְּכָל לָשׁוֹן שֶׁאַתָּה אוֹמֵר... וּתְפִלָּה יָדוּעַ, וּמִתְפַּלְּלִין בְּנֵי אָדָם בְּכָל לָשׁוֹן, וְאָמְנָם זֶה בְּצִבּוּר, אֲבָל יָחִיד יִזָּהֵר בְּעַצְמוֹ שֶׁלֹּא יִתְפַּלֵּל אֶלָּא בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ

Rambam percorre a base de cada item: a porção da sotá deriva de "e dirá o sacerdote à mulher" — a tradição recebida entende que ele pode dizer em qualquer língua; a confissão do dízimo, de "e dirás perante o Eterno, teu Deus", em qualquer língua que se fale. Quanto à oração, Rambam faz uma ressalva importante que vai além do texto simples da mishná: a permissão de orar em qualquer língua vale para a oração pública, mas o indivíduo que reza sozinho deve tomar cuidado para rezar apenas em hebraico — a leniência da mishná pressupõe a assistência que a oração comunitária recebe, ausente na oração individual.

Bartenura · Sotá 7:1
קְרִיאַת שְׁמַע. דִּכְתִיב שְׁמַע יִשְׂרָאֵל, בְּכָל לָשׁוֹן שֶׁאַתָּה שׁוֹמֵעַ: וּתְפִלָּה. צִבּוּר שֶׁמִּתְפַּלְּלִין, מִתְפַּלְּלִין בְּכָל לָשׁוֹן. אֲבָל יָחִיד אֵינוֹ מִתְפַּלֵּל אֶלָּא בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ

Bartenura confirma a mesma distinção de Rambam quanto à oração e explica a base da leitura do Shemá: a própria palavra "Shemá" ("ouve") indica que a exigência é compreender o que se ouve, em qualquer língua que a pessoa efetivamente entenda — não há vínculo formal com o hebraico como existe, por exemplo, na recitação dos bikurim, que a próxima mishná tratará. Bartenura nota que os juramentos de testemunho e de depósito seguem a mesma lógica: obrigam em qualquer língua na qual quem jurou tenha efetivamente compreendido o teor do que negava.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Iniciando o Perek Zayin, perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 32a), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 32a, sobre a mishná
פָּרָשַׁת סוֹטָה - מַה שֶּׁהַכֹּהֵן אוֹמֵר לָהּ, וְלֹא אָמְרִינַן צָרִיךְ לְאוֹמְרָהּ בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ כְּדֶרֶךְ שֶׁנִּכְתַּב, וּבְסִפְרֵי אָמְרִינַן דְּאִי לֹא כְּתִיב קְרָא לְהַתִּיר בְּכָל לָשׁוֹן כִּדְלְקַמָּן, הֲוָה אָמֵינָא נִגְמַר מִיבָמָה בְּקַל וָחֹמֶר, וּמַה יְבָמָה קַלָּה לֹא עָשָׂה בָהּ כָּל הַלְּשׁוֹנוֹת כִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ, סוֹטָה חֲמוּרָה לֹא כָּל שֶׁכֵּן: וּוִדּוּי מַעֲשֵׂר - בַּשָּׁנָה הַשְּׁלִישִׁית, בִּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן הַבַּיִת, שֶׁהוּא מוֹצִיא כָּל מַעְשְׂרוֹתָיו וּמְבַעֲרָן מִבֵּיתוֹ

Rashi explica por que era necessário um versículo específico para permitir a porção da sotá em qualquer língua: sem ele, poder-se-ia argumentar por raciocínio a fortiori que, se a cerimônia mais branda de chalitzá exige hebraico, a sotá, mais severa, exigiria certamente o mesmo — daí a necessidade de uma fonte explícita que libere a leitura da advertência em qualquer idioma que a mulher compreenda. Sobre a confissão do dízimo, Rashi detalha o próprio procedimento por trás da fórmula: no terceiro ano do ciclo, a pessoa retira todos os seus dízimos de casa, entregando o primeiro dízimo ao levita, o dízimo do pobre aos necessitados e o segundo dízimo — se ainda não levado a Jerusalém — declarando então que cumpriu corretamente cada etapa.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 7:1
אֵלּוּ נֶאֱמָרִין בְּכָל לָשׁוֹן פָּרָשַׁת סוֹטָה כוּ׳. נֶאֱמַר בְּסוֹטָה וְאָמַר הַכֹּהֵן לָאִשָּׁה, וּבָא בַּקַּבָּלָה בְּכָל לָשׁוֹן שֶׁהוּא אוֹמֵר... וְשִׁבוּעַת הָעֵדוּת נֶאֱמַר בָּהּ וְשָׁמְעָה קוֹל אָלָה בְּכָל לָשׁוֹן שֶׁשּׁוֹמַעַת, וְלָמַדְנוּ מִשְּׁבוּעַת הָעֵדוּת שְׁבוּעַת הַפִּקָּדוֹן, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר בְּכָל אַחַת מֵהֶן תֶּחֱטָא

Rambam observa que a fonte do juramento de testemunho está no versículo "e ouvir a voz do juramento" — a expressão "ouvir" já indica que o essencial é a compreensão, em qualquer língua que a testemunha efetivamente escute e entenda. E é a partir desse mesmo juramento de testemunho, e não de uma fonte independente, que se aprende a regra do juramento de depósito: como a palavra "pecar" (תֶּחֱטָא) aparece em ambos os contextos na Torá, a analogia verbal permite estender a leniência de um caso ao outro, unificando a halachá dos dois tipos de juramento sob o mesmo princípio.

Bartenura · רע״ב
Sotá 7:1
אֵלּוּ נֶאֱמָרִין. פָּרָשַׁת סוֹטָה, דִּכְתִיב וְאָמַר אֶל הָאִשָּׁה, בְּכָל לָשׁוֹן שֶׁהוּא אוֹמֵר: וּוִדּוּי מַעֲשֵׂר. בִּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן הַבַּיִת כוּ', אוֹמֵר בְּכָל לָשׁוֹן שֶׁיִּרְצֶה, דִּכְתִיב וְאָמַרְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ, בְּכָל לָשׁוֹן שֶׁאַתָּה אוֹמֵר: וּתְפִלָּה. צִבּוּר שֶׁמִּתְפַּלְּלִין, מִתְפַּלְּלִין בְּכָל לָשׁוֹן. אֲבָל יָחִיד אֵינוֹ מִתְפַּלֵּל אֶלָּא בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ

Iniciando o Perek Zayin, Bartenura resume a cadeia de fontes que justifica cada item: a porção da sotá, do versículo "e dirá à mulher"; a confissão do dízimo, de "e dirás perante o Eterno, teu Deus" — ambos empregando o verbo genérico "dizer" (אמר), sem exigência de língua específica. Bartenura reforça a ressalva sobre a oração: embora a comunidade que reza em conjunto possa fazê-lo em qualquer língua, apoiada pela força coletiva da assembleia, o indivíduo que reza sozinho — sem essa assistência — deve manter-se fiel ao hebraico, marcando uma diferença sutil mas relevante entre oração pública e privada que a mishná, em sua formulação simples, não deixa explícita.