Naquele dia, expôs Rabi Yehoshua ben Hurcanos: não serviu Iyov ao Santo, bendito seja, senão por amor, como está dito: "eis que Ele me matará, nEle esperarei". Mas ainda a coisa está em equilíbrio: Nele espero, ou não espero? Ensina o versículo: "até que eu expire, não afastarei de mim minha integridade" — ensina que foi por amor que agiu. Disse Rabi Yehoshua: quem tirará o pó de teus olhos, Rabán Yochanan ben Zakai, que costumavas expor todos os teus dias que não serviu Iyov ao Onipresente senão por temor, como está dito: "homem íntegro e reto, temente a D'us e que se afasta do mal"? E acaso Yehoshua, discípulo de teu discípulo, não ensinou que foi por amor que agiu? — A derasha central deste episódio parte de uma ambiguidade textual real no livro de Iyov: a palavra "לו" pode ser lida, conforme sua grafia consonantal, tanto como "não" (com álef) quanto como "a ele" (com vav) — e o versículo "הן יקטלני לו אייחל" poderia significar tanto "eis que Ele me matará, e mesmo assim esperarei nEle" quanto "eis que Ele me matará, e por isso não mais esperarei nEle", um desabafo de desespero. Rabi Yehoshua ben Hurcanos resolve a ambiguidade recorrendo a outro versículo posterior, em que Iyov declara que jamais abandonará sua integridade até seu último suspiro — provando que, apesar do sofrimento extremo, sua devoção permanecia intacta, e portanto a leitura correta do primeiro versículo é a da esperança contínua, sinal de que seu serviço era motivado por amor genuíno, e não apenas por medo do castigo. Rabi Yehoshua então expressa comovida gratidão e leve ironia diante de seu próprio mestre, Rabán Yochanan ben Zakai, que ensinava o oposto — que Iyov temia a D'us, mas não necessariamente o amava —, citando como prova o versículo de abertura do livro que descreve Iyov como "temente a D'us". A ironia do momento é que quem trouxe a prova decisiva em sentido contrário não foi um estranho, mas Rabi Akiva — chamado aqui "Yehoshua, discípulo de teu discípulo" por um lapso ou tradição textual variante — descendente espiritual direto do próprio Rabán Yochanan ben Zakai, mostrando como o ensino se aprofunda e às vezes se corrige de geração em geração dentro da mesma cadeia de transmissão.
Três versículos do livro de Iyov, incluindo a leitura kri/ktiv que sustenta toda a disputa entre "por amor" e "por temor".
Rambam explica que a ambiguidade da palavra "לא/לו" em Iyov 13:15 é um fenômeno gramatical reconhecido: a letra álef, foneticamente próxima do vav em certas construções, permite que a mesma sequência de sons seja lida como negação ("não") ou como pronome ("a ele/nEle"). Rabi Yehoshua ben Hurcanos resolve a ambiguidade recorrendo ao versículo posterior, que declara categoricamente que Iyov jamais abandonaria sua integridade — prova de que sua esperança em D'us, mesmo diante da morte, permanecia intacta, o que só é compatível com a leitura "nEle esperarei", sinal de amor e não de resignação amargurada.
Rambam explica por que Rabi Yehoshua trata seu antecessor com uma deferência distinta da usada para Rabi Akiva; Bartenura define os termos centrais "por amor" e "por temor" no serviço a D'us.
Rambam esclarece um detalhe genealógico que explica a expressão "discípulo de teu discípulo": Rabi Akiva foi discípulo de Rabi Eliezer ben Hurcanos, que por sua vez foi discípulo de Rabán Yochanan ben Zakai — por isso, tecnicamente, Rabi Akiva seria "discípulo do discípulo" de Rabán Yochanan ben Zakai. Rambam observa que, por respeito à grandeza de Rabi Akiva, o texto o identifica com precisão nessa cadeia geracional exata, sem simplificar a relação, embora em outros contextos a mishná às vezes use expressões mais soltas para essas ligações de mestre e discípulo.
Bartenura define os dois polos da disputa em termos claros: servir "por amor" significa agir a partir do próprio amor a D'us, independentemente de recompensa ou punição; servir "por temor" significa agir motivado pela preocupação com o castigo que poderia sobrevir caso a pessoa se desviasse. Bartenura nota que o versículo de abertura do livro de Iyov o descreve apenas como "temente a D'us" — sem mencionar explicitamente o amor —, e é exatamente esse silêncio textual que Rabán Yochanan ben Zakai tomava como prova de que o temor, e não o amor, era a motivação central de Iyov.
Encerrando o Perek Hei, perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 27b), Rambam e Bartenura.
Rashi explica o jogo de leitura que sustenta toda a disputa: a expressão "לו אייחל" pode significar tanto "esperarei nEle" (esperança contínua) quanto, lendo "לא" no lugar de "לו", "não mais esperarei" (desespero) — pois em hebraico bíblico a palavra escrita com álef às vezes é lida com o sentido daquela escrita com vav, e vice-versa, fenômeno detalhado na Guemará. Rashi também esclarece a genealogia final da mishná: quem trouxe a prova decisiva contrária ao ensino original de Rabán Yochanan ben Zakai foi discípulo de Rabi Akiva — ou seja, um "neto" espiritual do próprio Rabán Yochanan ben Zakai, fechando o círculo de transmissão dentro da mesma linhagem de mestres.
Rambam confirma o mecanismo linguístico central: a distinção entre a grafia com álef (que normalmente indica negação) e a grafia com vav (que normalmente indica o pronome "a ele") nem sempre é estável no texto bíblico, e por vezes uma serve pelo sentido da outra — daí a necessidade de um segundo versículo para desfazer a ambiguidade. Rambam reafirma que o mérito de Rabi Akiva, por trazer a prova decisiva, justifica a menção detalhada de sua posição exata na cadeia de transmissão, "discípulo do discípulo" de Rabán Yochanan ben Zakai.
Encerrando o Perek Hei, Bartenura resume o princípio gramatical que resolve toda a disputa: existem palavras na Bíblia escritas com vav cujo sentido real equivale ao de uma escrita com álef, e vice-versa — daí a ambiguidade real de "לו אייחל", que pode ser lida tanto como esperança ("nEle esperarei") quanto como resignação ("não mais esperarei"). Bartenura fecha o perek confirmando a leitura final aceita pela mishná: Iyov servia por amor, não apenas por temor — um encerramento que eleva o tom do capítulo, do detalhe técnico das leis rituais da sotá e das cidades levíticas para a pergunta mais profunda sobre a motivação última do serviço a D'us.