Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Dalet · Mishná 2 de 5

Quando ela recebe a ketubá sem beber

וְאֵלּוּ לֹא שׁוֹתוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná continua listando quem não bebe, mas agora distingue dois grupos: as que perdem tudo, e as que ao menos preservam o direito à ketubá — porque foi o próprio marido, e não elas, quem impediu o procedimento.

E estas não bebem nem recebem a ketubá: a que diz "impura sou", e aquela contra quem vieram testemunhas de que é impura, e a que diz "não bebo". Se o marido disse "não a farei beber", ou se o marido se deitou com ela no caminho, ela recebe sua ketubá e não bebe. Se os maridos morreram antes de elas beberem, Bet Shamai diz: recebem a ketubá e não bebem. E Bet Hilel diz: não bebem nem recebem a ketubá.A mishná distingue com precisão entre razões que anulam também a ketubá e razões que apenas cancelam a bebida. Se a própria mulher confessa sua impureza, ou se testemunhas comprovam que ela se contaminou, ou mesmo se ela simplesmente recusa beber por vontade própria, ela perde tanto a bebida quanto a ketubá — pois em todos esses casos foi ela quem, de um modo ou de outro, impediu o procedimento de se completar. Mas se é o próprio marido quem desiste de fazê-la beber, ou se ele mesmo, no caminho até o Templo, tem relações com ela — anulando com seu próprio ato a condição de "oculta" que gerou a suspeita —, então a culpa pela bebida não realizada é dele, não dela, e ela recebe sua ketubá integralmente. O último caso, dos maridos que morrem antes da bebida, gera uma disputa: para Bet Shamai, um documento de ketubá pendente de cobrança equivale a dinheiro já recebido, de modo que a viúva recebe sua ketubá mesmo sem ter bebido; para Bet Hilel, porém, já que ela não chegou a beber, ela também não recebe a ketubá, pois as duas coisas — a bebida e a ketubá — permanecem ligadas mesmo quando a interrupção não foi culpa dela.

וְאֵלּוּ לֹא שׁוֹתוֹת וְלֹא נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּה. הָאוֹמֶרֶת טְמֵאָה אָנִי, וְשֶׁבָּאוּ לָהּ עֵדִים שֶׁהִיא טְמֵאָה, וְהָאוֹמֶרֶת אֵינִי שׁוֹתָה. אָמַר בַּעְלָהּ אֵינִי מַשְׁקָהּ, וְשֶׁבַּעְלָהּ בָּא עָלֶיהָ בַדֶּרֶךְ, נוֹטֶלֶת כְּתֻבָּתָהּ וְלֹא שׁוֹתָה. מֵתוּ בַעֲלֵיהֶן עַד שֶׁלֹּא שָׁתוּ, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּה וְלֹא שׁוֹתוֹת. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, לֹא שׁוֹתוֹת וְלֹא נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Bet Hilel funda sua posição no próprio versículo que introduz o procedimento — o sujeito da ação é sempre o marido vivo, trazendo sua esposa até o sacerdote.

Bamidbar (Números) 5:15
וְהֵבִ֨יא הָאִ֣ישׁ אֶת־אִשְׁתּוֹ֮ אֶל־הַכֹּהֵן֒ וְהֵבִ֤יא אֶת־קׇרְבָּנָהּ֙ עָלֶ֔יהָ עֲשִׂירִ֥ת הָאֵיפָ֖ה קֶ֣מַח שְׂעֹרִ֑ים
E o homem trará sua esposa ao sacerdote, e trará sua oferenda por ela — um décimo de efá de farinha de cevada.

Bet Hilel lê "e o homem trará sua esposa" como condição indispensável: sem o marido vivo trazendo-a ativamente ao sacerdote, o procedimento nunca se completa, e por isso a viúva cujo marido morreu antes de bebê-la também não bebe. Bet Shamai concorda quanto à bebida em si — nesse ponto não há disputa —, mas entende que, por outro princípio, um documento de dívida ainda não cobrado (como a ketubá) já se considera, na prática, como se tivesse sido pago, o que basta para garantir à viúva o direito de recebê-la mesmo sem ter passado pelo procedimento completo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam resume o fundamento da disputa entre as duas escolas; Bartenura detalha cada uma das cláusulas da mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 4:2
בֵּית שַׁמַּאי סְבִירָא לְהוּ שְׁטָר הָעוֹמֵד לִגְבּוֹת כְּגָבוּי דָּמֵי, וּכְאִלּוּ תַּגִּיעַ זֶה הַמָּמוֹן לְיָדָהּ, וּלְפִיכָךְ נוֹטֶלֶת כְּתֻבָּתָהּ לְפִי דַּעְתָּם

Rambam resume em uma frase o princípio de Bet Shamai: um documento de dívida que ainda está apenas pendente de cobrança já é tratado, para efeitos legais, como se o dinheiro já tivesse chegado às mãos da credora. Aplicado à ketubá da viúva cujo marido morreu antes de ela beber, esse princípio basta para lhe garantir o pagamento — mesmo que, estritamente, ela nunca tenha passado pelo procedimento que determinaria se o merecia ou não.

Bartenura · Sotá 4:2
אָמַר בַּעְלָהּ אֵינִי מַשְׁקָהּ וְשֶׁבַּעְלָהּ בָּא עָלֶיהָ בַדֶּרֶךְ. שֶׁהוּא גוֹרֵם לָהּ שֶׁלֹּא תִשְׁתֶּה, נוֹטֶלֶת כְּתֻבָּתָהּ: מֵתוּ בַעֲלֵיהֶן. שֶׁל כָּל סוֹטוֹת הָרְאוּיוֹת לִשְׁתּוֹת, וְלֹא הִסְפִּיקוּ לְהַשְׁקוֹתָן עַד שֶׁמֵּתוּ

Bartenura sublinha o princípio que une os dois primeiros casos da segunda metade da mishná: em ambos, é o marido — desistindo da advertência ou tendo ele mesmo relações com ela no caminho — quem causa a não realização da bebida, e por isso a mulher não é penalizada com a perda da ketubá. Já o caso dos maridos que morrem trata especificamente das mulheres que, tendo sido advertidas e ocultado, já estavam prontas para beber, mas cuja bebida não pôde se realizar a tempo por causa da morte do marido.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 24a), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 24a, sobre a mishná e a Guemará
אָמַר בַּעְלָהּ אֵינִי מַשְׁקָהּ וְשֶׁבַּעְלָהּ בָּא עָלֶיהָ בַדֶּרֶךְ - שֶׁהוּא גָּרַם לָהּ שֶׁלֹּא תִשְׁתֶּה, נוֹטֶלֶת כְּתֻבָּתָהּ: מֵתוּ בַעֲלֵיהֶן - שֶׁל כָּל סוֹטוֹת הַנִּסְתָּרוֹת וּרְאוּיוֹת לִשְׁתּוֹת וְלֹא הִסְפִּיקוּ לְהַשְׁקוֹתָן כוּ': וְלֹא שׁוֹתוֹת - דְּבָעֵינַן וְהֵבִיא הָאִישׁ אֶת אִשְׁתּוֹ וְגוֹ': וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים אוֹ שׁוֹתוֹת אוֹ לֹא נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּה - כְּלוֹמַר מִתּוֹךְ שֶׁלֹּא שׁוֹתוֹת לֹא נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּה, וּבַגְּמָרָא מְפָרֵשׁ פְּלֻגְתַּיְיהוּ

Rashi confirma que, nos dois primeiros casos, é o marido quem provoca a não realização da bebida — seja desistindo de fazê-la beber, seja tendo ele mesmo relações com ela pelo caminho — e por isso ela recebe a ketubá integralmente. Sobre a disputa das viúvas cujos maridos morreram, Rashi explica que Bet Hilel se apoia diretamente no versículo "e o homem trará sua esposa", que exige a ação ativa de um marido vivo para que o procedimento sequer se inicie; a fundamentação completa do debate, nota Rashi, é desenvolvida na própria Guemará.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 4:2
בֵּית שַׁמַּאי סְבִירָא לְהוּ שְׁטָר הָעוֹמֵד לִגְבּוֹת כְּגָבוּי דָּמֵי, וּכְאִלּוּ תַּגִּיעַ זֶה הַמָּמוֹן לְיָדָהּ, וּלְפִיכָךְ נוֹטֶלֶת כְּתֻבָּתָהּ לְפִי דַּעְתָּם

Rambam explica que a disputa entre as duas escolas gira em torno de um único princípio: se um documento de dívida ainda não cobrado equivale, na prática, a dinheiro já recebido. Bet Shamai aplica esse princípio à ketubá da viúva, considerando-a como já paga mesmo sem o procedimento completo; Bet Hilel, ao contrário — como a Guemará desenvolve —, exige que a bebida efetivamente ocorra, ou ao menos que a mulher esteja pronta para ela sem impedimento por parte do marido, para que a ketubá seja devida.

Bartenura · רע״ב
Sotá 4:2
בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּה. דִּשְׁטָר הָעוֹמֵד לִגָּבוֹת כְּגָבוּי דָּמֵי: וְלֹא שׁוֹתוֹת. דִּכְתִיב וְהֵבִיא הָאִישׁ אֶת אִשְׁתּוֹ: וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים לֹא שׁוֹתוֹת וְלֹא נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּתָן. כְּלוֹמַר מִתּוֹךְ שֶׁלֹּא שׁוֹתוֹת אֵין נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּתָן, דִּשְׁטָר הָעוֹמֵד לִגָּבוֹת לָאו כְּגָבוּי דָּמֵי

Bartenura resume a disputa em sua formulação mais direta: os dois lados concordam que, sem o marido vivo trazendo-a ao sacerdote, a bebida não pode ocorrer. A diferença está apenas na ketubá — Bet Shamai a concede, tratando o documento pendente como já pago; Bet Hilel a nega, considerando que, sem a bebida efetiva, também não há direito à ketubá, pois um documento pendente de cobrança não equivale, para eles, a dinheiro já recebido.