Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Hei · Mishná 4 de 5

Naquele dia: como Israel respondeu ao Cântico do Mar

אָז יָשִׁיר מֹשֶׁה וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת הַשִּׁירָה הַזֹּאת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Terceira das quatro derashot ditas "naquele dia" em Yavneh — desta vez sobre como, exatamente, o povo de Israel entoou o Cântico do Mar junto com Moshé.

Naquele dia, expôs Rabi Akiva: "então cantou Moshé e os filhos de Israel este cântico ao Eterno, e disseram, dizendo" — não havia necessidade de dizer "dizendo"; então por que se diz "dizendo"? Ensina que Israel respondia depois de Moshé a cada coisa e coisa, como quem lê o Hallel. Rabi Nechemia diz: como quem lê o Shemá, e não como quem lê o Hallel.O versículo de abertura do Cântico do Mar contém uma palavra aparentemente redundante: "e disseram, dizendo" — pois bastaria dizer que cantaram, sem precisar acrescentar "dizendo" a um verbo que já significa fala. Rabi Akiva lê essa palavra excedente como instrução sobre a própria forma litúrgica do cântico: Moshé não cantava sozinho enquanto o povo apenas ouvia; em vez disso, o povo repetia cada verso depois dele, frase por frase, exatamente como se faz na leitura do Hallel, em que a congregação responde ao leitor repetindo cada expressão que ele pronuncia. Rabi Nechemia concorda que havia uma resposta ativa do povo, mas discorda quanto ao modelo: para ele, a forma de recitação do Cântico do Mar era mais parecida com a leitura do Shemá, em que o ouvinte acompanha em silêncio ou sussurro junto ao leitor, sem repetir cada frase em voz alta e separada como no Hallel — uma distinção sutil sobre o grau de participação vocal ativa do povo naquele momento histórico.

בּוֹ בַיּוֹם דָּרַשׁ רַבִּי עֲקִיבָא, אָז יָשִׁיר משֶׁה וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת הַשִּׁירָה הַזֹּאת לַה' וַיֹּאמְרוּ לֵאמֹר, שֶׁאֵין תַּלְמוּד לוֹמַר לֵאמֹר, וּמַה תַּלְמוּד לוֹמַר לֵאמֹר, מְלַמֵּד שֶׁהָיוּ יִשְׂרָאֵל עוֹנִין אַחֲרָיו שֶׁל משֶׁה עַל כָּל דָּבָר וְדָבָר, כְּקוֹרִין אֶת הַהַלֵּל, לְכָךְ נֶאֱמַר לֵאמֹר. רַבִּי נְחֶמְיָה אוֹמֵר, כְּקוֹרִין אֶת שְׁמַע וְלֹא כְקוֹרִין אֶת הַהַלֵּל:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

O versículo de abertura do Cântico do Mar, cuja expressão dupla "e disseram, dizendo" sustenta toda a derasha.

Shemot (Êxodo) 15:1
אָז יָשִׁיר מֹשֶׁה וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת הַשִּׁירָה הַזֹּאת לַיהֹוָה וַיֹּאמְרוּ לֵאמֹר, אָשִׁירָה לַיהֹוָה כִּי גָאֹה גָּאָה, סוּס וְרֹכְבוֹ רָמָה בַיָּם׃
"Então cantou Moshé e os filhos de Israel este cântico ao Eterno, e disseram, dizendo: cantarei ao Eterno, pois se elevou grandiosamente, o cavalo e seu cavaleiro lançou no mar."

Rashi observa que a palavra "לֵאמֹר" ("dizendo") normalmente serve, em toda a Torá, para indicar que quem recebeu uma fala deve repeti-la a terceiros — como quando D'us fala a Moshé "לֵאמֹר" para que ele a transmita a Israel. Mas aqui, no Cântico do Mar, essa lógica não se aplica: não há um terceiro a quem o cântico precisaria ser retransmitido. Por isso, Rabi Akiva entende que a palavra tem aqui outra função — não retransmissão a um público externo, mas instrução sobre como o próprio povo respondia junto a Moshé no momento do canto.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam esclarece a base da leitura de Rabi Nechemia, e Bartenura confirma que apenas as frases de abertura eram repetidas, como nos "capítulos" do Hallel.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 5:4
רַבִּי נְחֶמְיָה אוֹמֵר כִּי מַה שֶּׁאָמַר וַיֹּאמְרוּ רְאָיָה שֶׁכֻּלָּם הָיוּ אוֹמְרִים בְּיַחַד הַשִּׁירָה, אֶלָּא שֶׁמּשֶׁה הָיָה מַתְחִיל בַּדִּבּוּר תְּחִלָּה לְבַד, כְּמוֹ שֶׁעוֹשֶׂה שְׁלִיחַ צִבּוּר בִּקְרִיאַת שְׁמַע. וְרַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר רָאשֵׁי פְרָקִים בִּלְבַד הָיוּ אוֹמְרִים אַחֲרָיו, כְּמוֹ שֶׁעוֹשִׂין בִּקְרִיאַת הַהַלֵּל

Rambam esclarece a base textual de Rabi Nechemia: para ele, a própria palavra "וַיֹּאמְרוּ" ("e disseram", no plural) já prova que todo o povo cantava o cântico inteiro junto com Moshé, palavra por palavra — não apenas frases isoladas de resposta —, e o papel de Moshé era apenas iniciar cada trecho, como faz o oficiante na leitura do Shemá, que começa em voz alta e a congregação o acompanha por inteiro. Rabi Akiva, em contraste, entende que o povo respondia apenas com frases curtas de abertura de cada estrofe, como se faz na leitura do Hallel.

Bartenura · Sotá 5:4
שֶׁאֵין תַּלְמוּד לוֹמַר לֵאמֹר. שֶׁאֵין דּוֹמֶה לִשְׁאָר לֵאמֹר שֶׁבַּתּוֹרָה, שֶׁהַשְּׁכִינָה מְדַבֶּרֶת לְמֹשֶׁה לֵאמֹר הַדִּבּוּר לְיִשְׂרָאֵל, אֲבָל כָּאן אֵין לוֹמַר כֵּן: כְּקוֹרִין אֶת הַהַלֵּל. רָאשֵׁי פְרָקִים בִּלְבַד הָיוּ עוֹנִים אַחֲרָיו

Bartenura explica por que a palavra "dizendo" é excedente neste versículo específico: em todo o restante da Torá, essa expressão indica que a fala recebida deve ser transmitida a um terceiro — como D'us dizendo a Moshé "dizendo" para que ele repita a Israel —, mas no Cântico do Mar não há terceiro algum a quem retransmitir; logo, a palavra deve ensinar outra coisa, a saber, o modo de participação do povo. Bartenura confirma a posição de Rabi Akiva: a congregação respondia apenas com as frases de abertura de cada seção, tal como se responde nos "perakim" do Hallel, e não o texto completo verso a verso.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 27b), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 27b, sobre a mishná
שֶׁאֵין תַּלְמוּד לוֹמַר לֵאמֹר - שֶׁאֵינוֹ דּוֹמֶה לִשְׁאָר לֵאמֹר שֶׁבַּתּוֹרָה, שֶׁהַשְּׁכִינָה מְדַבֶּרֶת הַדִּבּוּר לְמֹשֶׁה לַחֲזוֹר הוּא וּלְאָמְרוֹ לְיִשְׂרָאֵל, אֲבָל כָּאן אֵין לוֹמַר כֵּן: כְּקוֹרִין אֶת הַהַלֵּל - בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ: כְּקוֹרִין אֶת שְׁמַע - בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ

Rashi confirma que a chave da derasha está em reconhecer que a palavra "dizendo" só se justifica, em toda a Torá, quando existe alguém que deve repetir a mensagem recebida a um terceiro — como Moshé, que ouve de D'us "dizendo" precisamente para depois transmitir a fala a Israel. Como o Cântico do Mar não tem estrutura de retransmissão — Moshé e o povo cantam diretamente ao Eterno, sem intermediário —, a palavra excedente deve ensinar algo sobre a forma da própria recitação coletiva, deixando à Guemará os detalhes técnicos que diferenciam o modelo do Hallel do modelo do Shemá.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 5:4
רַבִּי נְחֶמְיָה אוֹמֵר כִּי מַה שֶּׁאָמַר וַיֹּאמְרוּ רְאָיָה שֶׁכֻּלָּם הָיוּ אוֹמְרִים בְּיַחַד הַשִּׁירָה, אֶלָּא שֶׁמּשֶׁה הָיָה מַתְחִיל בַּדִּבּוּר תְּחִלָּה לְבַד, כְּמוֹ שֶׁעוֹשֶׂה שְׁלִיחַ צִבּוּר בִּקְרִיאַת שְׁמַע. וְרַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר רָאשֵׁי פְרָקִים בִּלְבַד הָיוּ אוֹמְרִים אַחֲרָיו, כְּמוֹ שֶׁעוֹשִׂין בִּקְרִיאַת הַהַלֵּל

Rambam contrasta, lado a lado, os dois modelos de recitação coletiva conhecidos na liturgia: no modelo do Shemá, o oficiante inicia cada trecho e a congregação o acompanha integralmente, palavra por palavra, num único fluxo contínuo; no modelo do Hallel, o oficiante lê o texto completo e a congregação responde apenas com frases curtas fixas em pontos específicos. Rabi Nechemia enquadra o Cântico do Mar no primeiro modelo — o povo inteiro cantando cada palavra junto com Moshé —, enquanto Rabi Akiva o enquadra no segundo — apenas frases de resposta pontuais.

Bartenura · רע״ב
Sotá 5:4
שֶׁאֵין תַּלְמוּד לוֹמַר לֵאמֹר. שֶׁאֵין דּוֹמֶה לִשְׁאָר לֵאמֹר שֶׁבַּתּוֹרָה, שֶׁהַשְּׁכִינָה מְדַבֶּרֶת לְמֹשֶׁה לֵאמֹר הַדִּבּוּר לְיִשְׂרָאֵל, אֲבָל כָּאן אֵין לוֹמַר כֵּן: כְּקוֹרִין אֶת הַהַלֵּל. רָאשֵׁי פְרָקִים בִּלְבַד הָיוּ עוֹנִים אַחֲרָיו

Bartenura reafirma a leitura de Rabi Akiva como a posição central da mishná: a palavra "dizendo" é excedente porque, ao contrário de toda outra ocorrência na Torá, aqui não há retransmissão a terceiros — e por isso ela vem ensinar que Israel participava ativamente do cântico, respondendo com as frases de abertura de cada seção, exatamente como a congregação responde nos capítulos do Hallel, sem repetir o texto completo verso a verso como no modelo alternativo proposto por Rabi Nechemia.