Naquele dia, expôs Rabi Akiva: "e medireis, fora da cidade, o lado leste, duas mil covados", etc.; e outro versículo diz: "da muralha da cidade e para fora, mil covados ao redor". Não é possível dizer mil covados, pois já se disse duas mil covados; e não é possível dizer duas mil covados, pois já se disse mil covados. Como se explica? Mil covados são o arrabalde, e duas mil covados são o limite de shabat. Rabi Eliezer, filho de Rabi Yosé HaGelili, diz: mil covados são o arrabalde, e duas mil covados são campos e vinhas. — A Torá contém duas medidas aparentemente contraditórias para o território que circunda as quarenta e oito cidades dadas aos levitas: um versículo fala em mil covados de largura ao redor da muralha, e outro fala em duas mil covados medidas para cada um dos quatro lados. Rabi Akiva resolve a contradição dividindo as duas medidas em duas finalidades distintas: os primeiros mil covados, contados a partir da muralha da cidade, constituem o "migrash" — uma área aberta reservada para uso da cidade, livre de plantio e construção, servindo de respiro visual e funcional ao redor do povoado; e as duas mil covados adicionais, contadas a partir do fim desse arrabalde, definem apenas o limite de caminhada permitido em shabat — não uma posse física adicional dos levitas, mas simplesmente até onde alguém pode se afastar da cidade num dia de descanso. Rabi Eliezer, filho de Rabi Yosé HaGelili, discorda quanto à segunda medida: para ele, as duas mil covados adicionais não são apenas um limite abstrato de caminhada, mas território real, dado aos levitas como campos agrícolas e vinhedos — complementando as terras que, ao contrário dos demais israelitas donos de terra, os levitas não receberam na partilha original de Eretz Israel.
Os dois versículos aparentemente contraditórios sobre a medida das cidades levíticas, em Bamidbar 35.
Rambam observa que Rabi Akiva entende que ambas as medidas se referem a uma única realidade contínua ao redor da cidade — mil covados de arrabalde seguidos por mais mil covados (totalizando as duas mil do segundo versículo) que servem de limite de caminhada em shabat, não de posse territorial adicional. Já a leitura de Rabi Eliezer, filho de Rabi Yosé HaGelili, trata as duas mil covados do segundo versículo como uma segunda faixa de terra, distinta e adicional ao arrabalde de mil covados, destinada ao uso agrícola dos levitas.
Rambam identifica o pano de fundo da disputa — se o limite de shabat é lei da Torá ou decreto rabínico — e fixa a halachá segundo Rabi Eliezer; Bartenura detalha a divisão territorial resultante.
Rambam revela a raiz mais profunda da disputa: por trás da questão territorial, Rabi Akiva e Rabi Eliezer discordam sobre a própria natureza do limite de caminhada em shabat — Rabi Akiva sustenta que o limite de duas mil covados tem base bíblica explícita, encontrada precisamente nesse versículo sobre as cidades levíticas; Rabi Eliezer sustenta que o limite de shabat é, na verdade, um decreto rabínico sem fundamento direto na Torá, e por isso lê as duas mil covados adicionais do versículo como território agrícola real, e não como fonte do limite de shabat. Rambam fixa a halachá de acordo com Rabi Eliezer: o limite de duas mil covados em shabat é decreto rabínico.
Bartenura detalha a diferença prática entre as duas posições: para os Sábios da opinião anônima, o "migrash" é apenas uma área aberta e vazia, sem cultivo nem construção, servindo unicamente à estética e ao respiro da cidade — e as duas mil covados adicionais nunca foram propriedade dos levitas, servindo somente como referência para o limite de caminhada em shabat. Já segundo Rabi Eliezer, as duas mil covados ao redor eram, de fato, dadas aos levitas: mil delas somadas ao migrash original de mil covados, e o restante reservado para campos e vinhedos — sua terra agrícola própria. A halachá segue Rabi Eliezer quanto à natureza rabínica do limite de shabat.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 27b), Rambam e Bartenura.
Rashi define o "migrash" como uma área aberta reservada exclusivamente ao respiro estético e funcional da cidade — livre de plantio, casas ou árvores, servindo apenas para dar ar e amplitude visual ao povoado. Quanto às duas mil covados adicionais, Rashi segue a leitura da mishná: segundo a opinião anônima, elas nunca constituíram propriedade real dos levitas, servindo apenas como base textual para o limite de caminhada em shabat; segundo Rabi Eliezer, porém, essas duas mil covados eram terra efetivamente entregue aos levitas, sendo o primeiro milhar somado ao migrash e o segundo reservado para uso agrícola.
Rambam concentra sua explicação no verdadeiro eixo da disputa — não a geografia das cidades levíticas em si, mas a fonte legal do limite de caminhada em shabat. Ao ler as duas mil covados como fonte bíblica explícita do tchum shabat, Rabi Akiva sustenta implicitamente que esse limite é lei da própria Torá; ao lê-las como território agrícola comum, Rabi Eliezer implicitamente classifica o tchum shabat como decreto dos Sábios, sem base textual direta — posição que Rambam adota como halachá final.
Bartenura resume as duas posições lado a lado: para os Sábios anônimos da mishná, apenas os mil covados do migrash têm significado territorial concreto — as duas mil covados adicionais existem no texto apenas para servir de base ao limite de shabat. Para Rabi Eliezer, filho de Rabi Yosé HaGelili, as duas mil covados são terra real, dividida entre o complemento do migrash e áreas de cultivo agrícola dos levitas. Bartenura conclui, de acordo com Rambam, que a halachá aceita a posição de Rabi Eliezer quanto à origem rabínica do tchum shabat.