Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Dalet · Mishná 3 de 5

A grávida ou lactante alheia, e a mulher estéril

מְעֻבֶּרֶת חֲבֵרוֹ וּמֵינֶקֶת חֲבֵרוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná examina duas categorias de mulheres cujo casamento, embora não proibido por si só, envolve uma restrição temporária ou permanente à sua capacidade de "ser mantida" — gerando disputa sobre se essa restrição basta para isentá-las da bebida.

A grávida de outro e a que amamenta filho de outro não bebem nem recebem a ketubá — palavras de Rabi Meir. Os Sábios dizem: ele pode separá-la e devolvê-la depois de um tempo. A estéril, a idosa, e a que não é própria para gerar, não bebem nem recebem a ketubá. Rabi Eliezer diz: ele pode tomar outra mulher e ser fecundo e multiplicar-se a partir dela. E todas as demais mulheres, ou bebem, ou não recebem a ketubá.A mishná trata primeiro do homem que se casa com uma viúva ou divorciada grávida ou amamentando filho de um marido anterior, união que os Sábios proibiram temporariamente até que a criança complete dois anos, para que a amamentação não seja interrompida. Para Rabi Meir, essa proibição é tão grave que equipara o marido a alguém casado em transgressão permanente, e por isso ele nunca poderá fazê-la beber. Os Sábios discordam: como ele sempre pode simplesmente separar-se dela agora e retomá-la depois que o prazo terminar, ela continua sendo, tecnicamente, "própria para ser mantida" por ele — e portanto pode beber normalmente. Já a segunda parte da mishná trata da mulher estéril de nascença, da idosa, ou daquela que se tornou incapaz de gerar filhos: para a opinião anônima da mishná, essas mulheres também não bebem, pois o casamento com uma mulher assim, quando o homem ainda não cumpriu o preceito de procriar, é problemático. Rabi Eliezer discorda, porque o homem sempre tem a opção de tomar uma segunda esposa fértil para cumprir esse preceito através dela, permanecendo casado com a primeira sem impedimento — e por isso, para ele, essas mulheres bebem normalmente. Por fim, a mishná fecha com a regra geral e conclusiva de todo este trecho: qualquer outra mulher, fora das categorias já listadas, ou bebe efetivamente as águas, ou, se recusar, perde sua ketubá — nunca as duas isenções ao mesmo tempo.

מְעֻבֶּרֶת חֲבֵרוֹ וּמֵינֶקֶת חֲבֵרוֹ, לֹא שׁוֹתוֹת וְלֹא נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּה, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, יָכוֹל הוּא לְהַפְרִישָׁהּ וּלְהַחֲזִירָהּ לְאַחַר זְמַן. אַיְלוֹנִית וּזְקֵנָה וְשֶׁאֵינָהּ רְאוּיָה לֵילֵד, לֹא שׁוֹתוֹת וְלֹא נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, יָכוֹל הוּא לִשָּׂא אִשָּׁה אַחֶרֶת וְלִפְרוֹת וְלִרְבּוֹת הֵימֶנָּה. וּשְׁאָר כָּל הַנָּשִׁים, אוֹ שׁוֹתוֹת אוֹ לֹא נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Rabi Eliezer funda sua posição sobre a mulher estéril no versículo que descreve o resultado da bebida para a mulher considerada inocente.

Bamidbar (Números) 5:28
וְאִם־לֹ֤א נִטְמְאָה֙ הָֽאִשָּׁ֔ה וּטְהֹרָ֖ה הִ֑וא וְנִקְּתָ֖ה וְנִזְרְעָ֥ה זָֽרַע׃
E, se a mulher não se contaminou, e está pura, ela sairá livre e será fecundada com semente.

Segundo Rambam, Rabi Eliezer lê "será fecundada com semente" não como mera promessa de fertilidade, mas como um reajuste concreto no padrão de gravidez ou de parto da mulher — quem antes tinha partos difíceis passa a ter partos fáceis, ou quem gerava apenas filhas passa a gerar filhos. Por essa leitura, mesmo a mulher já naturalmente estéril tem algo a ganhar com a bebida, o que a torna, para Rabi Eliezer, própria para o procedimento; e quanto à impossibilidade de procriar através dela, ele responde que o marido sempre pode tomar uma segunda esposa para cumprir o preceito à parte, sem que isso o impeça de manter também a primeira.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o fundamento da disputa entre Rabi Meir e os Sábios, e a halachá decidida; Bartenura detalha os termos técnicos de cada categoria.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 4:3
רַבִּי מֵאִיר סָבַר מִי שֶׁנָּשָׂא מְעֻבֶּרֶת חֲבֵרוֹ וּמֵינֶקֶת חֲבֵרוֹ יוֹצִיא וְלֹא יַחֲזִיר עוֹלָמִית, וּלְפִיכָךְ הוּא אֶצְלוֹ עוֹבֵר עֲבֵרָה כְּמוֹ יִשְׂרָאֵל שֶׁנָּשָׂא נְתִינָה וְהַדּוֹמוֹת לָהּ, וּלְפִיכָךְ לֹא יַשְׁקֶה אוֹתָהּ. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים שֶׁיְּגָרְשֶׁנָּה עַד תַּשְׁלוּם זְמַן הֲנָקָה, וְהוּא כ"ד חֳדָשִׁים... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר, וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים

Rambam explica que, para Rabi Meir, quem se casa com a grávida ou lactante de outro homem deve necessariamente separar-se dela para sempre — nunca podendo retomá-la —, o que equipara essa união a um casamento intrinsecamente proibido, como o de um israelita com uma netiná. Os Sábios discordam apenas quanto à duração da separação: ele deve afastar-se dela até o fim dos vinte e quatro meses de amamentação, podendo então retomá-la normalmente, o que preserva sua aptidão para o procedimento. Rambam conclui que a halachá segue os Sábios quanto a esse ponto, e também os Sábios — e não Rabi Eliezer — quanto à mulher estéril.

Bartenura · Sotá 4:3
אַיְלוֹנִית. דּוּכְרָנִיתָא דְּלֹא יָלְדָה: וְשֶׁאֵינָהּ רְאוּיָה לֵילֵד. שֶׁשָּׁתְתָה כּוֹס עֲקָרִין, וְאָסוּר לְקַיְּמָן לְמִי שֶׁאֵין לוֹ בָנִים

Bartenura define a ailonit como a mulher que, por natureza desde o ventre materno, nunca poderá gerar filhos, e explica a categoria "que não é própria para gerar" como referindo-se a quem bebeu uma poção esterilizante — proibida para quem ainda não teve filhos, precisamente porque o impede de cumprir o preceito de procriar através dela.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 24a), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 24a, sobre a mishná e a Guemará
מְעֻבֶּרֶת חֲבֵרוֹ - שֶׁמֵּת וְהִנִּיחָהּ מְעֻבֶּרֶת וּמֵנִיקָה, אוֹ שֶׁגֵּרְשָׁהּ וְהִיא מְעֻבֶּרֶת אוֹ מֵנִיקָה, וְאָסְרוּהָ חֲכָמִים לִנָּשֵׂא עַד שֶׁיְּהֵא הַוָּלָד בֶּן ב' שָׁנִים, שֶׁכָּךְ זְמַן יְנִיקָתוֹ, וְהָלַךְ זֶה וּנְשָׂאָהּ וְקִנֵּא לָהּ, לֹא שׁוֹתָה, שֶׁהֲרֵי אֵינָהּ רְאוּיָה לוֹ לְקַיְּמָהּ: יָכוֹל הוּא לְהַפְרִישָׁהּ - עַד כ"ד חֳדָשׁ וּלְהַחְזִירָהּ, הִלְכָּךְ רְאוּיָה לְאִישׁוּת קָרִינָא בֵּיהּ: אַיְלוֹנִית - דּוּכְרָנִיתָא דְּלֹא יָלְדָה, שֶׁמִּמְּעֵי אִמָּהּ נִבְרֵאת כָּךְ, וְאֵין לָהּ סִימָנֵי אִשָּׁה, לֹא דַּדִּים וְלֹא שְׂעָרוֹת, וְקוֹלָהּ עָבֶה: וְשֶׁאֵינָהּ רְאוּיָה לֵילֵד - שֶׁשָּׁתְתָה כּוֹס עִקָּרִין, וַאֲסוּרוֹת לְקַיְּמָן לְמִי שֶׁלֹּא קִיֵּים

Rashi descreve o cenário exato de "grávida ou lactante de outro": um homem cuja esposa anterior morreu ou foi divorciada enquanto grávida ou amamentando, situação em que os Sábios proibiram temporariamente novo casamento até a criança completar dois anos — o tempo natural de amamentação —, mas outro homem a desposou e a advertiu mesmo assim; ela não bebe, pois ainda não é própria para ser mantida por ele. Sobre a ailonit, Rashi acrescenta sinais físicos concretos da condição: ela é criada estéril desde o ventre materno, sem seios nem pelos característicos, e com voz grave — sinais que a identificam como fisicamente incapaz de gerar, e não apenas temporariamente impedida.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 4:3
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר מַה שֶּׁכָּתוּב בַּתּוֹרָה וְנִקְּתָה וְנִזְרְעָה זֶרַע, רוֹצֶה לוֹמַר תִּקּוּן זְרִיעָה, שֶׁתֵּלֵד בְּרֵיוַח אִם הָיְתָה מִנְהָגָהּ שֶׁתֵּלֵד בְּצַעַר, אוֹ תֵּלֵד זְכָרִים אִם הָיְתָה מִנְהָגָהּ שֶׁתֵּלֵד נְקֵבוֹת, לְפִיכָךְ לְפִי דַּעְתּוֹ אַיְלוֹנִית וּזְקֵנָה שׁוֹתוֹת

Rambam explica a base exegética de Rabi Eliezer: a expressão "será fecundada com semente" não descreve apenas a fertilidade em geral, mas um aprimoramento concreto no padrão reprodutivo da mulher — quem tinha partos difíceis passa a ter partos fáceis, quem gerava apenas filhas passa a gerar filhos. Sob essa leitura, mesmo a mulher já estéril por natureza tem algo real a ganhar com a bebida, o que basta para incluí-la no procedimento segundo Rabi Eliezer — embora, como Rambam nota, a halachá final não siga sua opinião.

Bartenura · רע״ב
Sotá 4:3
מְעֻבֶּרֶת חֲבֵרוֹ. שֶׁמֵּת אוֹ גֵּרְשָׁהּ וְהִנִּיחָהּ מְעֻבֶּרֶת אוֹ מֵנִיקָה. וַאֲסָרוּהָ חֲכָמִים לִנָּשֵׂא עַד שֶׁיִּהְיֶה הַוָּלָד בֶּן שְׁתֵּי שָׁנִים... יָכוֹל הוּא לְהַפְרִישָׁהּ. עַד עֶשְׂרִים וְאַרְבָּעָה חֳדָשִׁים וּלְהַחְזִירָהּ, הִלְכָּךְ רְאוּיָה לְאִישׁוּת קָרִינָא בָּהּ: רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר יָכוֹל הוּא לִשָּׂא אִשָּׁה אַחֶרֶת. וְיִהְיֶה מֻתָּר לְקַיֵּם אֶת זֹאת, הִלְכָּךְ רְאוּיָה לְאִישׁוּת הִיא. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר

Bartenura resume o mecanismo lógico que percorre toda a mishná: uma mulher só é "própria para ser mantida" — e portanto apta ao procedimento — se existe algum caminho legal pelo qual o marido possa efetivamente permanecer casado com ela. No caso da grávida ou lactante de outro, esse caminho existe: basta esperar o prazo de vinte e quatro meses. Já quanto à mulher estéril, Rabi Eliezer defende que o caminho também existe — o marido pode tomar uma segunda esposa fértil sem precisar se separar da primeira —, mas a halachá não segue sua opinião nesse ponto.