Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Guimel · Mishná 2 de 8

A ordem entre a oferenda e a bebida das águas

הֵנִיף וְהִגִּישׁ, קָמַץ וְהִקְטִיר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná completa a descrição do serviço da oferenda e registra a disputa entre os sábios e Rabi Shimon sobre a ordem entre dar de beber as águas amargas e oferecer a oferenda de farinha da sotá no altar.

Ele moveu e aproximou, tirou o punhado e queimou, e o restante era comido pelos sacerdotes. Ele dava de beber e depois oferecia sua oferenda; Rabi Shimon diz: ele oferecia sua oferenda e depois dava de beber, pois está dito: "e depois fará a mulher beber as águas." Se ele deu de beber e depois ofereceu sua oferenda, é válida.Depois da tenufá conjunta descrita na mishná anterior, o sacerdote aproximava a oferenda do canto sudoeste do altar, retirava um punhado dela e o queimava — o restante, não queimado, cabia aos sacerdotes como alimento, à semelhança de toda oferenda de farinha comum. Quanto à ordem entre dar as águas amargas e oferecer a oferenda, os sábios sustentam que primeiro se dava de beber e só depois se oferecia a oferenda no altar; Rabi Shimon inverte essa ordem, fundamentando-se no próprio texto da Torá, que menciona a queima do punhado antes de mencionar "e depois fará a mulher beber as águas" — sequência que, para ele, é normativa e não apenas descritiva. Rabi Shimon reconhece, porém, que se na prática o sacerdote inverteu a ordem e deu de beber primeiro, o procedimento continua válido.

הֵנִיף וְהִגִּישׁ, קָמַץ וְהִקְטִיר, וְהַשְּׁאָר נֶאֱכָל לַכֹּהֲנִים. הָיָה מַשְׁקָהּ וְאַחַר כָּךְ מַקְרִיב אֶת מִנְחָתָהּ. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, מַקְרִיב אֶת מִנְחָתָהּ וְאַחַר כָּךְ הָיָה מַשְׁקָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר וְאַחַר יַשְׁקֶה אֶת הָאִשָּׁה אֶת הַמָּיִם. אִם הִשְׁקָהּ וְאַחַר כָּךְ הִקְרִיב אֶת מִנְחָתָהּ, כְּשֵׁרָה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A disputa entre os sábios e Rabi Shimon gira em torno da sequência exata em que Bamidbar 5 descreve a queima da oferenda e a bebida das águas.

Bamidbar (Números) 5:26
וְקָמַ֨ץ הַכֹּהֵ֤ן מִן־הַמִּנְחָה֙ אֶת־אַזְכָּ֣רָתָ֔הּ וְהִקְטִ֖יר הַמִּזְבֵּ֑חָה וְאַחַ֛ר יַשְׁקֶ֥ה אֶת־הָאִשָּׁ֖ה אֶת־הַמָּֽיִם׃
E o sacerdote tirará da oferenda o seu punhado memorial e o queimará no altar, e depois fará a mulher beber as águas.

Bartenura explica que há, na realidade, três menções à bebida das águas na passagem da sotá — uma antes desta, referente à etapa em que o pergaminho é apagado, e uma depois, no versículo seguinte — e que a expressão específica "e depois fará beber", vinda logo após a menção da queima, é o que fundamenta a posição de Rabi Shimon de que a queima precede necessariamente a bebida. Os sábios, por sua vez, entendem que os versículos redundantes servem para ensinar outras leis do procedimento, e não fixam uma ordem obrigatória entre queima e bebida — sendo por isso que, na prática, mesmo a ordem invertida é considerada válida.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Perush HaMishná de Rambam não chegou completo a esta mishná específica; por isso, a halachá é apresentada aqui com base em Bartenura, que detalha a leitura das três menções da bebida no versículo bíblico — rotulado honestamente como fonte principal nesta mishná.

Bartenura · Sotá 3:2 (fonte principal desta mishná)
הָיָה מַשְׁקָהּ וְאַחַר כָּךְ מַקְרִיב אֶת מִנְחָתָהּ. תְּלָתָא קְרָאֵי כְּתִיבֵי. וְהִשְׁקָהּ קַמָּא, וְאַחַר יַשְׁקֶה, וְהִשְׁקָהּ בַּתְרָא... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן

Bartenura explica que há três menções da bebida das águas no texto bíblico, cada uma ensinando uma lei distinta: a primeira, referente à bebida logo após apagar o pergaminho e antes da queima da oferenda; a expressão "e depois fará beber", que aparentemente indica que a bebida vem sempre depois da queima; e uma terceira menção, que ensina que, se o pergaminho já foi apagado e a mulher se recusa a beber, ela é forçada a fazê-lo contra sua vontade. Como o primeiro versículo já fixa seu próprio ensinamento independente, os sábios concluem que o segundo versículo, "e depois fará beber", não precisa ser lido como fixando uma ordem obrigatória — permitindo, na prática, que a bebida preceda a oferenda. A lei segue os sábios, não Rabi Shimon.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 19a) e Bartenura; o Perush HaMishná de Rambam não foi localizado para esta mishná específica, e por isso não é citado nesta seção.

Rashi · רש״י
Sotá 19a, sobre a mishná
ואח"כ מקריב - בגמרא פריך הא תנא ליה והקטיר ומה יקריב עוד לאחר הקטרה: פלוגתא דרבנן ור' שמעון בגמרא ילפינן לה מקראי

Rashi nota uma dificuldade textual explorada na Guemará: se a mishná já disse "queimou", que sentido faz dizer em seguida "e depois oferecia sua oferenda" — não haveria mais nada a oferecer após a queima do punhado? A Guemará resolve a dificuldade explicando que a expressão final da mishná se refere não à oferenda em si, mas à ordem entre a bebida e o conjunto do serviço da oferenda como um todo. Rashi remete à Guemará para o desenvolvimento completo da disputa entre os sábios e Rabi Shimon a partir dos versículos.

Bartenura · רע״ב
Sotá 3:2
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר מַקְרִיב אֶת מִנְחָתָהּ וְאַחַר כָּךְ מַשְׁקָהּ. עַל כָּרְחֲךָ וְאַחַר יַשְׁקֶה דַּוְקָא הוּא, וְדַוְקָא כָּתְבֵיהּ לְאַחַר הַקְטָרָה... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן

Bartenura explica a lógica de Rabi Shimon: para ele, a expressão "e depois fará beber" deve necessariamente ser lida em sua ordem literal, já que a Torá a escreveu deliberadamente depois da menção à queima do punhado — não haveria razão para o texto adotar essa sequência específica se a ordem não fosse normativa. Ainda assim, mesmo Rabi Shimon concorda que, se na prática a bebida veio primeiro, o procedimento continua válido — pois o versículo final, "e fará beber", ensina justamente que a bebida pode ocorrer mesmo depois de a mulher já ter se recusado, sendo então forçada. A lei prática, porém, segue os sábios.