Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Dalet · Mishná 1 de 5

Abrindo o Perek Dalet: quem está isenta de beber

אֲרוּסָה וְשׁוֹמֶרֶת יָבָם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Dalet, a mishná lista mulheres que, embora tecnicamente casadas ou vinculadas a um homem, estão excluídas do procedimento das águas amargas por não serem "próprias para permanecer" com aquele homem — nem bebem, nem, se recusarem, perdem a ketubá.

A noiva e a que aguarda o levirato não bebem nem recebem a ketubá, pois está dito: que a mulher se desvie sob seu marido — excluindo a noiva e a que aguarda o levirato. A viúva para o sumo sacerdote, a divorciada e a que passou pela chalitzá para o sacerdote comum, a mamzeret e a netiná para um israelita, e a filha de israelita para um mamzer ou para um natin, não bebem nem recebem a ketubá.A mishná abre o perek explicando quem está fora do alcance do procedimento das águas amargas, e por quê. A noiva ainda não vive sob o mesmo teto que seu futuro marido, e a cunhada que aguarda o levirato ainda não foi tomada por seu cunhado como esposa efetiva — nenhuma das duas está, no sentido pleno da expressão bíblica, "sob seu marido". Por isso, se um destes homens a advertir e ela se ocultar com outro, ela não bebe as águas nem, caso se recuse a beber, perde sua ketubá por essa recusa. A mesma isenção se aplica a seis outras uniões que a Torá já qualifica como proibidas desde o início: a viúva casada com o sumo sacerdote, a divorciada ou a chalutzá casadas com um sacerdote comum, a mamzeret ou a netiná casadas com um israelita comum, e a filha de israelita casada com um mamzer ou com um natin. Em todos esses casos, o casamento em si já carrega uma proibição, e por isso a mulher, mesmo advertida e mesmo tendo se ocultado, não bebe — e também não recebe sua ketubá, pois foi ela mesma quem, ao se ocultar após a advertência, deu causa à proibição que agora recai sobre ela.

אֲרוּסָה וְשׁוֹמֶרֶת יָבָם, לֹא שׁוֹתוֹת וְלֹא נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּה, שֶׁנֶּאֱמַר (במדבר ה), אֲשֶׁר תִּשְׂטֶה אִשָּׁה תַּחַת אִישָׁהּ, פְּרָט לַאֲרוּסָה וְשׁוֹמֶרֶת יָבָם. אַלְמָנָה לְכֹהֵן גָּדוֹל, גְּרוּשָׁה וַחֲלוּצָה לְכֹהֵן הֶדְיוֹט, מַמְזֶרֶת וּנְתִינָה לְיִשְׂרָאֵל, וּבַת יִשְׂרָאֵל לְמַמְזֵר וּלְנָתִין, לֹא שׁוֹתוֹת וְלֹא נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A mishná ancora a isenção da noiva e da que aguarda o levirato no versículo que resume toda a lei das águas amargas, ao final da perashá.

Bamidbar (Números) 5:29
זֹ֥את תּוֹרַ֖ת הַקְּנָאֹ֑ת אֲשֶׁ֨ר תִּשְׂטֶ֥ה אִשָּׁ֛ה תַּ֥חַת אִישָׁ֖הּ וְנִטְמָֽאָה׃
Esta é a lei das ciúmes: quando a mulher se desviar sob seu marido e se contaminar.

A expressão "sob seu marido" (תַּחַת אִישָׁהּ) é lida como referindo-se à mulher que já vive de fato sob a autoridade e o teto de seu marido — excluindo, segundo a leitura de Bartenura, tanto a noiva ainda não desposada quanto a cunhada que ainda aguarda ser tomada pelo levir. As demais seis uniões da mishná — todas proibidas de saída pela Torá em diferentes versículos de Vayikrá e Devarim — são excluídas por outro princípio: o versículo fala de uma mulher "própria para permanecer" com seu marido, e nenhuma dessas seis relações é, desde o início, uma relação que a Torá permite manter.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que essas mulheres mantêm o direito à ketubá apesar da união proibida; Bartenura detalha o raciocínio por trás da exclusão de cada categoria.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 4:1
עוֹד יִתְבָּאֵר לְךָ כְּשֶׁאָדָם בָּעַל אַחַר שֶׁהִגְדִּיל בְּעִילָה אֲסוּרָה אֵי זֶה אִסּוּר שֶׁיִּהְיֶה הַמַּיִם הַמְאָרְרִים אֵין עוֹשִׂין רֹשֶׁם בְּאִשְׁתּוֹ. לְפִיכָךְ אַלְמָנָה לְכֹהֵן גָּדוֹל וְהַדּוֹמֶה לָהּ בְּשֶׁנִּתְבָּאֵר עֲלֵיהֶם הַקִּנּוּי וְהַסְּתִירָה כְּמוֹ שֶׁבֵּאַרְנוּ, יוֹצֵאת בְּלֹא כְתֻבָּה, לְפִי שֶׁיֵּשׁ לָהֶן כְּתֻבָּה, וְאַף עַל פִּי שֶׁנִּשּׂוּאֵיהֶן בְּאִסּוּר

Rambam observa que, sempre que alguém convive maritalmente com uma proibição significativa, as águas amargas simplesmente não têm efeito sobre a mulher — ainda que ela tenha sido advertida e se ocultado. Por isso, a viúva casada com o sumo sacerdote e as demais mulheres desta lista, mesmo quando passam por advertência e ocultação, saem sem receber a ketubá: elas normalmente têm direito a essa ketubá, apesar de seu casamento ser proibido, mas a perdem justamente porque foi sua própria ocultação que causou o problema.

Bartenura · Sotá 4:1
אֲרוּסָה וְשׁוֹמֶרֶת יָבָם. אֲרוּסָה שֶׁקִּנֵּא לָהּ אָרוּס וְשׁוֹמֶרֶת יָבָם שֶׁקִּנֵּא לָהּ יָבָם: לֹא שׁוֹתוֹת. דְּמַעֲטִינְהוּ קְרָא: וְלֹא נוֹטְלוֹת כְּתֻבָּה. שֶׁהִיא גָרְמָה לֶאֱסֹר עַצְמָהּ עָלָיו, שֶׁנִּסְתְּרָה אַחַר קִנּוּי

Bartenura esclarece que a mishná trata do caso em que o próprio noivo advertiu sua noiva, ou o próprio cunhado advertiu a cunhada que aguarda dele o levirato, e mesmo assim o versículo as exclui da bebida. Elas também não recebem a ketubá — não porque a bebida as tenha isentado de algo que lhes seria devido, mas porque foi a própria ocultação, depois da advertência, que criou a proibição que agora paira sobre elas, ainda que essa proibição jamais possa ser testada pelas águas.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Abrindo o Perek Dalet, perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 24a), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 24a, sobre a mishná e a Guemará
נְתִינָה - מִן הַגִּבְעוֹנִים וַאֲסוּרִין לָבֹא בְּיִשְׂרָאֵל, כִּדְאָמְרִינַן בִּיבָמוֹת (דַּף עח:) דָּוִד גָּזַר עֲלֵיהֶן: לֹא שׁוֹתוֹת - דְּלֹא נֶאֶמְרָה פָּרָשָׁה אֶלָּא בָּרְאוּיָה לְקַיְּמָהּ, וְהָכִי תַּנְיָא בְּסִפְרֵי, כִּי תִשְׂטֶה אִשְׁתּוֹ, בָּרְאוּיָה לְאִישׁוּת הַכָּתוּב מְדַבֵּר, פְּרָט לְאַלְמָנָה לְכֹהֵן גָּדוֹל וְכוּ'

Rashi identifica a netiná como descendente dos guivonitas, um povo que Davi decretou proibido de se integrar ao povo de Israel — daí sua união com um israelita já nascer proibida. Sobre a exclusão geral dessas seis categorias, Rashi cita a baraita dos Sifrei: a perashá das águas amargas só foi dita a respeito de uma mulher "própria para ser mantida" por seu marido — ou seja, cujo casamento é, em si, permitido —, excluindo explicitamente, entre outras, a viúva casada com o sumo sacerdote.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 4:1
עוֹד יִתְבָּאֵר לְךָ כְּשֶׁאָדָם בָּעַל אַחַר שֶׁהִגְדִּיל בְּעִילָה אֲסוּרָה אֵי זֶה אִסּוּר שֶׁיִּהְיֶה, הַמַּיִם הַמְאָרְרִים אֵין עוֹשִׂין רֹשֶׁם בְּאִשְׁתּוֹ. לְפִיכָךְ אַלְמָנָה לְכֹהֵן גָּדוֹל וְהַדּוֹמֶה לָהּ ... יוֹצֵאת בְּלֹא כְתֻבָּה, לְפִי שֶׁיֵּשׁ לָהֶן כְּתֻבָּה וְאַף עַל פִּי שֶׁנִּשּׂוּאֵיהֶן בְּאִסּוּר, כְּמוֹ שֶׁנִּתְבָּאֵר בְּסוֹף פֶּרֶק אַחַד עָשָׂר מִכְּתֻבּוֹת

Rambam formula o princípio geral por trás de toda a lista: sempre que um homem vive com sua esposa apesar de uma proibição já estabelecida — qualquer que seja — as águas amargas não têm efeito algum sobre ela, pois a própria instituição do procedimento pressupõe um casamento válido e permitido. Rambam remete ainda ao final do décimo primeiro perek de Ketubot, onde já havia explicado que essas mulheres, apesar do casamento proibido, normalmente têm direito à sua ketubá — o que torna relevante a mishná esclarecer que, neste caso específico, elas a perdem.

Bartenura · רע״ב
Sotá 4:1
אֲרוּסָה וְשׁוֹמֶרֶת יָבָם. אֲרוּסָה שֶׁקִּנֵּא לָהּ אָרוּס וְשׁוֹמֶרֶת יָבָם שֶׁקִּנֵּא לָהּ יָבָם: תַּחַת אִישָׁהּ. בְּיוֹשֶׁבֶת תַּחְתָּיו הַכָּתוּב מְדַבֵּר: נְתִינָה. מִן הַגִּבְעוֹנִים, וַאֲסוּרִים לָבֹא בַּקָּהָל: לֹא שׁוֹתוֹת. דְּלֹא נֶאֶמְרָה פָּרָשָׁה אֶלָּא בָּרְאוּיָה לְקַיְּמָהּ, דִּכְתִיב כִּי תִשְׂטֶה אִשְׁתּוֹ, בָּרְאוּיָה לְאִישׁוּת הַכָּתוּב מְדַבֵּר, פְּרָט לְאַלְמָנָה לְכֹהֵן גָּדוֹל וְכוּ'

Bartenura precisa a leitura de "sob seu marido": o versículo fala da mulher que já se assenta sob a autoridade de seu marido, o que exclui de saída a noiva e a cunhada ainda não tomadas em levirato efetivo. Sobre a netiná, explica que se trata de descendente dos guivonitas, proibidos de se integrar ao povo. E repete, como Rashi, o princípio dos Sifrei: a parashá das águas amargas só se aplica a uma mulher "própria para ser mantida" por seu marido, o que exclui, entre outras, a viúva casada com o sumo sacerdote.