Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Alef · Mishná 3 de 9

As proibidas para sempre da teruma, e a escolta rumo ao tribunal

וְאֵלּוּ אֲסוּרוֹת מִלֶּאֱכֹל בַּתְּרוּמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná lista cinco categorias de mulheres proibidas de comer teruma sem depender do resultado das águas, e descreve o cuidado tomado ao conduzi-la ao tribunal: dois sábios a escoltam, para que o marido não se relacione com ela no caminho antes do procedimento.

E estas estão proibidas de comer da teruma: a que diz "sou impura para ti"; e aquela sobre quem vieram testemunhas de que é impura; e a que diz "não bebo"; e aquela cujo marido não quer fazê-la beber; e aquela cujo marido teve relações com ela no caminho. Como se procede com ela? Levam-na ao tribunal daquele lugar, e lhe entregam dois estudiosos, para que não tenha relações com ela no caminho. Rabi Yehudá diz: o marido é confiável a respeito dela.A mishná passa a enumerar situações em que a esposa fica proibida da teruma de modo definitivo, sem sequer chegar a beber as águas: se ela mesma confessa impureza, se há testemunhas diretas de sua impureza, se ela se recusa a beber, se o próprio marido desiste de submetê-la ao procedimento, ou se ele tem relações com ela depois da reclusão suspeita — pois, nesse último caso, a Torá exige que o marido esteja "livre de culpa" para que as águas tenham efeito, e ele próprio já não está. No processo de levá-la ao tribunal para o procedimento, o cuidado prático é evitar que o marido, no caminho, tenha relações com ela antes da hora — o que anularia todo o procedimento —, e por isso o tribunal designa dois estudiosos da Torá para acompanhá-los. Rabi Yehudá dispensa essa escolta, confiando na palavra do próprio marido de que nada ocorreu no caminho.

וְאֵלּוּ אֲסוּרוֹת מִלֶּאֱכֹל בַּתְּרוּמָה, הָאוֹמֶרֶת טְמֵאָה אֲנִי לְךָ, וְשֶׁבָּאוּ עֵדִים שֶׁהִיא טְמֵאָה, וְהָאוֹמֶרֶת אֵינִי שׁוֹתָה, וְשֶׁבַּעְלָהּ אֵינוֹ רוֹצֶה לְהַשְׁקוֹתָהּ, וְשֶׁבַּעְלָהּ בָּא עָלֶיהָ בַדֶּרֶךְ. כֵּיצַד עוֹשֶׂה לָהּ, מוֹלִיכָהּ לְבֵית דִּין שֶׁבְּאוֹתוֹ מָקוֹם, וּמוֹסְרִין לוֹ שְׁנֵי תַלְמִידֵי חֲכָמִים, שֶׁמָּא יָבֹא עָלֶיהָ בַּדֶּרֶךְ. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, בַּעְלָהּ נֶאֱמָן עָלֶיהָ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A exigência de que o marido esteja "livre de culpa" para que as águas façam efeito é explícita no próprio texto da parashá.

Bemidbar (Números) 5:31
וְנִקָּה הָאִישׁ מֵעָוֹן וְהָאִשָּׁה הַהִוא תִּשָּׂא אֶת עֲוֹנָהּ
E o homem estará livre de culpa, e aquela mulher levará sobre si sua culpa.

Bartenura explica que esse versículo é a base para excluir do procedimento a mulher cujo marido teve relações com ela depois da reclusão suspeita: as águas só têm efeito "quando o homem está livre de culpa" — ou seja, quando ele mesmo não se relacionou com ela após a reclusão —, e, se ele o fez, as águas já não têm poder de testar a esposa. A mesma passagem da Torá também é a fonte do princípio de que testemunhas de impureza real, mesmo vindas de terras distantes, anulam o efeito das águas: elas foram concebidas apenas para o caso em que ninguém sabe a verdade, não para substituir um testemunho já existente.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica por que testemunhas de infidelidade anulam as águas, e por que a lei segue os sábios contra Rabi Yehudá.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 1:3
לפי שמי המרים אינן ממיתין אלא כשאין עדות כשזינתה בשום פנים אבל אם יש עדים שזינתה ואפילו היו במדינת הים אינן ממיתין... ואין הלכה כר' יהודה

Rambam explica que as águas amargas só têm poder de julgamento — e, portanto, só poderiam causar a morte da culpada — quando não existe testemunho algum de sua infidelidade; havendo testemunhas, mesmo distantes, o caso sai da esfera do julgamento divino e passa a ser resolvido normalmente, pelo testemunho, com o divórcio da esposa. Quanto à exigência de dois estudiosos na escolta, Rambam nota que eles servem para reconhecer e aplicar a advertência devida caso algo indevido ocorra no caminho; a halachá segue os sábios, não Rabi Yehudá, pois, por ser essa uma proibição relativamente leve, a inclinação do próprio marido poderia prevalecer sobre seu testemunho interessado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rambam e Bartenura. Rashi não foi localizado com um comentário claramente ancorado nesta mishná específica — segue-se, honestamente, apenas com os dois primeiros comentadores.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 1:3
ומה שאמרו ושבאו לה עדים שהיא טמאה ר"ל אחר ששתתה מי המרים אבל קודם שתיית מי המרים הרי זה מבואר... ומה שהצריכו תלמידי חכמים לפי שהם יודעים ההתראה וימנעוהו שלא להתקרב עמה

Rambam esclarece um ponto sutil: a frase "vieram testemunhas de que é impura" se refere a testemunhas que aparecem mesmo depois de ela já ter bebido as águas amargas — pois, antes da bebida, o caso já é evidente por si mesmo, sem necessidade de esclarecimento. E, sobre a escolta, explica que os dois estudiosos são escolhidos justamente por saberem reconhecer e aplicar a advertência necessária, capazes de impedir qualquer aproximação indevida entre o marido e a esposa no trajeto até o tribunal.

Bartenura · רע״ב
Sotá 1:3
וְאֵלּוּ אֲסוּרוֹת לֶאֱכֹל בַּתְּרוּמָה. לְעוֹלָם... וְשֶׁבַּעְלָהּ בָּא עָלֶיהָ בַדֶּרֶךְ. דְּשׁוּב אֵין הַמַּיִם בּוֹדְקִים אוֹתָהּ, דִּכְתִיב וְנִקָּה הָאִישׁ מֵעָוֹן

Bartenura esclarece que a proibição desta lista é permanente — mesmo que ela seja filha de sacerdote —, diferente das demais suspeitas de infidelidade, que ficam proibidas apenas até beberem e serem consideradas íntegras. Sobre o caso do marido que teve relações com ela no caminho, explica que as águas deixam de ter qualquer poder de teste, pois a Torá condiciona seu efeito a que "o homem esteja livre de culpa" — e, tendo ele se relacionado com ela após a reclusão suspeita, essa condição já não se cumpre. Quanto à disputa final, nota que a halachá não segue Rabi Yehudá: se o marido já é considerado confiável sobre sua esposa mesmo na proibição grave da nidá, ainda assim os sábios preferiram não confiar apenas em sua palavra aqui, pois, sendo esta uma proibição mais leve, a inclinação pessoal do marido poderia pesar contra a verdade.