Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Alef · Mishná 5 de 9

O Portão de Nicanor: se confessa, sai; se insiste na pureza, é exposta

אִם אָמְרָה טְמֵאָה אָנִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Diante da advertência, a mishná descreve os dois caminhos possíveis: a confissão, que encerra o caso com a perda da ketubá, ou a insistência na pureza, que a leva ao Portão de Nicanor para o início do procedimento físico das águas.

Se ela disse "sou impura", quebra sua ketubá e sai. E se disse "sou pura", levam-na ao portão oriental, que fica junto à entrada do Portão de Nicanor, onde se faz beber as sotot, e se purificam as parturientes, e se purificam os leprosos. E o sacerdote segura suas vestes — se rasgaram, rasgaram; se se abriram nas costuras, se abriram —, até que descobre seu peito e solta seu cabelo. Rabi Yehudá diz: se seu peito era belo, não o descobria; e se seu cabelo era belo, não o soltava.A mishná apresenta a bifurcação decisiva: se, diante da advertência solene do tribunal, a mulher confessa sua impureza, o caso se encerra ali mesmo — ela perde o direito à sua ketubá e é divorciada, sem chegar a beber as águas. Mas se ela mantém sua alegação de pureza, o procedimento avança fisicamente: ela é conduzida ao portão oriental do Templo, junto ao Portão de Nicanor, local também usado para a purificação de parturientes e leprosos após seus respectivos períodos, pois ali se cumpre a exigência bíblica de estar "diante do Eterno". Nesse local, o sacerdote começa a expor sua condição, segurando suas vestes sem se preocupar se rasgam, até descobrir seu peito e soltar seu cabelo — um ato de humilhação pública que busca provocar nela, ainda nesta última hora, uma confissão espontânea. Rabi Yehudá discorda desse grau de exposição, temendo que, se ela for de fato inocente e sair livre do procedimento, sua beleza exposta desperte atenção indevida entre os jovens sacerdotes.

אִם אָמְרָה טְמֵאָה אָנִי, שׁוֹבֶרֶת כְּתֻבָּתָהּ וְיוֹצֵאת. וְאִם אָמְרָה טְהוֹרָה אָנִי, מַעֲלִין אוֹתָהּ לְשַׁעַר הַמִּזְרָח שֶׁעַל פֶּתַח שַׁעַר נִקָּנוֹר, שֶׁשָּׁם מַשְׁקִין אֶת הַסּוֹטוֹת, וּמְטַהֲרִין אֶת הַיּוֹלְדוֹת, וּמְטַהֲרִין אֶת הַמְּצֹרָעִים. וְכֹהֵן אוֹחֵז בִּבְגָדֶיהָ, אִם נִקְרְעוּ נִקְרָעוּ, אִם נִפְרְמוּ נִפְרָמוּ, עַד שֶׁהוּא מְגַלֶּה אֶת לִבָּהּ, וְסוֹתֵר אֶת שְׂעָרָהּ. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אִם הָיָה לִבָּהּ נָאֶה, לֹא הָיָה מְגַלֵּהוּ. וְאִם הָיָה שְׂעָרָהּ נָאֶה, לֹא הָיָה סוֹתְרוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O ato de soltar o cabelo é derivado diretamente do versículo que descreve o sacerdote descobrindo a cabeça da mulher diante do Eterno.

Bemidbar (Números) 5:18
וְהֶעֱמִיד הַכֹּהֵן אֶת הָאִשָּׁה לִפְנֵי ה' וּפָרַע אֶת רֹאשׁ הָאִשָּׁה
E o sacerdote colocará a mulher diante do Eterno, e descobrirá a cabeça da mulher.

Bartenura explica a derivação: se o versículo já dissera "e colocará a mulher diante do Eterno", incluindo todo o seu corpo, por que repetir especificamente "a cabeça da mulher"? Esse aparente excesso ensina que o sacerdote deve fazer algo específico à cabeça — soltar o cabelo dela — além de expor o restante de seu corpo. A exigência de que o local seja "diante do Eterno" também explica por que o procedimento — assim como a purificação de parturientes e leprosos — ocorre especificamente no portão oriental junto ao Portão de Nicanor, ponto de acesso mais próximo ao interior do Templo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica o propósito de levá-la e trazê-la repetidamente, e confirma que a halachá segue os sábios contra Rabi Yehudá.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 1:5
מעלין אותה לשער המזרח ר"ל מעלין אותה ומורידין כדי שתתייגע אולי תודה... ורבי יהודה אומר שמא תצא נקיה וישחקו בה פרחי כהונה וחכמים מקפידין בנוולה ובגנותה. והלכה כחכמים

Rambam esclarece que "levam-na ao portão oriental" significa, na prática, levá-la e trazê-la repetidamente, com o propósito de cansá-la fisicamente — na esperança de que, exausta, ela finalmente confesse antes de chegar ao ponto de beber as águas. Sobre a ketubá, explica que, se o documento físico estiver disponível, ele é rasgado; se não estiver, ela escreve um recibo de quitação, renunciando formalmente a qualquer reivindicação futura. A disputa final se resolve a favor dos sábios: Rabi Yehudá teme que, sendo ela inocente, sua exposição desperte atenção indevida de jovens sacerdotes, mas os sábios consideram mais importante o efeito de humilhação e vergonha do procedimento, que pode levá-la a confessar.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 6b), além de Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 6b, s.v. האומרת טמאה אני
הָאוֹמֶרֶת טְמֵאָה אֲנִי - שֶׁהוֹדְתָה לְבֵית דִּין עַל קִלְקוּלָהּ שֶׁהָיוּ מְאַיְּמִין עָלֶיהָ כִּדְתָנֵי מַתְנִיתִין

Rashi conecta esta mishná diretamente à anterior: a mulher que diz "sou impura" é justamente aquela que, diante da advertência solene descrita na mishná precedente, confessa sua falha ao tribunal — mostrando que a admoestação teve o efeito pretendido de levá-la a admitir a verdade antes de se submeter ao restante do procedimento.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 1:5
ונקרעו שנקרעו באורך. ונפרמו שנקרעו מן הצדדין בהן. וסותר את שערה שיתיר גדולי שער ראשה ויפרוש אותם

Rambam distingue os dois termos técnicos da mishná: "rasgar" refere-se a um corte no sentido do comprimento da veste, enquanto "abrir nas costuras" refere-se ao desfazer das laterais. Sobre soltar o cabelo, explica que o sacerdote desata as tranças e mechas presas da cabeça da mulher, espalhando-as livremente — o mesmo gesto de exposição descrito literalmente pelo versículo bíblico.

Bartenura · רע״ב
Sotá 1:5
שֶׁעַל פֶּתַח שַׁעַר נִקָּנוֹר. אָדָם שֶׁשְּׁמוֹ נִקָּנוֹר שֶׁהֵבִיא דְּלָתוֹת לְאוֹתוֹ פֶּתַח מֵאֶלֶכְּסַנְדְרִיָּא שֶׁל מִצְרַיִם וְנַעֲשׂוּ לוֹ נִסִּים... רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר כוּ'. שֶׁמָּא תֵּצֵא זַכָּאָה וְיִתְגָּרוּ בָּהּ פִּרְחֵי כְהֻנָּה

Bartenura conta a origem do nome do portão: Nicanor era o nome de um homem que trouxe, do Egito, portas magníficas para essa entrada do Templo, e que teve milagres ocorridos em seu favor durante a travessia marítima — episódio narrado no tratado de Yomá. Explica ainda a razão da posição minoritária de Rabi Yehudá: ele teme que, caso a mulher saia inocente do procedimento, os jovens sacerdotes que a viram exposta, com peito descoberto e cabelo solto, possam se sentir atraídos por ela de forma imprópria — daí sua cautela em poupar mulheres de aparência notável dessa exposição total. A halachá, porém, não o acompanha.