Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Guimel · Mishná 1 de 8

A oferenda do sacerdote e a mulher: a tenufá conjunta

הָיָה נוֹטֵל אֶת מִנְחָתָהּ מִתּוֹךְ כְּפִיפָה מִצְרִית
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Guimel, a mishná descreve o momento em que a oferenda de farinha da sotá — trazida por seu marido num cesto egípcio de junco — é transferida para um vaso de serviço sagrado e movida em tenufá, junto com a mão do sacerdote, diante do altar.

Ele retirava sua oferenda de dentro do cesto egípcio e a colocava dentro de um vaso de serviço, e a punha sobre a mão dela. E o sacerdote colocava sua mão debaixo da dela e a movia.O marido trazia a oferenda de farinha de cevada da sotá guardada num cesto trançado de junco, ao estilo egípcio — o recipiente comum para transportar esse tipo de oferenda antes de sua consagração formal. Ao chegar o momento da tenufá, a oferenda era transferida para um vaso sagrado de serviço do Templo e colocada diretamente na mão da mulher, pois a Torá determina que a movimentação ritual da oferenda de ciúmes se faça com a participação ativa dela, não apenas do sacerdote. O sacerdote então colocava sua mão sob a dela, sustentando o vaso, e movia a oferenda para frente e para trás e para cima e para baixo — o gesto da tenufá — à semelhança do que ocorre com a oferenda pacífica, onde o dono também participa fisicamente do movimento junto ao sacerdote.

הָיָה נוֹטֵל אֶת מִנְחָתָהּ מִתּוֹךְ כְּפִיפָה מִצְרִית וְנוֹתְנָהּ לְתוֹךְ כְּלִי שָׁרֵת, וְנוֹתְנָהּ עַל יָדָהּ. וְכֹהֵן מֵנִיחַ יָדוֹ מִתַּחְתֶּיהָ וּמְנִיפָהּ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A tenufá da oferenda de ciúmes está prescrita explicitamente em Bamidbar 5, no versículo que a entrega às mãos do sacerdote a partir da mão da mulher.

Bamidbar (Números) 5:25
וְלָקַ֧ח הַכֹּהֵ֛ן מִיַּ֣ד הָֽאִשָּׁ֔ה אֵ֖ת מִנְחַ֣ת הַקְּנָאֹ֑ת וְהֵנִ֤יף אֶת־הַמִּנְחָה֙ לִפְנֵ֣י יְהֹוָ֔ה וְהִקְרִ֥יב אֹתָ֖הּ אֶל־הַמִּזְבֵּֽחַ׃
E o sacerdote tomará da mão da mulher a oferenda de ciúmes, e moverá a oferenda diante do Senhor, e a trará perto do altar.

Rambam observa que o próprio texto — "tomará da mão da mulher" — é a base para exigir que a tenufá seja feita com as duas mãos entrelaçadas, a do sacerdote sobre a da mulher, à semelhança do que a Torá determina para a oferenda pacífica, onde se lê "suas mãos as trarão" (Vayikrá 7). Essa comparação textual entre os dois tipos de oferenda é o fundamento halachico de todo o procedimento descrito nesta mishná: assim como o dono da oferenda pacífica participa fisicamente da tenufá junto ao sacerdote, também a sotá — dona da oferenda de farinha — participa da tenufá de sua própria oferenda de ciúmes.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam extrai no Perush HaMishná a comparação textual entre a oferenda pacífica e a oferenda de ciúmes; Bartenura detalha por que somente a partir da tenufá a mulher deixa de participar do processo como leiga.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 3:1
נֶאֱמַר בְּקָרְבַּן שְׁלָמִים יָדָיו תְּבִיאֶנָה, וְנֶאֱמַר בְּסוֹטָה וְלָקַח הַכֹּהֵן מִיַּד הָאִשָּׁה, לְפִיכָךְ כְּמוֹ שֶׁיֵּשׁ בַּשְּׁלָמִים תְּנוּפָה בַּבְּעָלִים וּבַכֹּהֵן, כָּךְ בְּמִנְחַת סוֹטָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן

Rambam formula a lei a partir da comparação verbal entre os dois versículos: já que a Torá emprega, tanto para a oferenda pacífica quanto para a oferenda de ciúmes, uma linguagem que aponta para a participação das mãos do próprio dono, conclui-se que em ambos os casos a tenufá se faz em conjunto — mão do dono sob a mão do sacerdote, ou entrelaçadas. Rambam também nota, de passagem, que nesta mishná a lei não segue a opinião de Rabi Shimon, cuja posição diverge na mishná seguinte quanto à ordem do procedimento.

Bartenura · Sotá 3:1
הָיָה נוֹטֵל. בַּעְלָהּ אֶת הַמִּנְחָה, שֶׁאֵין מִצְוַת כְּהֻנָּה בִּמְנָחוֹת אֶלָּא מִקְּמִיצָה וָאֵילָךְ. וְהַגָּשָׁה נַמִּי תְּחִלַּת קְמִיצָה הִיא, שֶׁאֵין זָר קָרֵב לַמִּזְבֵּחַ. אֲבָל קִדּוּשֵׁי כְּלִי וִיצִיקָה וּבְלִילָה, בִּמְנָחוֹת הַטְּעוּנוֹת שֶׁמֶן, כָּשֵׁר בְּזָר

Bartenura esclarece um ponto técnico importante: quem retira a oferenda do cesto no início do processo é o próprio marido — um leigo — e isso é válido porque o serviço exclusivo do sacerdote nas oferendas de farinha só começa a partir da retirada do punhado (kmitsá) para queima, sendo que a aproximação ao altar (hagashá) já é considerada parte inicial dessa etapa reservada ao sacerdote. Tudo o que vem antes — a consagração no vaso, o derramamento e a mistura, nas oferendas que levam óleo — é válido mesmo quando feito por um leigo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Abrindo o Perek Guimel, perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 19a), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 19a, sobre a mishná
מתני' היה נוטל את מנחתה - הבעל, דהא אמרינן דאין מצות כהונה במנחות אלא מקמיצה ואילך, והגשה נמי תחילת קמיצה היא, שאין זר קרב למזבח... ונותנה על ידה - להניף: וכהן מניח ידו מתחתיה - ובגמרא יליף דתנופה צריכה יד בעלים ויד כהן, ובעלים דמנחת סוטה היא האשה: והגיש - לקרן מערבית דרומית

Rashi confirma que quem retira a oferenda do cesto é o marido, precisamente porque o serviço exclusivo do sacerdote começa apenas na kmitsá — o punhado retirado para queima — e a hagashá, aproximação ao canto sudoeste do altar, já é considerada parte inicial dessa fase reservada ao sacerdote. Quanto à tenufá, Rashi explica que a Guemará deriva da comparação com a oferenda pacífica que a movimentação ritual exige necessariamente a mão do dono junto à mão do sacerdote — e, no caso da oferenda de ciúmes, quem ocupa o papel de "dona" da oferenda é a própria mulher, e não seu marido.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 3:1
נֶאֱמַר בְּקָרְבַּן שְׁלָמִים יָדָיו תְּבִיאֶנָה, וְנֶאֱמַר בְּסוֹטָה וְלָקַח הַכֹּהֵן מִיַּד הָאִשָּׁה, לְפִיכָךְ כְּמוֹ שֶׁיֵּשׁ בַּשְּׁלָמִים תְּנוּפָה בַּבְּעָלִים וּבַכֹּהֵן, כָּךְ בְּמִנְחַת סוֹטָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן

Rambam abre sua explicação do perek com a base textual da tenufá conjunta, comparando a linguagem de "suas mãos as trarão" (referente à oferenda pacífica) com "tomará da mão da mulher" (referente à oferenda de ciúmes). A conclusão de Rambam é direta: assim como o dono participa fisicamente da tenufá da oferenda pacífica, a mulher participa da tenufá de sua própria oferenda — um ponto que ele já assinala, logo na primeira mishná do perek, como não sendo objeto de disputa entre os sábios.

Bartenura · רע״ב
Sotá 3:1
הָיָה נוֹטֵל. בַּעְלָהּ אֶת הַמִּנְחָה... וְכֹהֵן מֵנִיחַ יָדוֹ תַּחְתֶּיהָ. שֶׁנֶּאֱמַר בִּשְׁלָמִים (ויקרא ז) יָדָיו תְּבִיאֶנָה, וְנֶאֱמַר בְּמִנְחַת סוֹטָה (במדבר ה) וְלָקַח הַכֹּהֵן מִיַּד הָאִשָּׁה, מַה בִּשְׁלָמִים כֹּהֵן מֵנִיחַ יָדוֹ תַּחַת יַד הַבְּעָלִים וּמֵנִיף, כָּךְ בְּמִנְחַת סוֹטָה כֹּהֵן מֵנִיחַ יָדוֹ תַּחַת יַד הָאִשָּׁה וּמֵנִיף

Abrindo o Perek Guimel, Bartenura descreve com precisão o gesto físico da tenufá conjunta: exatamente como ocorre na oferenda pacífica, onde o sacerdote coloca sua mão sob a mão do dono e move a oferenda, também na oferenda de ciúmes o sacerdote coloca sua mão sob a mão da mulher — que, no caso desta oferenda peculiar, ocupa o lugar que normalmente pertence ao dono do sacrifício — e move o vaso com ela.