Naquele dia, expôs Rabi Akiva: "então cantou Moshé e os filhos de Israel este cântico ao Eterno, e disseram, dizendo" — não havia necessidade de dizer "dizendo"; então por que se diz "dizendo"? Ensina que Israel respondia depois de Moshé a cada coisa e coisa, como quem lê o Hallel. Rabi Nechemia diz: como quem lê o Shemá, e não como quem lê o Hallel. — O versículo de abertura do Cântico do Mar contém uma palavra aparentemente redundante: "e disseram, dizendo" — pois bastaria dizer que cantaram, sem precisar acrescentar "dizendo" a um verbo que já significa fala. Rabi Akiva lê essa palavra excedente como instrução sobre a própria forma litúrgica do cântico: Moshé não cantava sozinho enquanto o povo apenas ouvia; em vez disso, o povo repetia cada verso depois dele, frase por frase, exatamente como se faz na leitura do Hallel, em que a congregação responde ao leitor repetindo cada expressão que ele pronuncia. Rabi Nechemia concorda que havia uma resposta ativa do povo, mas discorda quanto ao modelo: para ele, a forma de recitação do Cântico do Mar era mais parecida com a leitura do Shemá, em que o ouvinte acompanha em silêncio ou sussurro junto ao leitor, sem repetir cada frase em voz alta e separada como no Hallel — uma distinção sutil sobre o grau de participação vocal ativa do povo naquele momento histórico.
O versículo de abertura do Cântico do Mar, cuja expressão dupla "e disseram, dizendo" sustenta toda a derasha.
Rashi observa que a palavra "לֵאמֹר" ("dizendo") normalmente serve, em toda a Torá, para indicar que quem recebeu uma fala deve repeti-la a terceiros — como quando D'us fala a Moshé "לֵאמֹר" para que ele a transmita a Israel. Mas aqui, no Cântico do Mar, essa lógica não se aplica: não há um terceiro a quem o cântico precisaria ser retransmitido. Por isso, Rabi Akiva entende que a palavra tem aqui outra função — não retransmissão a um público externo, mas instrução sobre como o próprio povo respondia junto a Moshé no momento do canto.
Rambam esclarece a base da leitura de Rabi Nechemia, e Bartenura confirma que apenas as frases de abertura eram repetidas, como nos "capítulos" do Hallel.
Rambam esclarece a base textual de Rabi Nechemia: para ele, a própria palavra "וַיֹּאמְרוּ" ("e disseram", no plural) já prova que todo o povo cantava o cântico inteiro junto com Moshé, palavra por palavra — não apenas frases isoladas de resposta —, e o papel de Moshé era apenas iniciar cada trecho, como faz o oficiante na leitura do Shemá, que começa em voz alta e a congregação o acompanha por inteiro. Rabi Akiva, em contraste, entende que o povo respondia apenas com frases curtas de abertura de cada estrofe, como se faz na leitura do Hallel.
Bartenura explica por que a palavra "dizendo" é excedente neste versículo específico: em todo o restante da Torá, essa expressão indica que a fala recebida deve ser transmitida a um terceiro — como D'us dizendo a Moshé "dizendo" para que ele repita a Israel —, mas no Cântico do Mar não há terceiro algum a quem retransmitir; logo, a palavra deve ensinar outra coisa, a saber, o modo de participação do povo. Bartenura confirma a posição de Rabi Akiva: a congregação respondia apenas com as frases de abertura de cada seção, tal como se responde nos "perakim" do Hallel, e não o texto completo verso a verso.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 27b), Rambam e Bartenura.
Rashi confirma que a chave da derasha está em reconhecer que a palavra "dizendo" só se justifica, em toda a Torá, quando existe alguém que deve repetir a mensagem recebida a um terceiro — como Moshé, que ouve de D'us "dizendo" precisamente para depois transmitir a fala a Israel. Como o Cântico do Mar não tem estrutura de retransmissão — Moshé e o povo cantam diretamente ao Eterno, sem intermediário —, a palavra excedente deve ensinar algo sobre a forma da própria recitação coletiva, deixando à Guemará os detalhes técnicos que diferenciam o modelo do Hallel do modelo do Shemá.
Rambam contrasta, lado a lado, os dois modelos de recitação coletiva conhecidos na liturgia: no modelo do Shemá, o oficiante inicia cada trecho e a congregação o acompanha integralmente, palavra por palavra, num único fluxo contínuo; no modelo do Hallel, o oficiante lê o texto completo e a congregação responde apenas com frases curtas fixas em pontos específicos. Rabi Nechemia enquadra o Cântico do Mar no primeiro modelo — o povo inteiro cantando cada palavra junto com Moshé —, enquanto Rabi Akiva o enquadra no segundo — apenas frases de resposta pontuais.
Bartenura reafirma a leitura de Rabi Akiva como a posição central da mishná: a palavra "dizendo" é excedente porque, ao contrário de toda outra ocorrência na Torá, aqui não há retransmissão a terceiros — e por isso ela vem ensinar que Israel participava ativamente do cântico, respondendo com as frases de abertura de cada seção, exatamente como a congregação responde nos capítulos do Hallel, sem repetir o texto completo verso a verso como no modelo alternativo proposto por Rabi Nechemia.