Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Guimel · Mishná 3 de 8

Antes e depois de apagado o pergaminho: os limites da recusa

עַד שֶׁלֹּא נִמְחֲקָה הַמְּגִלָּה אָמְרָה אֵינִי שׁוֹתָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná distingue três momentos possíveis para a recusa ou a confissão da mulher em relação ao apagamento do pergaminho da maldição na água, e as consequências práticas de cada um deles para o pergaminho, para a oferenda e para a própria bebida.

Se antes de apagado o pergaminho ela disse "não bebo", seu pergaminho é guardado, e sua oferenda se espalha sobre as cinzas, e seu pergaminho não é válido para dar de beber a outra sotá. Se apagado o pergaminho ela disse "sou impura", as águas se derramam e sua oferenda se espalha sobre as cinzas. Se apagado o pergaminho ela disse "não bebo", ela é contestada e forçada a beber contra sua vontade.A mishná traça a linha divisória exata entre o momento em que a mulher ainda pode recuar do procedimento e o momento em que já não pode. Enquanto o pergaminho — que contém o texto da maldição escrito especificamente para ela — ainda não foi dissolvido na água, uma recusa dela em beber é respeitada: o processo simplesmente é interrompido, o pergaminho é guardado por não poder mais ser reaproveitado, e a oferenda de farinha, já santificada no vaso, é queimada nas cinzas do altar sem ser comida pelos sacerdotes. Mas uma vez apagado o pergaminho, a situação muda radicalmente: se ela então confessa sua impureza, não há mais razão para dar-lhe de beber — a água só serve para esclarecer uma dúvida real, e ela mesma acabou de eliminar a dúvida — de modo que as águas são derramadas e a oferenda igualmente queimada. Mas se, depois de apagado o pergaminho, ela simplesmente recusa-se a beber sem confessar nada, a recusa já não é respeitada: contesta-se sua hesitação, presumindo que o medo é que a faz vacilar e não uma culpa real, e ela é forçada a beber contra sua vontade.

עַד שֶׁלֹּא נִמְחֲקָה הַמְּגִלָּה אָמְרָה אֵינִי שׁוֹתָה, מְגִלָּתָהּ נִגְנֶזֶת, וּמִנְחָתָהּ מִתְפַּזֶּרֶת עַל הַדָּשֶׁן. וְאֵין מְגִלָּתָהּ כְּשֵׁרָה לְהַשְׁקוֹת בָּהּ סוֹטָה אַחֶרֶת. נִמְחֲקָה הַמְּגִלָּה וְאָמְרָה טְמֵאָה אָנִי, הַמַּיִם נִשְׁפָּכִין וּמִנְחָתָהּ מִתְפַּזֶּרֶת עַל הַדָּשֶׁן. נִמְחֲקָה הַמְּגִלָּה וְאָמְרָה אֵינִי שׁוֹתָה, מְעַרְעֲרִים אוֹתָהּ וּמַשְׁקִין אוֹתָהּ בְּעַל כָּרְחָהּ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

O próprio apagamento do pergaminho na água amarga é uma ordem explícita da Torá em Bamidbar 5, sendo o eixo em torno do qual gira toda a distinção temporal desta mishná.

Bamidbar (Números) 5:23-24
וְ֠כָתַ֠ב אֶת־הָאָלֹ֥ת הָאֵ֛לֶּה הַכֹּהֵ֖ן בַּסֵּ֑פֶר וּמָחָ֖ה אֶל־מֵ֥י הַמָּרִֽים׃ וְהִשְׁקָה֙ אֶת־הָ֣אִשָּׁ֔ה אֶת־מֵ֥י הַמָּרִ֖ים הַמְאָֽרְרִ֑ים וּבָ֥אוּ בָ֛הּ הַמַּ֥יִם הַֽמְאָרְרִ֖ים לְמָרִֽים׃
E o sacerdote escreverá estas maldições no livro, e as apagará nas águas amargas. E fará a mulher beber as águas amargas que causam a maldição, e as águas que causam a maldição entrarão nela para amargor.

Bartenura nota que a exigência de que o pergaminho seja escrito "para ela" — especificamente para aquele caso — está por trás de dois detalhes desta mishná: por que o pergaminho já iniciado não pode ser reaproveitado para outra sotá, e por que, antes de sua dissolução completa na água, o processo ainda pode ser interrompido pela vontade da própria mulher. A dissolução física das letras na água é o ponto de não retorno ritual: a partir daquele momento, o texto sagrado que constituía o pergaminho já não existe mais como objeto separado, e a mulher está processualmente comprometida com a bebida, não podendo mais recuar por mera recusa.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Perush HaMishná de Rambam não chegou completo a esta mishná específica; a halachá é apresentada aqui com base em Bartenura, rotulado honestamente como fonte principal.

Bartenura · Sotá 3:3 (fonte principal desta mishná)
וְאֵין מְגִלָּתָהּ כְּשֵׁרָה לְהַשְׁקוֹת [בָּהּ] סוֹטָה אַחֶרֶת. דְּבָעִינַן כְּתִיבָה לִשְׁמָהּ, דִּכְתִיב וְעָשָׂה לָהּ הַכֹּהֵן, כָּל עֲשִׂיָּתָהּ לִשְׁמָהּ: הַמַּיִם נִשְׁפָּכִין. דְּכֵיוָן דְּאָמְרָה טְמֵאָה אֲנִי, בְּדוּקָה וְעוֹמֶדֶת הִיא. וּמַיִם הַמָּרִים לֹא נִתְּנוּ אֶלָּא לְבָרֵר בָּהֶם אֶת הַסָּפֵק: מְעַרְעֲרִים אוֹתָהּ. דְּדִלְמָא טְהוֹרָה הִיא, וּמֵחֲמַת בְּעִיתוּתָא קָאָמְרָה

Bartenura explica cada uma das três leis: o pergaminho não pode ser reaproveitado porque toda a escrita e todo o processo devem ser feitos especificamente para aquela mulher — exigência derivada da expressão bíblica "e o sacerdote fará para ela". As águas se derramam quando a mulher confessa impureza depois de apagado o pergaminho, porque, uma vez confessada a impureza, ela já está comprovadamente proibida ao marido, e as águas amargas só existem para esclarecer dúvidas — não há mais dúvida a esclarecer. E quando ela recusa beber sem confessar, depois de já apagado o pergaminho, ela é contestada e persuadida a beber, porque talvez seja pura e sua recusa venha apenas do medo — não de culpa real — e por isso, ao final, é forçada a beber contra sua vontade.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 20a) e Bartenura; o Perush HaMishná de Rambam não foi localizado para esta mishná específica, e por isso não é citado nesta seção.

Rashi · רש״י
Sotá 20a, sobre a mishná
מתני' מגילתה נגנזת - בצדי ההיכל, דכל כתבי הקדש שאינן ראויין לקרות בהן נגנזין שלא יתבזו: ואין מגילתה כשירה להשקות בה סוטה אחרת - דבעינן כתיבה לשמה, דכתיב ועשה לה הכהן, לה לשמה: המים נשפכין - כיון דאמרה טמאה אני, בדוקה ועומדת היא, ומים המרים לא ניתנו אלא לברר את הספק: מערערין אותה - דדלמא טהורה היא ומחמת רתיתותה קאמרה

Rashi acrescenta um detalhe prático: o pergaminho guardado, por ser um escrito sagrado que já não é apto para uso ritual, não pode simplesmente ser descartado — é depositado num compartimento lateral do Templo, junto com outros textos sagrados fora de uso, para que não seja tratado com desrespeito. Quanto à recusa depois de apagado o pergaminho, Rashi explica com precisão a lógica de "contestá-la": talvez ela seja realmente pura, e o tremor visível de sua recusa venha apenas do pavor natural do momento — do próprio ritual solene diante do altar — e não de uma consciência de culpa. Por isso ela é persuadida com palavras antes de, ao final, ser forçada a beber.

Bartenura · רע״ב
Sotá 3:3
מְגִלָּתָהּ נִגְנֶזֶת. בְּצַד הַהֵיכָל: וּמִנְחָתָהּ מִתְפַּזֶּרֶת עַל הַדָּשֶׁן. וְנִשְׂרֶפֶת עַל בֵּית הַדֶּשֶׁן שֶׁהָיָה בָּעֲזָרָה שֶׁשּׂוֹרְפִים שָׁם פְּסוּלֵי קָדְשֵׁי קָדָשִׁים, דְּהוֹאִיל וְקָדְשָׁה בִּכְלִי שָׁרֵת טְעוּנָה שְׂרֵפָה בָּעֲזָרָה

Bartenura esclarece que "espalhar-se sobre as cinzas" é uma forma de dizer que a oferenda era queimada no local da עזרה reservado à queima de oferendas sagradas desqualificadas — pois, tendo já sido santificada dentro de um vaso de serviço do Templo, a oferenda não pode simplesmente ser descartada ou redimida como se fosse leiga: sua santidade exige que seja consumida pelo fogo dentro do próprio recinto sagrado, ainda que não sirva mais ao seu propósito original de ser oferecida no altar e comida pelos sacerdotes.