Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Dalet · Mishná 5 de 5

Encerrando o Perek Dalet: quando o próprio tribunal adverte

וְאֵלּוּ שֶׁבֵּית דִּין מְקַנִּין לָהֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Dalet, a mishná trata do caso excepcional em que não é o marido, mas o próprio tribunal, quem profere a advertência — porque o marido está impedido de fazê-lo por conta própria.

E estas são as mulheres a quem o tribunal adverte: aquela cujo marido ficou surdo, ou enlouqueceu, ou estava preso. Não disseram que a fazem beber, mas apenas que a desqualificam de sua ketubá. Rabi Yosé diz: também para fazê-la beber, quando seu marido sair da prisão, ele a fará beber.A mishná trata de três situações em que o marido, embora legalmente casado, está impossibilitado de exercer por si mesmo o ato de advertir sua esposa — porque ficou surdo-mudo, porque enlouqueceu, ou porque está preso e fisicamente ausente. Nesses casos, se o tribunal observar que ela se comporta de modo licencioso, ele mesmo pode assumir o papel do marido e adverti-la formalmente. Mas a opinião dos Sábios limita o efeito dessa advertência: ela não é suficiente para efetivamente fazê-la beber, pois o versículo exige que seja o próprio marido, ativo e presente, quem a traga ao sacerdote — algo que nenhum destes três maridos pode fazer. O único efeito prático da advertência do tribunal, portanto, é desqualificá-la de receber sua ketubá caso ela se oculte com o homem indicado, já que a ocultação em si já basta para gerar essa consequência, independentemente da bebida. Rabi Yosé discorda quanto ao marido preso: para ele, quando esse marido finalmente sair da prisão, poderá então completar o procedimento e efetivamente fazê-la beber, pois sua ausência era apenas temporária, e não uma incapacidade permanente como a do surdo ou do louco.

וְאֵלּוּ שֶׁבֵּית דִּין מְקַנִּין לָהֶן, מִי שֶׁנִּתְחָרֵשׁ בַּעְלָהּ אוֹ נִשְׁתַּטָּה, אוֹ שֶׁהָיָה חָבוּשׁ בְּבֵית הָאֲסוּרִין. לֹא לְהַשְׁקוֹתָהּ אָמְרוּ, אֶלָּא לְפָסְלָהּ מִכְּתֻבָּתָהּ. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, אַף לְהַשְׁקוֹתָהּ, לִכְשֶׁיֵּצֵא בַעְלָהּ מִבֵּית הָאֲסוּרִין יַשְׁקֶנָּה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A exigência de que o marido esteja fisicamente presente e capaz para completar o procedimento deriva de duas expressões da própria parashá — "diante dos olhos de seu marido" e "e ele advertirá e trará".

Bamidbar (Números) 5:13
וְשָׁכַ֨ב אִ֣ישׁ אֹתָהּ֮ שִׁכְבַת־זֶ֒רַע֒ וְנֶעְלַם֙ מֵעֵינֵ֣י אִישָׁ֔הּ וְנִסְתְּרָ֖ה וְהִ֣יא נִטְמָ֑אָה וְעֵד֙ אֵ֣ין בָּ֔הּ וְהִ֖וא לֹ֥א נִתְפָּֽשָׂה׃
E um homem se deitou com ela em relação sexual, e isso foi ocultado dos olhos de seu marido, e ela se escondeu e se contaminou, e não há testemunha contra ela, e ela não foi flagrada.

Rambam explica que a expressão "diante dos olhos de seu marido" exige que o próprio marido veja e reconheça a ocultação para que o procedimento avance — um marido cego, por exemplo, não pode fazer sua esposa beber, pelo mesmo princípio que impede o marido surdo, louco ou ausente. Da mesma forma, a exigência de que "o homem trará sua esposa" — presente no versículo final da parashá — pressupõe a capacidade plena e a presença física do marido, o que o preso temporariamente não tem, mas pode recuperar assim que for libertado, base da posição de Rabi Yosé.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam deriva do princípio "mulher sob seu marido" toda a lista de condições físicas que impedem tanto o marido de fazer beber quanto a esposa de beber; Bartenura confirma e detalha caso a caso.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 4:5
וּמַה שֶּׁצָּרִיךְ שֶׁתֵּדָעֵהוּ, שֶׁאִם הָיָה בַּעְלָהּ סוּמָא, לֹא הָיָה מַשְׁקֶה אוֹתָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר מֵעֵינֵי אִישָׁהּ, וְכֵן אִם הָיְתָה הִיא חִגֶּרֶת אוֹ שֶׁאֵין לָהּ יָדַיִם אוֹ אִלֶּמֶת אֵינָהּ שׁוֹתָה, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר וְהֶעֱמִיד אֶת הָאִשָּׁה וְנָתַן עַל כַּפֶּיהָ וְאָמְרָה הָאִשָּׁה, וְנֶאֱמַר גַּם כֵּן אִשָּׁה תַּחַת אִישָׁהּ

Rambam generaliza o princípio que sustenta toda a mishná: a expressão "mulher sob seu marido" implica que qualquer condição que impeça o marido de completar seu papel também impede a esposa de completar o dela, e vice-versa. Assim, um marido cego não pode fazer sua esposa beber, pois o versículo fala em "diante dos olhos de seu marido"; e uma esposa manca, sem mãos, ou muda também não bebe, pois o texto exige que ela seja fisicamente colocada de pé, que receba a oferenda em suas próprias mãos, e que pronuncie o "amém" com sua própria voz.

Bartenura · Sotá 4:5
וְלֹא לְהַשְׁקוֹתָהּ אָמְרוּ. דְּהָא בָּעֵינַן וְהֵבִיא הָאִישׁ אֶת אִשְׁתּוֹ, וְלֵיכָּא. וּבַעְלָהּ נַמִּי לִכְשֶׁיָּבֹא אֵינוֹ יָכוֹל לְהַשְׁקוֹתָהּ בְּקִנּוּי זֶה, דְּבָעֵינַן וְקִנֵּא וְהֵבִיא. וְרַבִּי יוֹסֵי לֹא בָּעֵי וְקִנֵּא וְהֵבִיא. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי

Bartenura explica por que, mesmo depois que o marido preso for libertado, a advertência original do tribunal não basta, segundo os Sábios, para fazê-la beber: falta a ação conjunta de "advertir e trazer" pelo mesmo homem — o tribunal advertiu, mas não pode trazê-la ao sacerdote; e o marido, quando finalmente puder trazê-la, não foi ele quem advertiu. Rabi Yosé dispensa essa exigência de unidade entre quem adverte e quem traz, permitindo que o marido complete o procedimento iniciado pelo tribunal — mas a halachá não segue sua posição.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Encerrando o Perek Dalet, perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 24a-26b), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 24a, sobre a mishná e a Guemará
וְאֵלּוּ שֶׁבֵּית דִּין מְקַנִּין לָהֶן - אִם רוֹאִין אוֹתָם מִתְנַהֲגוֹת בִּפְרִיצוּת: לֹא לְהַשְׁקוֹתָהּ אָמְרוּ - הֵם לֹא יַשְׁקוּהָ, דְּבָעֵינַן וְהֵבִיא הָאִישׁ אֶת אִשְׁתּוֹ, וּבַעְלָהּ נַמִּי לֹא יַשְׁקֶנָּה בְּקִנּוּי זֶה לְכְשֶׁיִּרְצֶה, דְּבָעֵינַן וְקִנֵּא וְהֵבִיא, שֶׁיְּהֵא הַמְקַנֵּא וְהַמֵּבִיא אֶחָד

Rashi esclarece que o gatilho para a intervenção do tribunal é o comportamento visivelmente licencioso da mulher — os próprios juízes, ao observarem essa conduta, assumem o papel que o marido incapacitado não pode exercer. Rashi enfatiza o ponto central da limitação: nem o tribunal pode fazê-la beber, pois o versículo exige que seja "o marido" quem a traz; nem o marido, quando puder agir, pode completar a bebida com base nesta advertência específica, pois a Torá requer que a mesma pessoa que adverte seja também quem traz a esposa ao sacerdote.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 4:5
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר כָּל מִי שֶׁיְּקַנֵּא יַשְׁקֶנָּה, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר וְקִנֵּא וְהֵבִיא... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי. וּמַה שֶּׁצָּרִיךְ שֶׁתֵּדָעֵהוּ שֶׁאִם הָיָה בַּעְלָהּ סוּמָא לֹא הָיָה מַשְׁקֶה אוֹתָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר מֵעֵינֵי אִישָׁהּ

Rambam registra a leitura de Rabi Yosé do versículo "e ele advertirá e trará": para ele, qualquer pessoa que legitimamente advertiu a esposa — incluindo o tribunal agindo em nome de um marido incapacitado — pode depois trazê-la e completar o procedimento, mesmo que não tenha sido ela mesma, literalmente, quem a trouxe fisicamente ao Templo. A halachá, porém, não segue essa leitura mais flexível. Rambam aproveita para acrescentar mais uma condição física derivada do mesmo princípio geral: um marido cego jamais pode fazer sua esposa beber, pois a Torá fala em "diante dos olhos de seu marido".

Bartenura · רע״ב
Sotá 4:5
אֵלּוּ שֶׁבֵּית דִּין מְקַנְּאִין לָהֶם. אִם רוֹאִים אוֹתָם שֶׁמִּתְנַהֲגוֹת בִּפְרִיצוּת... וְסוּמָא אֵינוֹ מַשְׁקֶה אֶת אִשְׁתּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר מֵעֵינֵי אִישָׁהּ. וּמִמַּה שֶּׁנֶּאֱמַר אִשָּׁה תַּחַת אִישָׁהּ, לָמַדְנוּ שֶׁכָּל הַמּוֹנֵעַ הַבַּעַל מִלְּהַשְׁקוֹת מוֹנֵעַ הָאִשָּׁה מִלִּשְׁתּוֹת, אִם הָיָה אוֹתוֹ הַדָּבָר בָּאִשָּׁה

Encerrando o Perek Dalet, Bartenura resume o princípio unificador de toda a mishná — retomado do final do capítulo anterior: qualquer impedimento físico que atinja o marido e o impeça de fazer sua esposa beber também impede, por simetria, a esposa portadora do mesmo tipo de impedimento de efetivamente beber. Assim, um marido cego não pode dar de beber à esposa, pois a Torá fala em "diante dos olhos de seu marido"; e, pela expressão "mulher sob seu marido", o mesmo vale, em direção inversa, para a mulher manca, sem mãos, ou muda diante de um marido saudável — encerrando o perek com a base comum de todas as isenções examinadas.