A esposa de sacerdote bebe e continua permitida a seu marido. A esposa de eunuco bebe. Por meio de todos os parentes proibidos se adverte, exceto por meio do menor e por meio de quem não é homem. — Poder-se-ia pensar que a esposa de sacerdote, se estuprada, ficaria proibida a seu marido mesmo depois de provada inocente pelas águas — pois talvez as águas não a tenham identificado como estuprada, e sim simplesmente como não adúltera por vontade própria —, e que por isso ela nem deveria beber. A mishná ensina que não: ela bebe normalmente, e se sair ilesa, permanece permitida ao marido sacerdote, pois as águas provam sua inocência completa, não apenas a ausência de culpa voluntária. Da mesma forma, poder-se-ia pensar que a esposa de um eunuco não deveria beber, já que ele não tem relações conjugais com ela — mas a mishná ensina que ela bebe igualmente, pois o versículo que proíbe a relação com outro homem fala em "além de seu marido", uma expressão que se aplica mesmo quando o marido, por sua condição, não teria relações com ela de qualquer forma. A mishná fecha definindo por meio de qual homem o marido pode advertir sua esposa: por meio de qualquer um dos parentes com quem ela tem relação proibida — pai, irmão, ou qualquer um dos demais parentes proibidos listados na Torá —, a advertência é válida, e se ela se ocultar com ele, é considerada sotá. A única exceção é o menor de idade e "quem não é homem" — ou seja, um animal —, pois com nenhum dos dois pode haver relação sexual que efetivamente contamine a mulher no sentido exigido pela lei.
A regra de que a advertência vale por meio de qualquer um dos parentes proibidos deriva da expressão "além de seu marido", que a Guemará lê como abrangendo qualquer homem cuja relação com ela seja proibida.
Rambam explica que a expressão "além de teu marido" ensina que qualquer homem, incluindo os parentes proibidos por outras leis, torna a advertência válida — a Torá não exige que o homem com quem ela se oculta seja, ele próprio, permitido a se casar com ela em outras circunstâncias. Já quanto à esposa do eunuco, Bartenura observa que ela poderia parecer isenta por não haver relação conjugal possível com ele — mas a mesma expressão "além de teu marido" mostra que a proibição de se relacionar com outro persiste mesmo quando o próprio marido não teria relações com ela de qualquer forma.
Rambam explica por que se poderia erroneamente supor isenção nos dois primeiros casos, e a idade exata que define "o menor"; Bartenura acrescenta o detalhe da opinião divergente sobre essa idade.
Rambam explica o raciocínio hipotético que a mishná vem descartar: como a esposa de israelita que foi estuprada continua permitida a seu marido, poder-se-ia pensar que a bebida apenas prova ausência de adultério voluntário — o que deixaria a esposa de sacerdote, estuprada, ainda proibida a ele mesmo depois de bem-sucedida na prova, já que ela poderia ter sido "salva" pelas águas precisamente por ter sido estuprada, não por ser inocente de toda relação. A mishná ensina que essa suposição é falsa: a bebida prova inocência completa, e por isso ela permanece permitida ao marido sacerdote.
Bartenura registra uma discordância com Rambam sobre a definição exata de "o menor" excluído da lista de parentes válidos para advertência. Para Rambam, trata-se de um menino com menos de nove anos e um dia, idade abaixo da qual a relação não é considerada relação para efeitos legais. Bartenura, porém, prefere definir o menor como qualquer garoto com menos de treze anos e um dia que ainda não desenvolveu os sinais físicos da maturidade, apoiando-se na expressão "e um homem se deitar com ela" — que exclui explicitamente quem ainda não é considerado "homem" pleno.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 24a-26a), Rambam e Bartenura.
Rashi confirma que a esposa do sacerdote, se sair ilesa das águas, permanece plenamente permitida a ele, e observa que a Guemará, à primeira vista, questiona a própria necessidade desta afirmação — parecendo óbvia — antes de esclarecer o que ela realmente vem excluir. Sobre a esposa do eunuco, Rashi precisa o cenário: trata-se de um homem que se tornou eunuco depois de já ter se casado com ela, de modo que a relação conjugal com o marido já havia ocorrido antes de qualquer relação proibida — daí ela ainda ser apta ao procedimento. Quanto ao menor excluído da lista de parentes, Rashi apoia a exclusão diretamente na expressão "e um homem se deitar com ela", que pressupõe a maturidade plena de quem se deita com a mulher.
Rambam explica que a regra "por meio de todos os parentes proibidos se adverte" vem descartar a suposição de que uma advertência envolvendo um parente próximo — pai, irmão, ou outro parente proibido — não seria válida, talvez por parecer redundante ou desnecessária diante de uma proibição já existente por outra razão. A repetição da palavra "contaminou-se" no texto bíblico ensina que qualquer relação proibida com qualquer homem gera a mesma consequência. Rambam remete ainda à sua própria definição, em Yevamot, da idade exata do menor excluído: menos de nove anos e um dia.
Bartenura confirma o mesmo mecanismo hipotético de Rambam: sem essa cláusula, poder-se-ia temer que a esposa do sacerdote, aprovada pelas águas, ainda pudesse ter sido estuprada — hipótese que as águas não descartariam —, e por isso permanecesse proibida. Sobre a esposa do eunuco, Bartenura explica que a expressão "além de teu marido" poderia sugerir que a proibição só se aplica quando existe relação conjugal possível com o marido, o que a mishná vem descartar. E "quem não é homem", conclui Bartenura em poucas palavras, exclui simplesmente o animal — cuja relação com a mulher, embora proibida por si só, não é o tipo de relação que a lei da sotá contempla como advertência válida.