Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Vav · Mishná 1 de 4

Abrindo o Perek Vav: a reclusão e a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua

מִי שֶׁקִּנֵּא לְאִשְׁתּוֹ וְנִסְתְּרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Vav, o caso do marido que advertiu sua esposa e ela, apesar disso, se recluiu com o homem apontado — sem que haja ainda testemunhas de que ela de fato se contaminou. Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua discordam sobre quanto boato basta para obrigá-lo a divorciá-la.

Aquele que advertiu sua esposa e ela se recluiu — mesmo que ele tenha ouvido apenas da ave que voa, deve divorciá-la e pagar-lhe a ketubá, palavras de Rabi Eliezer. Rabi Yehoshua diz: até que as fiandeiras comentem sobre ela ao luar.A mishná retoma o fio da massechet depois do longo desvio das quatro derashot ditas "naquele dia" que encerraram o Perek Hei, voltando ao procedimento central da sotá: depois que o marido advertiu formalmente sua esposa a não se recluir com determinado homem, e ela mesmo assim se recluiu com ele, ela se torna proibida para o marido — mas ele ainda não pode aplicá-la às águas amargas, pois a bebida das águas exige a confirmação da própria reclusão por duas testemunhas, e ninguém viu se algo de fato aconteceu durante ela. Rabi Eliezer sustenta sua posição, já expressa no Perek Alef, de que a reclusão em si não exige testemunhas formais para ser estabelecida — mesmo um boato vago e informal, comparado à "ave que voa" (uma expressão idiomática para um rumor sem fonte identificável, quase como se tivesse vindo do nada), basta para que o marido saiba da reclusão e, por precaução, seja obrigado a se separar dela, divorciando-a e pagando integralmente sua ketubá, já que não há evidência formal de traição que a desqualificaria desse pagamento. Rabi Yehoshua, que exige dois depoimentos concordantes para validar juridicamente a bebida das águas, aplica um padrão de prova mais rigoroso também aqui: só quando o caso se tornar de conhecimento público, a ponto de ser tema de conversa entre as fiandeiras que trabalham à luz da lua — um cenário de exposição social extrema e vergonhosa —, é que o marido fica obrigado a agir, pois nesse ponto, mesmo que as águas já não sirvam mais para testá-la (já que o caso se tornou público demais para o ritual discreto da sotá), a desonra pública torna insustentável a continuidade do casamento.

מִי שֶׁקִּנֵּא לְאִשְׁתּוֹ וְנִסְתְּרָה, אֲפִלּוּ שָׁמַע מֵעוֹף הַפּוֹרֵחַ, יוֹצִיא וְיִתֵּן כְּתֻבָּה, דִּבְרֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר, עַד שֶׁיִּשְׂאוּ וְיִתְּנוּ בָהּ מוֹזְרוֹת בַּלְּבָנָה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua nesta mishná decorre de posições já fixadas por ambos no Perek Alef, sobre o grau de prova exigido para estabelecer a reclusão.

Bemidbar (Números) 5:13
וְשָׁכַב אִישׁ אֹתָהּ שִׁכְבַת זֶרַע וְנֶעְלַם מֵעֵינֵי אִישָׁהּ וְנִסְתְּרָה וְהִיא נִטְמָאָה, וְעֵד אֵין בָּהּ וְהִוא לֹא נִתְפָּשָׂה׃
"E um homem se deitar com ela em coito, e isso for oculto aos olhos de seu marido, e ela se tiver recluído e se contaminado, e não houver testemunha contra ela, nem ela tiver sido surpreendida."

A Torá distingue expressamente entre a "reclusão" (הִסָּתְרוּת) e a "contaminação" (טֻמְאָה): a primeira é a condição que basta para tornar a esposa proibida ao marido e sujeita ao procedimento da sotá; a segunda, caso comprovada por testemunha, elimina de vez a possibilidade do teste das águas, pois a mulher já estaria irremediavelmente proibida. Esta mishná abre o Perek Vav voltando exatamente à primeira etapa — a reclusão — e perguntando quanto boato ou rumor basta para que ela seja considerada estabelecida aos olhos do marido, retomando a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua já apresentada no Perek Alef sobre o padrão de prova exigido para a própria reclusão, em contraste com o padrão de duas testemunhas exigido para a bebida das águas.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam resume a halachá decidida a favor de Rabi Yehoshua; Bartenura detalha a lógica de cada posição, ligando-as às posições já conhecidas desses dois sábios sobre o número de testemunhas exigido.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 6:1
אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וַאֲפִלּוּ שֶׁיֵּשׁ לוֹ רְאָיָה מִצִּפְצוּף הָעוֹף שֶׁהִיא נִבְעֲלָה אֵינוֹ מֻתָּר לוֹ לְהַשְׁקוֹתָהּ וְלֹא לְהִשָּׁאֵר עִמָּהּ אֲבָל הוּא נִפְטָר שֶׁיּוֹצִיא וְיִתֵּן כְּתֻבָּה, וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר עַד שֶׁיִּשְׁמַע הַטּוֹוֹת לַלְּבָנָה וְהוּא בְּתַכְלִית הַפִּרְסוּם... וְהַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ

Rambam esclarece o alcance da posição de Rabi Eliezer: mesmo que o marido tenha apenas o equivalente a uma "prova do canto do pássaro" — ou seja, um sinal indireto e quase intangível — de que sua esposa se envolveu com outro homem, ele não pode dar-lhe de beber as águas nem permanecer casado com ela, mas fica isento apenas na medida em que deve divorciá-la, pagando-lhe a ketubá integralmente. Rambam registra que a halachá segue Rabi Yehoshua, que exige que o assunto se torne de conhecimento extremamente público antes de o marido ser obrigado a agir.

Bartenura · Sotá 6:1
יוֹצִיא וְיִתֵּן כְּתֻבָּה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר לְטַעֲמֵיהּ דְּאָמַר בְּפֶרֶק קַמָּא סְתִירָה לֹא בַּעְיָא עֵדוּת... רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר עַד שֶׁיִּשְׂאוּ וְיִתְּנוּ בָהּ מוֹזְרוֹת בַּלְּבָנָה. נָשִׁים הַטֹּווֹת לְאוֹר הַלְּבָנָה. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ לְטַעְמֵיהּ דְּאָמַר מַשְׁקֶה עַל פִּי שְׁנַיִם... וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ

Bartenura conecta cada posição desta mishná a um princípio já estabelecido pelo mesmo sábio no Perek Alef: Rabi Eliezer, que ali ensinou que a reclusão em si não exige testemunhas formais, aplica aqui a mesma lógica — mesmo um boato tênue como "a ave que voa" basta, pois se equipara à condição de reclusão comprovada, tornando a esposa proibida. Rabi Yehoshua, que ali exigiu que a bebida das águas fosse validada por dois depoimentos, aplica aqui um padrão de exposição pública tão extremo que a expressão vira quase um idiomatismo: as mulheres que fiam lã à luz da lua — trabalho noturno, sinal de conversas informais e disseminadas — precisam já estar comentando o caso. Bartenura fecha registrando que a halachá segue Rabi Yehoshua.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Abrindo o Perek Vav, perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 31a), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 31a, sobre a mishná
מִי שֶׁקִּנֵּא לָהּ וְנִסְתְּרָה - אִם לְאַחַר שֶׁקִּנֵּא לָהּ נִסְתְּרָה: אֲפִילוּ שָׁמַע מֵעוֹף הַפּוֹרֵחַ - שֶׁנִּסְתְּרָה יוֹצִיא וְיִתֵּן כְּתוּבָּה, וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר לְטַעְמֵיהּ דְּאָמַר בְּפֶרֶק קַמָּא סְתִירָה לֹא בָּעְיָא עֵדוּת, וַאֲפִילּוּ עֶבֶד וַאֲפִילּוּ שִׁפְחָה נֶאֱמָנִין, דְּהַיְינוּ נַמִּי כְּעוֹף הַפּוֹרֵחַ, דְּאִיתַּקַּשׁ טְמִיאָה לְסְתִירָה דְּכֻלְּהוּ מְהֵימְנֵי בָהּ, הִלְכָּךְ נֶאֶסְרָה עָלָיו: רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר עַד שֶׁיִּשְׂאוּ וְיִתְּנוּ בָּהּ מוֹזְרוֹת בַּלְּבָנָה - כְּלוֹמַר מִשּׁוּם סְתִירָה שֶׁאֵין בָּהּ שְׁנֵי עֵדִים אֵינָהּ נֶאֱסֶרֶת עָלָיו, וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ לְטַעְמֵיהּ דְּאָמַר מַשְׁקֶה עַל פִּי שְׁנַיִם, מִיהוּ כְּשֶׁיִּשְׂאוּ וְיִתְּנוּ מוֹזְרוֹת בַּלְּבָנָה בְּפְרִיצוּתָהּ מְכֹעָר הַדָּבָר וְתֵצֵא, דְּהָא אֲפִילּוּ מַיָּא תּוּ לֹא בָּדְקֵי לָהּ

Rashi vincula cada posição da mishná a fundamentos já expostos no Perek Alef: Rabi Eliezer sustentou ali que a reclusão não exige testemunhas formais para ser estabelecida — mesmo um escravo ou uma escrava, normalmente desqualificados para testemunho, são aceitos para atestá-la — porque a reclusão fica equiparada à própria contaminação quanto ao grau de prova exigido, e por isso qualquer boato, por mais informal, já basta para proibir a esposa a seu marido. Rabi Yehoshua, que exige dois depoimentos formais para autorizar a bebida das águas, entende que uma reclusão baseada em boato fraco não chega a proibi-la de fato — mas quando o escândalo se torna público a ponto de ser tema das fiandeiras noturnas, a situação já é tão vergonhosa que nem mesmo as águas amargas mais servem para testá-la, pois o ritual pressupõe um caso ainda discreto e não decidido pela opinião pública.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 6:1
מִי שֶׁקִּנֵּא לְאִשְׁתּוֹ וְנִסְתְּרָה אֲפִילּוּ שָׁמַע מֵעוֹף כוּ׳. אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וַאֲפִילּוּ שֶׁיֵּשׁ לוֹ רְאָיָה מִצִּפְצוּף הָעוֹף שֶׁהִיא נִבְעֲלָה אֵינוֹ מֻתָּר לוֹ לְהַשְׁקוֹתָהּ וְלֹא לְהִשָּׁאֵר עִמָּהּ אֲבָל הוּא נִפְטָר שֶׁיּוֹצִיא וְיִתֵּן כְּתוּבָּה, וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר עַד שֶׁיִּשְׁמַע הַטּוֹוֹת לַלְּבָנָה וְהוּא בְּתַכְלִית הַפִּרְסוּם וְהָעֵסֶק בַּדָּבָר בְּנֵי אָדָם עַד שֶׁיְּדַבְּרוּ בִּדְבָרֵיהֶן וְיֹאמַר פְּלוֹנִית שֶׁקִּנֵּא לָהּ עִם פְּלוֹנִי וְנִסְתְּרָה עִמּוֹ כְּבָר זָנְתָה עִמָּהּ אָז יוֹצִיא וְיִתֵּן כְּתוּבָּה, וְהַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ

Rambam esclarece o significado prático da expressão "ouviu da ave que voa": Rabi Eliezer considera que basta ao marido um indício mínimo, comparável a um sinal captado no canto de um pássaro — algo quase impossível de rastrear ou verificar formalmente —, para que ele já esteja proibido de manter relação com sua esposa, embora ainda não possa submetê-la ao teste das águas, sendo obrigado apenas a divorciá-la com a ketubá completa. Já para Rabi Yehoshua, o caso precisa alcançar tal nível de notoriedade que as próprias mulheres que fiam à luz da lua estejam comentando nominalmente o caso — dizendo explicitamente que fulana, advertida por seu marido quanto a fulano, recluiu-se com ele e já cometeu adultério — só então o marido é obrigado a agir. Rambam conclui que a halachá segue Rabi Yehoshua.

Bartenura · רע״ב
Sotá 6:1
מִי שֶׁקִּנֵּא לְאִשְׁתּוֹ וְנִסְתָּרָה אֲפִלּוּ שָׁמַע מֵעוֹף הַפּוֹרֵחַ. שֶׁנִּסְתְּרָה: יוֹצִיא וְיִתֵּן כְּתֻבָּה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר לְטַעֲמֵיהּ דְּאָמַר בְּפֶרֶק קַמָּא סְתִירָה לֹא בַּעְיָא עֵדוּת, וַאֲפִלּוּ עֶבֶד וַאֲפִלּוּ שִׁפְחָה נֶאֱמָנִים... רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר עַד שֶׁיִּשְׂאוּ וְיִתְּנוּ בָהּ מוֹזְרוֹת בַּלְּבָנָה. נָשִׁים הַטֹּווֹת לְאוֹר הַלְּבָנָה. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ לְטַעְמֵיהּ דְּאָמַר מַשְׁקֶה עַל פִּי שְׁנַיִם. מִיהוּ מִשֶּׁיִּשְּׂאוּ וְיִתְּנוּ בָּהּ מוֹזְרוֹת בַּלְּבָנָה בִּפְרִיצוּתָהּ מְכֹעָר הַדָּבָר וְתֵצֵא... וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ

Abrindo o Perek Vav, Bartenura conecta a disputa desta mishná a posições já conhecidas de ambos os sábios: Rabi Eliezer, fiel à sua visão de que a reclusão dispensa testemunhas formais — aceitando até escravos e escravas como fonte válida —, trata o menor boato como suficiente. Rabi Yehoshua, que só permite a bebida das águas com base em dois depoimentos concordantes, exige aqui que o caso se torne assunto das fiandeiras que trabalham à luz da lua — imagem de fofoca noturna generalizada — antes de considerar o marido obrigado a agir; e mesmo nesse ponto extremo, nota Bartenura, a publicidade do escândalo já torna as águas amargas inúteis como teste, pois seu propósito discreto foi ultrapassado pela vergonha pública. Bartenura fecha confirmando que a halachá segue Rabi Yehoshua.