Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Dalet · Mishná 4 de 5

A esposa do sacerdote e do eunuco; por meio de quais parentes se adverte

אֵשֶׁת כֹּהֵן שׁוֹתָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata de dois casos em que se poderia supor, erradamente, que a bebida não se aplica — a esposa de sacerdote e a esposa de eunuco — e depois define por meio de quais homens uma advertência de ciúme é válida.

A esposa de sacerdote bebe e continua permitida a seu marido. A esposa de eunuco bebe. Por meio de todos os parentes proibidos se adverte, exceto por meio do menor e por meio de quem não é homem.Poder-se-ia pensar que a esposa de sacerdote, se estuprada, ficaria proibida a seu marido mesmo depois de provada inocente pelas águas — pois talvez as águas não a tenham identificado como estuprada, e sim simplesmente como não adúltera por vontade própria —, e que por isso ela nem deveria beber. A mishná ensina que não: ela bebe normalmente, e se sair ilesa, permanece permitida ao marido sacerdote, pois as águas provam sua inocência completa, não apenas a ausência de culpa voluntária. Da mesma forma, poder-se-ia pensar que a esposa de um eunuco não deveria beber, já que ele não tem relações conjugais com ela — mas a mishná ensina que ela bebe igualmente, pois o versículo que proíbe a relação com outro homem fala em "além de seu marido", uma expressão que se aplica mesmo quando o marido, por sua condição, não teria relações com ela de qualquer forma. A mishná fecha definindo por meio de qual homem o marido pode advertir sua esposa: por meio de qualquer um dos parentes com quem ela tem relação proibida — pai, irmão, ou qualquer um dos demais parentes proibidos listados na Torá —, a advertência é válida, e se ela se ocultar com ele, é considerada sotá. A única exceção é o menor de idade e "quem não é homem" — ou seja, um animal —, pois com nenhum dos dois pode haver relação sexual que efetivamente contamine a mulher no sentido exigido pela lei.

אֵשֶׁת כֹּהֵן שׁוֹתָה וּמֻתֶּרֶת לְבַעְלָהּ. אֵשֶׁת סָרִיס שׁוֹתָה. עַל יְדֵי כָל עֲרָיוֹת מְקַנִּין, חוּץ מִן הַקָּטָן, וּמִמִּי שֶׁאֵינוֹ אִישׁ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A regra de que a advertência vale por meio de qualquer um dos parentes proibidos deriva da expressão "além de seu marido", que a Guemará lê como abrangendo qualquer homem cuja relação com ela seja proibida.

Bamidbar (Números) 5:20
וְאַ֗תְּ כִּ֥י שָׂטִ֛ית תַּ֥חַת אִישֵׁ֖ךְ וְכִ֣י נִטְמֵ֑את וַיִּתֵּ֨ן אִ֥ישׁ בָּךְ֙ אֶת־שְׁכׇבְתּ֔וֹ מִֽבַּלְעֲדֵ֖י אִישֵֽׁךְ׃
E se tu te desviaste sob teu marido e te contaminaste, e um homem, além de teu marido, te deu sua semente.

Rambam explica que a expressão "além de teu marido" ensina que qualquer homem, incluindo os parentes proibidos por outras leis, torna a advertência válida — a Torá não exige que o homem com quem ela se oculta seja, ele próprio, permitido a se casar com ela em outras circunstâncias. Já quanto à esposa do eunuco, Bartenura observa que ela poderia parecer isenta por não haver relação conjugal possível com ele — mas a mesma expressão "além de teu marido" mostra que a proibição de se relacionar com outro persiste mesmo quando o próprio marido não teria relações com ela de qualquer forma.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que se poderia erroneamente supor isenção nos dois primeiros casos, e a idade exata que define "o menor"; Bartenura acrescenta o detalhe da opinião divergente sobre essa idade.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 4:4
שֶׁמָּא יַעֲלֶה עַל הַדַּעַת אֵשֶׁת יִשְׂרָאֵל כְּשֶׁזִּנְּתָה בְּאֹנֶס שֶׁהִיא מֻתֶּרֶת לְבַעְלָהּ, הִיא שׁוֹתָה וְתִהְיֶה מֻתֶּרֶת לְבַעְלָהּ, אֲבָל אֵשֶׁת כֹּהֵן שֶׁזִּנְּתָה בְּאֹנֶס שֶׁהִיא אֲסוּרָה עָלָיו, הָיָה לָנוּ לוֹמַר שֶׁלֹּא תִּהְיֶה מֻתֶּרֶת לוֹ אַחַר שֶׁתִּשְׁתֶּה, שֶׁמָּא בְּאֹנֶס זִנְּתָה וּלְכָךְ הֻצְּלָה וְהִיא אֲסוּרָה עָלָיו, וּלְכָךְ לָמַדְנוּ שֶׁהִיא שׁוֹתָה וּמֻתֶּרֶת לְבַעְלָהּ

Rambam explica o raciocínio hipotético que a mishná vem descartar: como a esposa de israelita que foi estuprada continua permitida a seu marido, poder-se-ia pensar que a bebida apenas prova ausência de adultério voluntário — o que deixaria a esposa de sacerdote, estuprada, ainda proibida a ele mesmo depois de bem-sucedida na prova, já que ela poderia ter sido "salva" pelas águas precisamente por ter sido estuprada, não por ser inocente de toda relação. A mishná ensina que essa suposição é falsa: a bebida prova inocência completa, e por isso ela permanece permitida ao marido sacerdote.

Bartenura · Sotá 4:4
חוּץ מִן הַקָּטָן. פָּחוֹת מִבֶּן תֵּשַׁע שָׁנִים וְיוֹם אֶחָד, שֶׁאֵין בִּיאָתוֹ בִיאָה, כָּךְ פֵּרֵשׁ רַמְבַּ"ם. וְלִי נִרְאֶה קָטָן פָּחוֹת מִבֶּן שְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה שָׁנָה וְיוֹם אֶחָד וְלֹא הֵבִיא סִימָנִים, דִּכְתִיב וְשָׁכַב אִישׁ אֹתָהּ, אִישׁ וְלֹא קָטָן

Bartenura registra uma discordância com Rambam sobre a definição exata de "o menor" excluído da lista de parentes válidos para advertência. Para Rambam, trata-se de um menino com menos de nove anos e um dia, idade abaixo da qual a relação não é considerada relação para efeitos legais. Bartenura, porém, prefere definir o menor como qualquer garoto com menos de treze anos e um dia que ainda não desenvolveu os sinais físicos da maturidade, apoiando-se na expressão "e um homem se deitar com ela" — que exclui explicitamente quem ainda não é considerado "homem" pleno.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 24a-26a), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 24a, sobre a mishná e a Guemará
אֵשֶׁת כֹּהֵן שׁוֹתָה וּמֻתֶּרֶת לְבַעְלָהּ - אִם נִמְצֵאת נְקִיָּה, וּבַגְּמָרָא פָּרִיךְ פְּשִׁיטָא: אֵשֶׁת סָרִיס - כְּגוֹן שֶׁנִּסְתָּרֵס לְאַחַר שֶׁנְּשָׂאָהּ, דְּקָדְמָה שְׁכִיבַת בַּעַל לַבּוֹעֵל: שׁוֹתָה - וּבַגְּמָרָא פָּרִיךְ פְּשִׁיטָא: עַל יְדֵי כָל הָעֲרָיוֹת מְקַנִּין - אִם קִנֵּא לָהּ מֵאָבִיהָ וּמֵאָחִיהָ וּמֵאֶחָד מִכָּל הָעֲרָיוֹת שֶׁבַּתּוֹרָה, וְנִסְתְּרָה, הָוֵי קִנּוּיוֹ קִנּוּי וְנֶאֱסֶרֶת עָלָיו וְשׁוֹתָה, וּבַגְּמָרָא פָּרִיךְ פְּשִׁיטָא: חוּץ מִן הַקָּטָן - דִּכְתִיב וְשָׁכַב אִישׁ אֹתָהּ

Rashi confirma que a esposa do sacerdote, se sair ilesa das águas, permanece plenamente permitida a ele, e observa que a Guemará, à primeira vista, questiona a própria necessidade desta afirmação — parecendo óbvia — antes de esclarecer o que ela realmente vem excluir. Sobre a esposa do eunuco, Rashi precisa o cenário: trata-se de um homem que se tornou eunuco depois de já ter se casado com ela, de modo que a relação conjugal com o marido já havia ocorrido antes de qualquer relação proibida — daí ela ainda ser apta ao procedimento. Quanto ao menor excluído da lista de parentes, Rashi apoia a exclusão diretamente na expressão "e um homem se deitar com ela", que pressupõe a maturidade plena de quem se deita com a mulher.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 4:4
וּמַה שֶּׁאָמַר עַל יְדֵי כָל הָעֲרָיוֹת מְקַנְּאִין, שֶׁמָּא יַעֲלֶה עַל דַּעְתֵּנוּ שֶׁהוּא אִם קִנֵּא לָהּ עִם אָחִיהָ אוֹ אָבִיהָ אוֹ אֶחָד מִן הָעֲרָיוֹת הַדּוֹמִין לָהֶם אֵינוֹ קָנוּי, לְפִי שֶׁאָמַר וְנִטְמְאָה ב"פ... וְקָטָן הוּא פָּחוֹת מִבֶּן תֵּשַׁע שָׁנִים וְיוֹם אֶחָד, כְּמוֹ שֶׁנִּתְבָּאֵר בִּיבָמוֹת (פ"י הלכה ז')

Rambam explica que a regra "por meio de todos os parentes proibidos se adverte" vem descartar a suposição de que uma advertência envolvendo um parente próximo — pai, irmão, ou outro parente proibido — não seria válida, talvez por parecer redundante ou desnecessária diante de uma proibição já existente por outra razão. A repetição da palavra "contaminou-se" no texto bíblico ensina que qualquer relação proibida com qualquer homem gera a mesma consequência. Rambam remete ainda à sua própria definição, em Yevamot, da idade exata do menor excluído: menos de nove anos e um dia.

Bartenura · רע״ב
Sotá 4:4
אֵשֶׁת כֹּהֵן שׁוֹתָה וּמֻתֶּרֶת לְבַעְלָהּ. אִם נִמְצֵאת נְקִיָּה. דְּמַהוּ דְתֵימָא הוֹאִיל וְאֵשֶׁת כֹּהֵן שֶׁנֶּאֶנְסָה אֲסוּרָה לְבַעְלָהּ, נָחוּשׁ לָהּ שֶׁמָּא נֶאֶנְסָה וּלְכָךְ לֹא בָּדְקוּהָ הַמַּיִם, קָא מַשְׁמַע לָן: אֵשֶׁת סָרִיס שׁוֹתָה. דְּלֹא תֵימָא מִבִּלְעֲדֵי אִישֵׁךְ אָמַר רַחֲמָנָא, וְהַאי לָאו בַּר הָכִי הוּא, קָא מַשְׁמַע לָן: וּמִמִּי שֶׁאֵינוֹ אִישׁ. לְמִעוּטֵי בְהֵמָה

Bartenura confirma o mesmo mecanismo hipotético de Rambam: sem essa cláusula, poder-se-ia temer que a esposa do sacerdote, aprovada pelas águas, ainda pudesse ter sido estuprada — hipótese que as águas não descartariam —, e por isso permanecesse proibida. Sobre a esposa do eunuco, Bartenura explica que a expressão "além de teu marido" poderia sugerir que a proibição só se aplica quando existe relação conjugal possível com o marido, o que a mishná vem descartar. E "quem não é homem", conclui Bartenura em poucas palavras, exclui simplesmente o animal — cuja relação com a mulher, embora proibida por si só, não é o tipo de relação que a lei da sotá contempla como advertência válida.