Ela não chega a terminar de beber antes que seu rosto amareleça e seus olhos saltem e ela se encha de veias, e dizem: "tirem-na, tirem-na", para que não contamine o pátio. Se ela tem mérito, ele lhe adia o castigo. Há mérito que adia um ano, há mérito que adia dois anos, há mérito que adia três anos. Daqui diz Ben Azzai: o homem é obrigado a ensinar sua filha Torá, para que, se ela beber, saiba que o mérito lhe adia o castigo. Rabi Eliezer diz: quem ensina sua filha Torá, é como se lhe ensinasse leviandade. Rabi Yehoshua diz: a mulher prefere um kav com leviandade a nove kavim com abstinência. Ele costumava dizer: o piedoso tolo, o perverso astuto, a mulher recatada em excesso, e os golpes dos recatados — eis os que destroem o mundo. — Se a mulher realmente pecou, o efeito das águas amargas é rápido e visível diante de todos: ela nem chega a terminar de bebê-las, e já seu rosto perde a cor, seus olhos incham para fora e todo o seu corpo se enche de veias salientes — sinais tão evidentes que os presentes, temendo que ela morra ali mesmo e contamine o pátio sagrado do Templo com um cadáver, pedem que a retirem imediatamente. Mas a mishná introduz uma ressalva importante: se a mulher acumulou algum mérito — especialmente o mérito do estudo da Torá — esse mérito pode suspender temporariamente o efeito da água, adiando o castigo por um, dois ou até três anos, conforme a magnitude do mérito. É desse princípio que Ben Azzai extrai sua posição célebre: já que existe a possibilidade real de uma mulher beber e não morrer imediatamente por causa de algum mérito acumulado, todo pai é obrigado a ensinar Torá à sua filha, para que ela mesma compreenda, se um dia passar por essa provação, que sua sobrevivência não significa inocência automática, mas sim mérito que apenas adiou o inevitável. Rabi Eliezer discorda radicalmente: para ele, o conhecimento da Torá pode ser usado por uma mulher com más intenções como instrumento de sofisticação para dissimular sua conduta, e por isso equivale, em suas mãos, a ensinar-lhe astúcia moralmente perigosa. Rabi Yehoshua, por fim, observa a natureza humana com ironia: a mulher, em geral, prefere uma vida mais simples e com afeto conjugal presente a uma vida de fartura acompanhada de reclusão e frieza — e conclui com uma lista de tipos sociais problemáticos: o piedoso que age com tolice em vez de sabedoria prática, o perverso que manipula com esperteza, a mulher que se isola com austeridade fingida, e os que se ferem fisicamente para parecer piedosos — todos eles, à sua maneira, corrompem a vida em sociedade.
O efeito físico das águas e a possibilidade de que o mérito o adie estão na continuação direta da passagem da sotá em Bamidbar 5.
A mishná constrói a doutrina do mérito que adia o castigo a partir de uma leitura cuidadosa da ordem das cláusulas neste versículo: entre a bebida das águas e o inchaço efetivo do ventre, a Torá insere a condição "se ela se contaminou" — uma abertura textual que, segundo a Guemará, permite que o efeito da água não seja instantâneo em todos os casos, mas dependa de fatores adicionais, entre eles o mérito acumulado pela mulher. É sobre essa mesma passagem que se apoia, indiretamente, o debate sobre ensinar Torá às filhas: para Ben Azzai, o próprio texto que descreve o adiamento do castigo já pressupõe que a mulher precisa ser capaz de compreender o sentido espiritual de sua própria sobrevivência — o que só é possível através do conhecimento da Torá.
Rambam, no Perush HaMishná, esclarece o debate central sobre ensinar Torá às mulheres e a razão pela qual a lei não segue Ben Azzai; Bartenura acrescenta os exemplos concretos citados na Guemará para cada um dos tipos mencionados por Rabi Yehoshua.
Rambam esclarece que o "mérito" mencionado na mishná é especificamente o mérito do estudo da Torá — mesmo que a mulher não esteja formalmente obrigada a esse estudo, pois o mandamento de "ensinar a vossos filhos" (Devarim 11) é dirigido, segundo a leitura tradicional, aos filhos homens e não às filhas. Rambam também esclarece o sentido do debate entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre os tipos que "destroem o mundo": trata-se de pessoas cuja piedade ou reclusão aparentes são, na realidade, formas veladas de buscar reconhecimento social ou vantagem própria, sem verdadeira devoção interior — sendo o modelo autêntico de reclusão, para Rambam, apenas aquele motivado por amor genuíno a D'us, como Avraham Avinu. Ao final, Rambam decide explicitamente que a lei prática não segue Ben Azzai.
Bartenura traz os exemplos concretos da Guemará: o "piedoso tolo" é aquele que, vendo uma mulher se afogando, recusa-se a salvá-la sob o pretexto de que não é decoroso olhar para uma mulher — confundindo etiqueta com piedade, a ponto de deixá-la morrer. O "perverso astuto" é aquele que corre ao juiz antes que a parte contrária chegue, para implantar sua versão dos fatos primeiro e dificultar que o juiz mude de opinião depois — manipulação disfarçada de zelo processual. A "mulher recatada em excesso" é exemplificada pela feiticeira que retém magicamente o parto de outras mulheres em sofrimento, para depois fingir que sua oração as libertou — usando aparência de santidade para explorar a angústia alheia.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 20a-21b), Rambam e Bartenura.
Rashi descreve fisicamente os sinais do castigo: as veias do rosto incham visivelmente, como se toda a pele se tornasse uma rede de linhas salientes — a Guemará compara essas marcas a "varas jogadas sobre ela". Sobre "não contamine o pátio", Rashi esclarece que a preocupação não é a impureza cadavérica genérica, mas especificamente que ela morra próxima ao Portão de Nicanor ou ao pátio das mulheres — áreas por onde ela deveria sair — antes de conseguir se retirar completamente. Quanto ao debate sobre ensinar Torá, Rashi registra a reação espantada da Guemará à posição de Rabi Eliezer: "Ensinar-lhe leviandade, é possível? Acaso a Torá chamaria a si mesma de leviandade?" — sugerindo que mesmo os sábios enxergavam tensão real na posição de Rabi Eliezer, que a Guemará depois explica mais detidamente: não que a Torá em si seja leviandade, mas que uma mulher astuta pode usar seu conhecimento da Torá para dissimular condutas impróprias com mais sofisticação.
Rambam identifica a autoria implícita da primeira cláusula da mishná — a descrição do efeito imediato das águas — como sendo a posição de Rabi Akiva, que também sustenta que a oferenda deve ser oferecida antes da bebida das águas, como Rabi Shimon na mishná anterior; mas essa não é a lei prática. Sobre o debate de Ben Azzai, Rambam observa que a expressão "ensinar-lhe leviandade" na boca de Rabi Eliezer é uma forma retórica exagerada — "palavras de exagero e de parábola" — não uma afirmação literal de que a Torá seja leviandade, mas uma advertência sobre o risco de conhecimento mal empregado. Rambam também nota, en passant, uma tradição paralela do Talmude Yerushalmi sobre quem pratica um ato do qual está isento sendo chamado de "hedyot" (leigo, sem refinamento).
Bartenura precisa o tipo de mérito que adia o castigo, segundo a Guemará: não qualquer boa ação genérica, mas mérito ligado especificamente ao apoio à Torá — como a mulher que leva seus filhos à escola ou que aguarda pacientemente o marido que saiu para estudar fora da cidade. Sobre a posição de Rabi Eliezer, Bartenura explica com franqueza o receio subjacente: o próprio conhecimento da Torá pode refinar a capacidade de dissimulação de uma mulher com más intenções, permitindo-lhe agir com mais discrição e sofisticação em condutas impróprias — daí a comparação, severa mas específica, a "ensinar leviandade".