Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Alef · Mishná 2 de 9

Como se advertem: da fala à reclusão, os graus da proibição

כֵּיצַד מְקַנֵּא לָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná detalha o próprio ato de advertência e seus efeitos graduais: falar com o homem indicado não proíbe nada, mas recluir-se com ele pelo tempo suficiente para uma relação a proíbe ao marido e à teruma; e se o marido morre antes de ela beber as águas, ela precisa de chalitzá e não pode fazer ibum.

Como ele a adverte? Disse a ela, diante de dois, "não fales com fulano", e ela falou com ele — ainda está permitida à sua casa e permitida a comer da teruma. Entrou com ele num lugar reservado e demorou-se com ele pelo tempo de uma possível impureza — está proibida à sua casa e proibida a comer da teruma. E se ele morre, ela faz chalitzá e não faz ibum. — A mishná esclarece o mecanismo exato da advertência descrita na primeira mishná: o marido diz à esposa, diante de duas testemunhas, que não fale com determinado homem. Se, apesar disso, ela apenas conversa com ele — sem se recluir a sós —, nada muda em sua condição: continua permitida a seu marido e, se for esposa de sacerdote, continua podendo comer da teruma. A proibição só nasce quando ela entra com o homem indicado num local reservado e ali permanece pelo tempo mínimo suficiente para que uma relação pudesse ter ocorrido — nesse caso, ela fica proibida ao marido e à teruma até passar pelo procedimento das águas amargas. Se o marido morre antes disso, a viúva não pode ser tomada em ibum pelo irmão dele, precisando primeiro da chalitzá, pois sua condição já se equipara, num certo sentido, à de uma mulher que precisaria ser afastada do lar por decisão do próprio marido.

כֵּיצַד מְקַנֵּא לָהּ. אָמַר לָהּ בִּפְנֵי שְׁנַיִם, אַל תְּדַבְּרִי עִם אִישׁ פְּלוֹנִי, וְדִבְּרָה עִמּוֹ, עֲדַיִן הִיא מֻתֶּרֶת לְבֵיתָהּ וּמֻתֶּרֶת לֶאֱכֹל בַּתְּרוּמָה. נִכְנְסָה עִמּוֹ לְבֵית הַסֵּתֶר וְשָׁהֲתָה עִמּוֹ כְדֵי טֻמְאָה, אֲסוּרָה לְבֵיתָהּ וַאֲסוּרָה לֶאֱכֹל בַּתְּרוּמָה. וְאִם מֵת, חוֹלֶצֶת וְלֹא מִתְיַבָּמֶת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A regra de que ela precisa de chalitzá e não de ibum é derivada da linguagem usada pela Torá para a mulher divorciada por conduta imprópria.

Devarim (Deuteronômio) 24:1-2
כִּי יִקַּח אִישׁ אִשָּׁה... וּמָצָא בָהּ עֶרְוַת דָּבָר... וְכָתַב לָהּ סֵפֶר כְּרִיתֻת... וְיָצְאָה מִבֵּיתוֹ וְהָלְכָה וְהָיְתָה לְאִישׁ אַחֵר
Quando um homem tomar uma esposa... e encontrar nela algo impróprio... e escrever para ela um documento de divórcio... e ela sair de sua casa, e for e pertencer a outro homem.

Rambam, no perush, liga o caso desta mishná a esse versículo: assim como a Torá diz "e pertencer a outro homem" — e a tradição interpreta essa expressão como excluindo especificamente o cunhado, ou seja, ela pode se casar com "outro homem" qualquer, mas não com o irmão do falecido por ibum —, a mesma lógica se aplica à esposa que ficou proibida por reclusão suspeita: se o marido morre antes de ela beber as águas, ela não pode ser tomada em ibum, precisando primeiro de chalitzá, como se já estivesse na condição de quem necessitaria de um documento de divórcio. A proibição por reclusão suspeita não é idêntica à condenação por infidelidade comprovada, mas a mishná a trata, para efeitos de ibum, com o mesmo rigor.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, distingue os dois tipos de kinuy e precisa o tempo mínimo que caracteriza a reclusão proibida.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 1:2
זאת ההלכה נכללת על שני מינין מהקנוי... ואם נכנסה עמו לסתר בפני שנים ושהתה כדי טומאה ושיעור זה מן הזמן כשיעור לצלות ביצה של תרנגולת באש בינונית וכדי לגמעה

Rambam explica que existem dois tipos de advertência: uma mais geral (não falar com o homem) e o kinuy pleno propriamente dito (não se recluir com ele). Só o segundo tipo, quando violado por reclusão comprovada perante duas testemunhas, proíbe a esposa. Rambam precisa ainda o tempo mínimo de "impureza" mencionado na mishná: o equivalente ao tempo necessário para assar um ovo de galinha em fogo médio e engoli-lo — medida tradicional usada para estimar a duração mínima de uma relação.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (na sugiá de Sotá 4a, onde a expressão "כדי טומאה" é discutida), além de Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 4a, s.v. כדי טומאה
כְּדֵי טֻמְאָה - וּמַהוּ כְּדֵי טֻמְאָה, כְּדֵי בִיאָה. וּמַהוּ כְּדֵי בִיאָה, כְּדֵי הַעֲרָאָה, דְּהַיְנוּ נְשִׁיקַת אֵבָר בְּאוֹתוֹ מָקוֹם. וְכַמָּה שִׁעוּרָהּ, כְּדֵי הַקָּפַת דֶּקֶל שֶׁיּוּכַל הָאָדָם לֵילֵךְ סְבִיבוֹת הַדֶּקֶל

Rashi esclarece o que a mishná quer dizer com "o tempo de uma possível impureza": trata-se do tempo mínimo suficiente para uma relação, entendida aqui como o toque inicial do órgão naquele lugar. A Guemará mede esse intervalo de forma concreta, comparando-o ao tempo que uma pessoa levaria para caminhar ao redor de uma tamareira.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 1:2
ואם נכנסה עמו לסתר בפני שנים ושהתה כדי טומאה... ואז תאסר על בעלה ואינו מותר לה לאכול בתרומה עד שתשתה מי המרים

Rambam confirma que somente a reclusão perante duas testemunhas, pelo tempo mínimo mencionado, torna a esposa proibida a seu marido e à teruma, e que essa proibição permanece até que ela beba as águas amargas e seja considerada íntegra por elas. Por isso, se o marido morre antes disso, a viúva fica na condição descrita pela Torá para quem precisa de documento de divórcio — daí a exigência de chalitzá em vez de ibum.

Bartenura · רע״ב
Sotá 1:2
נִכְנְסָה עִמּוֹ לְבֵית הַסֵּתֶר וְשָׁהֲתָה עִמּוֹ כְדֵי טֻמְאָה אֲסוּרָה לְבֵיתָהּ. וְשִׁעוּר כְּדֵי טֻמְאָה, כְּדֵי לִצְלוֹת בֵּיצַת תַּרְנְגֹלֶת וּלְגָמְעָהּ

Bartenura confirma a mesma medida de tempo citada por Rambam — o suficiente para assar um ovo de galinha e engoli-lo — como o padrão da reclusão proibida, e explica a fonte da regra de chalitzá sem ibum: a Torá, ao descrever a mulher que precisa de documento de divórcio por conduta imprópria, diz que ela "sairá de sua casa e pertencerá a outro homem", e a tradição interpreta essa expressão como excluindo o cunhado. Ainda assim, ela não fica livre para se casar com qualquer homem sem chalitzá, pois, assim como precisaria de um documento de divórcio caso o marido estivesse vivo, também precisa da chalitzá para se libertar do vínculo do cunhado.