Seder Moed · Massechet Shekalim · Perek ד׳ · Mishná 3 de 9
O excedente dos restos da câmara
מוֹתַר שְׁיָרֵי הַלִּשְׁכָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR
A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Depois de tratar do que vem da teruma e do que vem dos restos da câmara, a mishná pergunta o que fazer com o excedente que sobra depois de cobertas as necessidades da cidade — e registra o debate sobre se é permitido ao Templo lucrar comercialmente com esse dinheiro.
O excedente dos restos da câmara, o que faziam com ele? Compravam com ele vinhos, óleos e farinhas finas, e o lucro pertencia ao Templo — palavras de Rabi Yishmael. — Segundo Rabi Yishmael, depois de cobertas as necessidades da cidade com os restos da câmara, o excedente ainda remanescente era investido na compra de vinhos, óleos e farinhas finas — produtos que o próprio Templo precisava regularmente para libações e oferendas — e depois revendidos com lucro a quem precisasse deles, sendo esse lucro incorporado ao patrimônio do Templo.
Rabi Akiva diz: não se lucra com o que pertence ao Templo, nem com o que pertence aos pobres. — Rabi Akiva rejeita esse tipo de operação comercial: tanto o dinheiro consagrado quanto o dinheiro destinado aos pobres não devem ser usados como capital de giro para gerar lucro, pois não é apropriado ao Templo parecer necessitado de tal expediente, e há o risco de que, na urgência de socorrer um pobre, o dinheiro esteja imobilizado num negócio em andamento. A lei segue Rabi Akiva.
מוֹתַר שְׁיָרֵי הַלִּשְׁכָּה מֶה הָיוּ עוֹשִׂין בָּהֶן, לוֹקְחִין בָּהֶן יֵינוֹת, שְׁמָנִים וּסְלָתוֹת, וְהַשָּׂכָר לַהֶקְדֵּשׁ, דִּבְרֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אֵין מִשְׂתַּכְּרִין מִשֶּׁל הֶקְדֵּשׁ וְלֹא מִשֶּׁל עֲנִיִּים:
Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה
Melachim Bet 12:15-16
כִּי־לְעֹשֵׂי הַמְּלָאכָה יִתְּנֻהוּ וְחִזְּקוּ־בוֹ אֶת־בֵּית יְהֹוָה׃ וְלֹא יְחַשְּׁבוּ אֶת־הָאֲנָשִׁים אֲשֶׁר יִתְּנוּ אֶת־הַכֶּסֶף עַל־יָדָם לָתֵת לְעֹשֵׂי הַמְּלָאכָה כִּי בֶאֱמוּנָה הֵם עֹשִׂים׃
Pois o davam aos que faziam a obra, e com ele reparavam a Casa do Eterno. E não prestavam contas aos homens em cujas mãos entregavam o dinheiro para dar aos que faziam a obra, pois com fidelidade eles agiam.
Na reforma do Templo sob o rei Yoash, o dinheiro consagrado era confiado diretamente aos artesãos, sem prestação de contas, "pois com fidelidade eles agiam" — um modelo de administração simples e direta do dinheiro do Templo, sem intermediação comercial. É esse mesmo espírito de cautela com o dinheiro consagrado que sustenta a posição de Rabi Akiva: o Templo deve permanecer acima de qualquer suspeita de lucrar às custas do que é sagrado ou do que pertence aos necessitados.
Halachot · הֲלָכוֹת
Rambam · Perush HaMishná, Shekalim 4:3
רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אֵין מִשְׂתַּכְּרִין בְּמָמוֹן שֶׁל הֶקְדֵּשׁ וְלֹא בְּמָמוֹן עֲנִיִּים, וְהִלְכְתָא כְּרַבִּי עֲקִיבָא:
Rabi Akiva diz: não se lucra com o dinheiro do Templo nem com o dinheiro dos pobres; e a lei é como Rabi Akiva.
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shekalim 4:3
מוֹתַר שְׁיָרֵי לִשְׁכָּה כוּ׳: רְצוֹנוֹ לוֹמַר כָּל מַה שֶּׁמִּשְׂתַּכֵּר בָּהֶן, בֵּין מִקְחָן בֵּין מִמְכָּרָן, לְאוֹתָן שֶׁמַּקְרִיבִין הַקָּרְבָּנוֹת מִשְּׁאָר הָעָם, לַהֶקְדֵּשׁ. וְרַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אֵין מִשְׂתַּכְּרִין בְּמָמוֹן שֶׁל הֶקְדֵּשׁ וְלֹא בְּמָמוֹן עֲנִיִּים. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא:
"O excedente dos restos da câmara etc.": quer dizer, tudo o que se lucra neles — seja na compra, seja na venda — para aqueles que oferecem os sacrifícios do restante do povo, pertence ao Templo. E Rabi Akiva diz: não se lucra com o dinheiro do Templo nem com o dinheiro dos pobres. E a lei é como Rabi Akiva.
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shekalim 4:3
מוֹתַר שְׁיָרֵי הַלִּשְׁכָּה. מַה שֶּׁנִּשְׁאַר אַחַר שֶׁנַּעֲשָׂה מֵהֶן תִּקּוּן צָרְכֵי הָעִיר: לוֹקְחִים מֵהֶן יֵינוֹת שְׁמָנִים וּסְלָתוֹת. וּמוֹכְרִים אוֹתָן לְמִי שֶׁצָּרִיךְ יַיִן לִנְסָכִים וּשְׁמָנִים וּסְלָתוֹת לִמְנָחוֹת: אֵין מִשְׂתַּכְּרִין בְּשֶׁל הֶקְדֵּשׁ. שֶׁאֵין עֲנִיּוּת בְּמָקוֹם עֲשִׁירוּת, וּגְנַאי הוּא לַהֶקְדֵּשׁ: וְאַף לֹא בְּשֶׁל עֲנִיִּים. דִּלְמָא מִתְרְמֵי עָנִי וְלֵיכָּא לְמֵיתָב לֵיהּ. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא:
"O excedente dos restos da câmara" — o que restou depois de feito com eles o reparo das necessidades da cidade. "Compram deles vinhos, óleos e farinhas finas" — e os vendem a quem precisa de vinho para as libações e óleos e farinhas finas para as oferendas.
"Não se lucra com o que é do Templo" — pois não há pobreza onde há riqueza, e é uma vergonha para o Templo. "Nem tampouco com o que é dos pobres" — para que não aconteça de haver um pobre e não haja o que lhe dar. E a lei é como Rabi Akiva.
Massechet Shekalim não possui Guemará no Talmud Bavli — este tratado só tem Guemará no Talmud Yerushalmi, restando no Bavli apenas a Mishná e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.