Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Alef · Mishná 1 de 9

O marido que suspeita: advertência diante de duas testemunhas

הַמְקַנֵּא לְאִשְׁתּוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o tratado, a mishná apresenta a disputa central entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre quantas testemunhas o marido precisa para, primeiro, advertir sua esposa formalmente (kinuy), e depois, para que a reclusão suspeita dela com o homem advertido (setirá) a proíba a ele.

Quem suspeita de sua esposa — Rabi Eliezer diz: advertem-na diante de duas testemunhas, e a fazem beber por conta de uma só testemunha ou por conta de si mesmo. Rabi Yehoshua diz: advertem-na diante de duas testemunhas, e a fazem beber por conta de duas testemunhas.A mishná abre o tratado com o procedimento inicial que desencadeia todo o ritual da sotá: o marido que, tomado por um espírito de ciúme, deseja advertir formalmente sua esposa para que não se recolha a sós com determinado homem. Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua concordam que essa advertência (kinuy) exige duas testemunhas presentes no momento em que o marido a pronuncia. A disputa surge sobre o segundo estágio: se, depois de advertida, a esposa é vista reclusa com o homem indicado (setirá), quantas testemunhas são necessárias para que essa reclusão a proíba ao marido e, no caso de ele insistir, ela seja levada a beber as águas amargas. Rabi Eliezer permite que uma única testemunha da reclusão — ou mesmo o próprio marido, testemunhando o que viu — já baste para proibi-la e trazê-la ao procedimento; Rabi Yehoshua exige duas testemunhas também para a reclusão, tal como para a advertência inicial.

הַמְקַנֵּא לְאִשְׁתּוֹ, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, מְקַנֵּא לָהּ עַל פִּי שְׁנַיִם, וּמַשְׁקָהּ עַל פִּי עֵד אֶחָד אוֹ עַל פִּי עַצְמוֹ. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר, מְקַנֵּא לָהּ עַל פִּי שְׁנַיִם וּמַשְׁקָהּ עַל פִּי שְׁנָיִם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A parashá da sotá, em Bemidbar, é a fonte de todo o tratado: o homem tomado por espírito de ciúme, a esposa recluída sem testemunhas de sua impureza, e o procedimento das águas amargas diante do sacerdote.

Bemidbar (Números) 5:13-14
וְשָׁכַב אִישׁ אֹתָהּ שִׁכְבַת זֶרַע וְנֶעְלַם מֵעֵינֵי אִישָׁהּ וְנִסְתְּרָה וְהִיא נִטְמָאָה וְעֵד אֵין בָּהּ וְהִוא לֹא נִתְפָּשָׂה. וְעָבַר עָלָיו רוּחַ קִנְאָה וְקִנֵּא אֶת אִשְׁתּוֹ וְהִוא נִטְמָאָה, אוֹ עָבַר עָלָיו רוּחַ קִנְאָה וְקִנֵּא אֶת אִשְׁתּוֹ וְהִיא לֹא נִטְמָאָה
E um homem se deitar com ela em relação carnal, e isso for oculto aos olhos de seu marido, e ela se ocultar, e ela se contaminar, e não houver testemunha contra ela, e ela não tiver sido apanhada; e um espírito de ciúme passar sobre ele, e ele suspeitar de sua esposa, sendo ela contaminada; ou um espírito de ciúme passar sobre ele, e ele suspeitar de sua esposa, não sendo ela contaminada.

Rambam explica que "suspeitar" (kinuy) é o ato de o marido advertir a esposa, diante de duas testemunhas, para que ela não se recolha a sós com determinado homem — e que o próprio versículo bíblico "e ele suspeitar de sua esposa" (וְקִנֵּא אֶת אִשְׁתּוֹ) é entendido pela tradição como uma obrigação: o marido deve advertir sua esposa quando há necessidade real disso, e não se omitir. A partir daí, a Torá descreve a segunda etapa, "e ela se ocultar" (וְנִסְתְּרָה) — a reclusão suspeita que, uma vez advertida, torna a esposa proibida ao marido até que se submeta às águas amargas ou seja divorciada sem sua ketubá. A disputa da mishná gira em torno de quantas testemunhas o próprio texto bíblico exige para cada uma dessas duas etapas distintas.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, decompõe as três categorias possíveis de proibição da esposa suspeita, e explica por que a halachá segue Rabi Yehoshua.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 1:1
ודע שאדם חייב לקנאות על אשתו ויקנא לה ולא יפשע בה... ובאיסור האשה על בעלה ג' חלקים... והלכה כרבי יהושע

Rambam ensina que o marido é obrigado a advertir sua esposa quando há necessidade real, sem se omitir por negligência, e decompõe em três categorias o modo como uma esposa pode ficar proibida a seu marido por suspeita: primeiro, quando há advertência diante de duas testemunhas seguida de reclusão diante de duas testemunhas, caso em que ela fica proibida até beber as águas amargas — e hoje, sem o Templo, proibida para sempre, saindo sem sua ketubá; segundo, quando há advertência diante de duas testemunhas mas a infidelidade em si é testemunhada por apenas uma testemunha, caso em que ela também fica proibida para sempre, mas sem sequer poder beber as águas, pois uma só testemunha de infidelidade real já basta para proibi-la definitivamente; terceiro, quando não houve advertência prévia alguma, mas duas testemunhas seguras atestam diretamente a infidelidade, caso em que ela é proibida e sai sem ketubá. A halachá segue Rabi Yehoshua, que exige duas testemunhas tanto para a advertência quanto para a reclusão.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Abrindo o tratado, perush de Rashi sobre a Guemará, além de Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 2a, s.v. מתני' המקנא לאשתו; מקנא לה ע"פ שנים; ומשקה ע"פ עד א' או ע"פ עצמו; ר' יהושע אומר
מַתְנִי' הַמְקַנֵּא לְאִשְׁתּוֹ - לִישָׁנָא דִּקְרָא נָקַט, "וְקִנֵּא אֶת אִשְׁתּוֹ": מְקַנֵּא לָהּ עַל פִּי שְׁנַיִם - אִם בָּא לְהַשְׁקוֹתָהּ צָרִיךְ לְהָבִיא שְׁנֵי עֵדִים שֶׁאָמַר לָהּ בִּפְנֵיהֶם אַל תִּסָּתְרִי עִמּוֹ: וּמַשְׁקֶה עַל פִּי עֵד אֶחָד אוֹ עַל פִּי עַצְמוֹ - וַאֲפִלּוּ אֵין עֵדִים שֶׁנִּסְתְּרָה אֶלָּא עֵד אֶחָד, אוֹ הוּא עַצְמוֹ אוֹמֵר רְאִיתִיהָ שֶׁנִּסְתְּרָה: רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר - צָרִיךְ שְׁנֵי עֵדִים אַף לִסְתִירָתָהּ

Rashi observa que a própria mishná adota a linguagem do versículo bíblico "e ele suspeitar de sua esposa" para nomear o ato de advertir. Explica que, se o marido deseja chegar ao ponto de fazê-la beber as águas amargas, ele precisa primeiro ter trazido duas testemunhas para a advertência, dizendo diante delas "não te recluas com fulano". Quanto à reclusão em si — o momento em que ela é vista a sós com o homem indicado —, para Rabi Eliezer basta uma só testemunha, ou até o próprio marido relatando o que viu, para que ela fique proibida por dúvida; Rabi Yehoshua, porém, exige também aqui duas testemunhas.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 1:1
הקנוי הוא המניעה מהדברים הדומים להביא החשד וצריך שימנענה וימחה בידה בפני ב' עדים ואם נסתרה אח"כ בפני ב' עדים נאסרה עליו עד שישקנה מי המרים כמו שיתבאר

Rambam define o kinuy como o ato de impedir a esposa de fazer coisas que possam trazer suspeita sobre ela, exigindo que o marido a advirta e a repreenda diante de duas testemunhas; se, depois disso, ela se reclui diante de duas testemunhas, fica proibida a ele até que beba as águas amargas e seja considerada íntegra por elas — sendo que, na ausência do Templo, essa proibição se torna permanente, já que hoje não há como administrar as águas da sotá.

Bartenura · רע״ב
Sotá 1:1
הַמְּקַנֵּא לְאִשְׁתּוֹ. אַף עַל גַּב דְּהַמְּקַנֵּא מַשְׁמַע דִּיעֲבַד אִין לְכַתְּחִלָּה לֹא, הַהֲלָכָה הִיא שֶׁחַיָּב אָדָם לְקַנְאוֹת לְאִשְׁתּוֹ אִם הִיא צְרִיכָה לְכָךְ

Bartenura observa que, embora a expressão "quem suspeita" pareça descrever algo que se faz apenas depois do fato consumado — e não algo recomendado de antemão —, a halachá estabelece que o marido é de fato obrigado a advertir sua esposa quando há necessidade real disso. Sobre a disputa final, nota que a halachá segue Rabi Yehoshua, exigindo duas testemunhas também para a reclusão; ainda assim, a Guemará ensina que, na prática, um homem não deveria hoje advertir sua esposa nem mesmo a sós entre os dois, por temor de que a reclusão subsequente a proíba para sempre, já que não há mais como administrar as águas da sotá.