Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Hei · Mishná 1 de 5

Abrindo o Perek Hei: as águas também examinam o amante

כְּשֵׁם שֶׁהַמַּיִם בּוֹדְקִין אוֹתָהּ, כָּךְ הַמַּיִם בּוֹדְקִין אוֹתוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Hei, a mishná deixa o tema de quem está sujeita ou isenta do procedimento — assunto do Perek Dalet — e passa a tratar do próprio efeito das águas: elas não atingem apenas a esposa suspeita, mas também o homem com quem ela se corrompeu.

Assim como as águas a examinam, assim as águas examinam também a ele, como está dito: "e virão, e virão". Assim como ela fica proibida ao marido, assim fica proibida também ao amante, como está dito: "contaminou-se, e contaminou-se" — palavras de Rabi Akiva. Disse Rabi Yehoshua: assim expunha Zecharia ben HaKatzav. Rabi diz: as duas vezes que se diz na parashá "se ela se contaminou, contaminou-se" — uma se refere ao marido, e outra ao amante.A mishná estabelece que o efeito das águas amargas não se limita à mulher: o mesmo verso que descreve as águas entrando nela — "e virão as águas amaldiçoantes" — é repetido em dois momentos da parashá, e essa duplicação ensina que as águas "vêm" também sobre o homem com quem ela se deitou, ainda que ele esteja fisicamente distante e não beba coisa alguma; se ela morre pelo efeito das águas, ele também morre, onde quer que esteja, no mesmo momento. Da mesma forma, a expressão "contaminou-se" aparece duas vezes na parashá, e Rabi Akiva ensina que essa repetição estende à proibição: assim como a mulher provada culpada fica proibida para sempre ao marido, mesmo que ele quisesse perdoá-la, ela também fica proibida ao amante, de modo que, mesmo se o marido morresse e ela ficasse livre para se casar novamente, não poderia se casar com aquele por quem se corrompeu. Rabi Yehoshua atesta que essa mesma leitura já era ensinada por um sábio anterior, Zecharia ben HaKatzav; e Rabi, sem discordar do resultado, prefere fundamentar a dupla proibição não na repetição da letra vav, mas simplesmente no fato de a expressão "se contaminou, contaminou-se" aparecer duas vezes na própria parashá — uma vez a respeito do marido e outra a respeito do amante.

כְּשֵׁם שֶׁהַמַּיִם בּוֹדְקִין אוֹתָהּ, כָּךְ הַמַּיִם בּוֹדְקִין אוֹתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר וּבָאוּ, וּבָאוּ. כְּשֵׁם שֶׁאֲסוּרָה לַבַּעַל, כָּךְ אֲסוּרָה לַבּוֹעֵל, שֶׁנֶּאֱמַר נִטְמְאָה, וְנִטְמָאָה, דִּבְרֵי רַבִּי עֲקִיבָא. אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, כָּךְ הָיָה דוֹרֵשׁ זְכַרְיָה בֶן הַקַּצָּב. רַבִּי אוֹמֵר, שְׁנֵי פְעָמִים הָאֲמוּרִים בַּפָּרָשָׁה אִם נִטְמְאָה נִטְמָאָה, אֶחָד לַבַּעַל וְאֶחָד לַבּוֹעֵל:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A expressão "e virão as águas" aparece duas vezes na parashá — uma no juramento do sacerdote, outra no versículo que descreve a bebida em si — e a expressão "contaminou-se" também aparece duas vezes, a base textual de toda a mishná.

Bamidbar (Números) 5:22 e 5:24
וּבָאוּ הַמַּיִם הַמְאָרְרִים הָאֵלֶּה בְּמֵעַיִךְ לַצְבּוֹת בֶּטֶן וְלַנְפִּל יָרֵךְ... וְהִשְׁקָה אֶת הָאִשָּׁה אֶת מֵי הַמָּרִים הַמְאָרְרִים וּבָאוּ בָהּ הַמַּיִם הַמְאָרְרִים לְמָרִים׃
"E virão estas águas amaldiçoantes em teu ventre, para inchar o ventre e fazer cair a coxa..." "E dará de beber à mulher as águas amargas amaldiçoantes, e virão nela as águas amaldiçoantes para amargura."
Bamidbar (Números) 5:27 e 5:29
וְהָיְתָה אִם נִטְמְאָה וַתִּמְעֹל מַעַל בְּאִישָׁהּ... זֹאת תּוֹרַת הַקְּנָאֹת אֲשֶׁר תִּשְׂטֶה אִשָּׁה תַּחַת אִישָׁהּ וְנִטְמָאָה׃
"E será, se ela se contaminou e traiu seu marido..." "Esta é a lei das advertências: quando uma mulher se desviar sob seu marido e se contaminar."

Rashi explica que "e virão, e virão" é lido como duplicação intencional, pois o versículo já havia mencionado o efeito das águas no juramento do sacerdote antes de repeti-lo no momento da bebida propriamente dita — e essa repetição ensina que as águas "vêm" também sobre o parceiro da transgressão, mesmo ausente. Da mesma forma, a palavra "contaminou-se" aparece tanto no meio da parashá quanto no versículo de encerramento, "esta é a lei das advertências" — e essa segunda menção, segundo Rabi Akiva, estabelece a proibição também em relação ao amante, e não apenas ao marido.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o alcance prático da primeira cláusula — a morte do amante — e Bartenura detalha, letra por letra, onde a Guemará localiza cada vav excedente que sustenta a leitura de Rabi Akiva.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 5:1
בּוֹדְקִין אוֹתוֹ, רְצוֹנִי לוֹמַר בָּזֶה שֶׁיָּמוּת מִי שֶׁזָּנָה עִמָּהּ כְּמוֹ שֶׁתָּמוּת הִיא כְּשֶׁשּׁוֹתָה. וְאֵין בֵּין רַבִּי וּבֵין רַבִּי עֲקִיבָא מַחֲלֹקֶת בַּדִּין, וְאָמְנָם חוֹלְקִין בִּרְאִיַּת הַדִּין

Rambam esclarece que "as águas o examinam" significa concretamente que o amante morre no mesmo momento em que a mulher morre por efeito da bebida — não é apenas uma proibição simbólica, mas um castigo físico paralelo. Rambam observa ainda que Rabi e Rabi Akiva não discordam quanto ao resultado prático — ambos concordam que o amante fica proibido e sujeito ao mesmo destino —, discordando apenas quanto à base textual exata que sustenta essa conclusão.

Bartenura · Sotá 5:1
כָּךְ בּוֹדְקִים אוֹתוֹ. אֶת הַבּוֹעֵל: וּבָאוּ וּבָאוּ. שְׁנֵיהֶם בְּוָי"ו יְתֵרָא לִדְרָשָׁא: נִטְמְאָה וְנִטְמָאָה. וָי"ו יְתֵרָא דִּבְוְנִטְמְאָה שְׁנִיָּה לִדְרָשָׁא

Bartenura identifica precisamente onde a Guemará localiza a letra vav excedente que Rabi Akiva usa como base da derasha: tanto em "e virão" quanto na segunda ocorrência de "contaminou-se", a letra vav no início da palavra é lida como acréscimo textual intencional, destinado a ensinar uma lei além do sentido simples do versículo — neste caso, que o efeito da água e a proibição resultante recaem também sobre o amante.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Abrindo o Perek Hei, perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 27b), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 27b, sobre a mishná e a Guemará
מַתְנִיתִין כְּשֵׁם. כָּךְ בּוֹדְקִין אוֹתוֹ - בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ לָהּ: שֶׁנֶּאֱמַר וּבָאוּ וּבָאוּ - בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ אִי וָי"ו יְתֵרָא דָּרֵישׁ אוֹ וּבָאוּ וּבָאוּ יְתֵרֵי דִּכְתִיבֵי בְּעִנְיָנָא: נִטְמְאָה וְנִטְמָאָה - וָי"ו יְתֵרָא דָּרֵישׁ אֲשֶׁר תִּשְׂטֶה אִשָּׁה תַּחַת אִישָׁהּ וְנִטְמָאָה: וְכֵן הָיָה רַבִּי זְכַרְיָה דּוֹרֵשׁ - וָי"ו יְתֵרָא

Rashi observa que a Guemará debate exatamente qual das duas leituras é a correta: se Rabi Akiva deriva a lição da letra vav excedente no início da palavra "e virão", ou do simples fato de a expressão "vêm as águas" aparecer duas vezes na passagem. Sobre a segunda cláusula, Rashi localiza precisamente o vav excedente na palavra "e contaminou-se" do versículo final da parashá, "esta é a lei das advertências, que a mulher se desviar sob seu marido e se contaminar" — e nota que Zecharia ben HaKatzav já ensinava essa mesma leitura antes de Rabi Akiva, mostrando que a tradição da derasha é anterior a ele.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 5:1
כְּשֵׁם שֶׁהַמַּיִם בּוֹדְקִין אוֹתָהּ כוּ': בּוֹדְקִין אוֹתוֹ רְצוֹנִי לוֹמַר בָּזֶה שֶׁיָּמוּת מִי שֶׁזָּנָה עִמָּהּ כְּמוֹ שֶׁתָּמוּת הִיא כְּשֶׁשּׁוֹתָה. וְאֵין בֵּין רַבִּי וּבֵין רַבִּי עֲקִיבָא מַחֲלֹקֶת בַּדִּין וְאָמְנָם חוֹלְקִין בִּרְאִיַּת הַדִּין וְסִבַּת מַחֲלָקְתָּם וּרְאִיַּת כָּל אֶחָד מֵהֶם נְכוֹנָה לְפִי שִׁטַּת הַגְּמָרָא, וְלֹא נִזְכֹּר מֵהֶם בָּזֶה הַמָּקוֹם כְּדֵי שֶׁלֹּא יַאֲרִיךְ הַדִּבּוּר וְתִמְעַט הַתּוֹעֶלֶת

Rambam confirma que o "exame" das águas sobre o amante significa sua morte efetiva, paralela à da mulher, e insiste que a disputa entre Rabi e Rabi Akiva é puramente metodológica — sobre qual verso fundamenta a lei —, sem qualquer diferença prática entre as duas posições. Rambam opta deliberadamente por não expor os detalhes de cada leitura, explicando que o aprofundamento pertence à Guemará e não traria benefício adicional ao estudante da Mishná neste ponto.

Bartenura · רע״ב
Sotá 5:1
כָּךְ בּוֹדְקִים אוֹתוֹ. אֶת הַבּוֹעֵל: וּבָאוּ וּבָאוּ. שְׁנֵיהֶם בְּוָי"ו יְתֵרָא לִדְרָשָׁא: נִטְמְאָה וְנִטְמָאָה. וָי"ו יְתֵרָא דִּבְוְנִטְמְאָה שְׁנִיָּה לִדְרָשָׁא: רַבִּי אוֹמֵר שְׁנֵי פְעָמִים וְכוּ'. רַבִּי לֹא דָרֵישׁ וָי"ו יְתֵרָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא אֶלָּא רִבּוּי דִקְרָאֵי קָא דָרֵישׁ, בֵּין בְּוּבָאוּ וּבָאוּ, בֵּין בְּנִטְמְאָה וְנִטְמָאָה

Abrindo o Perek Hei, Bartenura resume a base textual precisa de cada cláusula da mishná: tanto em "e virão, e virão" quanto na segunda ocorrência de "contaminou-se", há uma letra vav lida como excedente, servindo de base à derasha de Rabi Akiva. Bartenura esclarece o método distinto de Rabi: ele não interpreta a letra vav como excedente, mas sim toma como base a própria multiplicação das expressões dentro da parashá — a mesma ideia recebendo apoio textual duplo, tanto em "e virão as águas" quanto em "contaminou-se".