Levavam-na ao Grande Tribunal que havia em Jerusalém, e a advertiam da mesma forma que se advertem testemunhas de casos capitais. E diziam a ela: "Minha filha, muito faz o vinho, muito faz o riso, muito faz a juventude, muito fazem os maus vizinhos. Faze isso pelo Seu grande Nome, que foi escrito em santidade, para que não seja apagado sobre as águas." E diziam diante dela coisas que ela não é digna de ouvir, ela e toda a família da casa de seu pai. — A mishná descreve a etapa em que a esposa suspeita, ainda não tendo confessado nem sido liberada, é conduzida ao Grande Tribunal de Jerusalém, onde recebe uma advertência solene — do mesmo tipo dada a testemunhas antes de depor em julgamentos capitais, para que compreendam a gravidade de suas palavras. Os juízes então apelam a ela emocionalmente, listando causas comuns de tropeço — o vinho, o riso frívolo, a imaturidade da juventude, a má companhia — como forma de abrir caminho para uma confissão sincera, sem forçá-la, mas apontando o peso terrível do próximo passo: se ela é de fato culpada e ainda assim bebe as águas, o Nome sagrado de Deus, escrito no pergaminho da maldição, será apagado sobre as águas amargas — um ato normalmente proibido, permitido apenas neste procedimento, em nome da paz entre marido e mulher. Além disso, contam-se diante dela relatos de figuras bíblicas que confessaram falhas semelhantes, ainda que isso signifique expor, diante dela, feitos vergonhosos de sua própria linhagem.
A exigência de que o procedimento ocorra sob a autoridade do Grande Tribunal é derivada por comparação verbal entre a parashá da sotá e a lei do "ancião rebelde".
Bartenura explica a lógica da comparação: a expressão "toda esta lei" (כָּל הַתּוֹרָה הַזֹּאת), usada na parashá da sotá, é ligada pela tradição à expressão "a lei que te ensinarem" (עַל פִּי הַתּוֹרָה אֲשֶׁר יוֹרוּךָ), usada na lei do ancião rebelde — e, assim como aquele julgamento só pode ocorrer perante o Grande Tribunal, também o procedimento da sotá exige a autoridade do Grande Tribunal de Jerusalém. Já a permissão excepcional de apagar o Nome sagrado sobre as águas — algo normalmente proibido — é entendida pela tradição como uma medida extraordinária, justificada pelo valor supremo da paz entre marido e mulher, que a Torá considera digna de ceder até mesmo diante da santidade do Nome.
Rambam, no Perush HaMishná, confirma a base bíblica da exigência do Grande Tribunal e explica a natureza dos relatos contados diante da mulher.
Rambam confirma que a exigência de julgamento perante o Grande Tribunal é derivada da mesma comparação verbal entre a parashá da sotá e a lei do ancião rebelde, cujos detalhes são desenvolvidos no tratado de Sanhedrin. Sobre os "relatos que ela não é digna de ouvir", explica que se trata de histórias como o episódio de Tamar e Yehudá, ou de Reuven, contadas exatamente porque essas mesmas figuras confessaram abertamente suas falhas sem vergonha — um exemplo poderoso de confissão sincera, ainda que doloroso de ouvir por envolver a própria linhagem familiar da mulher.
Perush de Rambam e Bartenura. Rashi não foi localizado com um comentário claramente ancorado nesta mishná específica — segue-se, honestamente, apenas com os dois primeiros comentadores.
Rambam remete os detalhes da advertência dada a testemunhas de casos capitais ao tratado de Sanhedrin, onde o procedimento é explicado em profundidade. Sobre as histórias contadas diante da mulher, esclarece que o propósito é justamente que, entre os presentes de sua própria casa e família, se recordem episódios como os de Tamar e Yehudá — servindo como um espelho doloroso, mas eficaz, para incentivá-la a confessar antes que o procedimento avance.
Bartenura detalha a comparação verbal que fundamenta a exigência do Grande Tribunal, e explica que os juízes advertem a mulher "para que ela confesse" — não para intimidá-la sem propósito, mas para lhe dar uma saída digna antes de prosseguir. Quanto aos relatos contados diante dela, identifica dois exemplos centrais: Yehudá, que confessou publicamente e sem vergonha seu envolvimento com Tamar, e Reuven, que da mesma forma não escondeu seu ato envolvendo Bilhá — ambos citados como modelos de confissão corajosa, ainda que dolorosos de ouvir por tratarem da própria história familiar da mulher diante do tribunal.