Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Alef · Mishná 4 de 9

Diante do Grande Tribunal: a admoestação antes das águas

הָיוּ מַעֲלִין אוֹתָהּ לְבֵית דִּין הַגָּדוֹל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná descreve a subida da mulher suspeita ao Grande Tribunal de Jerusalém, a advertência solene que recebe — comparável à dada a testemunhas de casos capitais — e o apelo emocional para que confesse antes que o Nome sagrado seja apagado nas águas.

Levavam-na ao Grande Tribunal que havia em Jerusalém, e a advertiam da mesma forma que se advertem testemunhas de casos capitais. E diziam a ela: "Minha filha, muito faz o vinho, muito faz o riso, muito faz a juventude, muito fazem os maus vizinhos. Faze isso pelo Seu grande Nome, que foi escrito em santidade, para que não seja apagado sobre as águas." E diziam diante dela coisas que ela não é digna de ouvir, ela e toda a família da casa de seu pai.A mishná descreve a etapa em que a esposa suspeita, ainda não tendo confessado nem sido liberada, é conduzida ao Grande Tribunal de Jerusalém, onde recebe uma advertência solene — do mesmo tipo dada a testemunhas antes de depor em julgamentos capitais, para que compreendam a gravidade de suas palavras. Os juízes então apelam a ela emocionalmente, listando causas comuns de tropeço — o vinho, o riso frívolo, a imaturidade da juventude, a má companhia — como forma de abrir caminho para uma confissão sincera, sem forçá-la, mas apontando o peso terrível do próximo passo: se ela é de fato culpada e ainda assim bebe as águas, o Nome sagrado de Deus, escrito no pergaminho da maldição, será apagado sobre as águas amargas — um ato normalmente proibido, permitido apenas neste procedimento, em nome da paz entre marido e mulher. Além disso, contam-se diante dela relatos de figuras bíblicas que confessaram falhas semelhantes, ainda que isso signifique expor, diante dela, feitos vergonhosos de sua própria linhagem.

הָיוּ מַעֲלִין אוֹתָהּ לְבֵית דִּין הַגָּדוֹל שֶׁבִּירוּשָׁלַיִם, וּמְאַיְּמִין עָלֶיהָ כְדֶרֶךְ שֶׁמְּאַיְּמִין עַל עֵדֵי נְפָשׁוֹת. וְאוֹמְרִים לָהּ, בִּתִּי, הַרְבֵּה יַיִן עוֹשֶׂה, הַרְבֵּה שְׂחוֹק עוֹשֶׂה, הַרְבֵּה יַלְדוּת עוֹשָׂה, הַרְבֵּה שְׁכֵנִים הָרָעִים עוֹשִׂים. עֲשִׂי לִשְׁמוֹ הַגָּדוֹל שֶׁנִּכְתַּב בִּקְדֻשָּׁה, שֶׁלֹּא יִמָּחֶה עַל הַמָּיִם. וְאוֹמְרִים לְפָנֶיהָ דְּבָרִים שֶׁאֵינָהּ כְּדַאי לְשׁוֹמְעָן, הִיא וְכָל מִשְׁפַּחַת בֵּית אָבִיהָ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A exigência de que o procedimento ocorra sob a autoridade do Grande Tribunal é derivada por comparação verbal entre a parashá da sotá e a lei do "ancião rebelde".

Bemidbar (Números) 5:30
וְהֶעֱמִיד אֶת הָאִשָּׁה לִפְנֵי ה' וְעָשָׂה לָהּ הַכֹּהֵן אֵת כָּל הַתּוֹרָה הַזֹּאת
E colocará a mulher diante do Eterno, e o sacerdote fará a ela toda esta lei.
Devarim (Deuteronômio) 17:11
עַל פִּי הַתּוֹרָה אֲשֶׁר יוֹרוּךָ
Conforme a lei que te ensinarem.

Bartenura explica a lógica da comparação: a expressão "toda esta lei" (כָּל הַתּוֹרָה הַזֹּאת), usada na parashá da sotá, é ligada pela tradição à expressão "a lei que te ensinarem" (עַל פִּי הַתּוֹרָה אֲשֶׁר יוֹרוּךָ), usada na lei do ancião rebelde — e, assim como aquele julgamento só pode ocorrer perante o Grande Tribunal, também o procedimento da sotá exige a autoridade do Grande Tribunal de Jerusalém. Já a permissão excepcional de apagar o Nome sagrado sobre as águas — algo normalmente proibido — é entendida pela tradição como uma medida extraordinária, justificada pelo valor supremo da paz entre marido e mulher, que a Torá considera digna de ceder até mesmo diante da santidade do Nome.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, confirma a base bíblica da exigência do Grande Tribunal e explica a natureza dos relatos contados diante da mulher.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 1:4
כתוב בתורה בפרשת סוטה ועשה לה הכהן את כל התורה הזאת ואמר בזקן ממרא על פי התורה לפיכך כמו הזקן ממרא בב"ד הגדול... כמו כן הסוטה בבית דין הגדול

Rambam confirma que a exigência de julgamento perante o Grande Tribunal é derivada da mesma comparação verbal entre a parashá da sotá e a lei do ancião rebelde, cujos detalhes são desenvolvidos no tratado de Sanhedrin. Sobre os "relatos que ela não é digna de ouvir", explica que se trata de histórias como o episódio de Tamar e Yehudá, ou de Reuven, contadas exatamente porque essas mesmas figuras confessaram abertamente suas falhas sem vergonha — um exemplo poderoso de confissão sincera, ainda que doloroso de ouvir por envolver a própria linhagem familiar da mulher.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rambam e Bartenura. Rashi não foi localizado com um comentário claramente ancorado nesta mishná específica — segue-se, honestamente, apenas com os dois primeiros comentadores.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 1:4
ומאיימין עליה יתבאר איום עדי נפשות בפרק ד' מסנהדרין... וענין שאינה כדי לשומען שא"א שיהיו נמצאים באנשי ביתה ובמשפחתה בזכרון אלו הדברים

Rambam remete os detalhes da advertência dada a testemunhas de casos capitais ao tratado de Sanhedrin, onde o procedimento é explicado em profundidade. Sobre as histórias contadas diante da mulher, esclarece que o propósito é justamente que, entre os presentes de sua própria casa e família, se recordem episódios como os de Tamar e Yehudá — servindo como um espelho doloroso, mas eficaz, para incentivá-la a confessar antes que o procedimento avance.

Bartenura · רע״ב
Sotá 1:4
הָיוּ מַעֲלִין אוֹתָהּ לְבֵית דִּין הַגָּדוֹל. דִּכְתִיב בְּסוֹטָה וְעָשָׂה לָהּ הַכֹּהֵן אֶת כָּל הַתּוֹרָה הַזֹּאת... דְּבָרִים שֶׁאֵינָן כְּדַאי לְשׁוֹמְעָן. כְּגוֹן יְהוּדָה הוֹדָה וְלֹא בּוֹשׁ בְּמַעֲשֵׂה תָּמָר, רְאוּבֵן הוֹדָה וְלֹא בּוֹשׁ בְּמַעֲשֵׂה בִּלְהָה

Bartenura detalha a comparação verbal que fundamenta a exigência do Grande Tribunal, e explica que os juízes advertem a mulher "para que ela confesse" — não para intimidá-la sem propósito, mas para lhe dar uma saída digna antes de prosseguir. Quanto aos relatos contados diante dela, identifica dois exemplos centrais: Yehudá, que confessou publicamente e sem vergonha seu envolvimento com Tamar, e Reuven, que da mesma forma não escondeu seu ato envolvendo Bilhá — ambos citados como modelos de confissão corajosa, ainda que dolorosos de ouvir por tratarem da própria história familiar da mulher diante do tribunal.