Seder Moed · Massechet Shekalim · Perek ד׳ · Mishná 1 de 9

Os usos da teruma e os guardiões dos rebentos

הַתְּרוּמָה מֶה הָיוּ עוֹשִׂין בָּהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre o Perek Dalet — o maior do tratado — com a pergunta sobre o destino da teruma da câmara: a lista dos sacrifícios públicos que ela financiava, e o caso dos guardiões pagos dos rebentos espontâneos no ano sabático, necessários para o ômer e os dois pães, que só podem vir de grão novo da Terra de Israel.

A teruma, o que faziam com ela? Compravam com ela os tamidin e os mussafin e suas libações, o ômer, os dois pães e o pão da proposição, e todos os sacrifícios públicos.A teruma da câmara — a primeira porção retirada dos três cofres grandes, conforme já descrito no perek anterior — era a fonte de financiamento de todo o serviço público diário e sazonal do Templo: as ofertas queimadas contínuas da manhã e da tarde, as ofertas adicionais de Shabat, Rosh Chodesh e das festas, suas libações de vinho, farinha e óleo, o ômer de Pêssach, os dois pães de Shavuot, o pão da proposição semanal, e todo e qualquer sacrifício custeado pelo público como um todo.

Os guardiões dos rebentos no ano sabático recebiam seu salário da teruma da câmara.No sétimo ano, quando a terra é hefker e ninguém deveria colher para si, ainda assim era necessário trazer o ômer em Pêssach e os dois pães em Shavuot exclusivamente de grão novo crescido na Terra de Israel. Por isso, o tribunal contratava guardiões para proteger uma parte dos rebentos espontâneos daquele ano contra quem os colhesse, e pagava esses guardiões com dinheiro da teruma — já que a necessidade do sacrifício público é equiparada ao próprio sacrifício público.

Rabi Yossei diz: também quem quiser pode se oferecer voluntariamente como guardião gratuito. Disseram-lhe: também tu deves admitir que eles não vêm senão do que pertence ao público.Rabi Yossei permite que um particular guarde os rebentos de graça e depois traga deles o ômer e os dois pães como sua própria doação, pois entende que um sacrifício assim trazido — ainda que originado da iniciativa de um indivíduo — se transforma em sacrifício público quando aceito pela congregação. Os sábios discordam: se o grão foi guardado e adquirido por um particular sem remuneração, ele não veio "do que pertence ao público", contrariando a exigência de que o ômer e os dois pães sejam, desde o início, propriedade coletiva.

הַתְּרוּמָה מֶה הָיוּ עוֹשִׂין בָּהּ, לוֹקְחִין בָּהּ תְּמִידִין וּמוּסָפִין וְנִסְכֵּיהֶם, הָעֹמֶר וּשְׁתֵּי הַלֶּחֶם וְלֶחֶם הַפָּנִים, וְכָל קָרְבְּנוֹת הַצִּבּוּר. שׁוֹמְרֵי סְפִיחִים בַּשְּׁבִיעִית, נוֹטְלִין שְׂכָרָן מִתְּרוּמַת הַלִּשְׁכָּה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, אַף הָרוֹצֶה מִתְנַדֵּב שׁוֹמֵר חִנָּם. אָמְרוּ לוֹ, אַף אַתָּה אוֹמֵר, שֶׁאֵינָן בָּאִין אֶלָּא מִשֶּׁל צִבּוּר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bemidbar 28:2
צַו אֶת־בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְאָמַרְתָּ אֲלֵהֶם אֶת־קָרְבָּנִי לַחְמִי לְאִשַּׁי רֵיחַ נִיחֹחִי תִּשְׁמְרוּ לְהַקְרִיב לִי בְּמוֹעֲדוֹ׃
Ordena aos filhos de Israel, e dize-lhes: a minha oferta, o meu pão para as minhas ofertas queimadas, o meu aroma agradável, cuidareis de oferecer a mim em seu tempo determinado.

O mandamento de trazer "a minha oferta, o meu pão" em seu tempo determinado é a base bíblica de todo o sistema de sacrifícios públicos diários e sazonais listados nesta mishná — todos financiados pela teruma da câmara, precisamente para que sejam, em todo sentido, "pão" oferecido pela coletividade de Israel, e não por qualquer indivíduo isoladamente. É esse mesmo princípio de propriedade coletiva que está em jogo no debate entre Rabi Yossei e os sábios sobre o guardião voluntário dos sefichim.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shekalim 4:1
תְּרוּמַת הַלִּשְׁכָּה מַה יֵּעָשֶׂה בָּהּ. לוֹקְחִין מִמֶּנָּה תְּמִידִין שֶׁל כָּל יוֹם וְהַמּוּסָפִין וְכָל קָרְבְּנוֹת הַצִּבּוּר וְנִסְכֵּיהֶם וְהַמֶּלַח שֶׁמּוֹלְחִין בּוֹ כָּל הַקָּרְבָּנוֹת... וְהָעֹמֶר וּשְׁתֵּי הַלֶּחֶם וּפָרָה אֲדֻמָּה וְשָׂעִיר הַמִּשְׁתַּלֵּחַ וְלָשׁוֹן שֶׁל זְהוֹרִית שֶׁקּוֹשְׁרִין בֵּין קַרְנָיו. כָּל אֵלּוּ בָּאִין מִתְּרוּמַת הַלִּשְׁכָּה:

A teruma da câmara, o que se faz com ela? Compram com ela os tamidin diários, os mussafin e todos os sacrifícios públicos e suas libações, e o sal com que se salgam todos os sacrifícios... e o ômer, os dois pães, a vaca vermelha, o bode enviado e a língua de escarlate que se amarra entre seus chifres. Todos esses vêm da teruma da câmara.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shekalim 4:5
בִּשְׁנַת הַשְּׁמִטָּה שֶׁהִיא הֶפְקֵר שׂוֹכְרִין בֵּית דִּין שׁוֹמְרִין שֶׁיִּשְׁמְרוּ מִקְצָת סְפִיחִים שֶׁצָּמְחוּ כְּדֵי שֶׁיָּבִיאוּ מֵהֶן הָעֹמֶר וּשְׁתֵּי הַלֶּחֶם שֶׁאֵין בָּאִים אֶלָּא מִן הֶחָדָשׁ. וְאֵלּוּ הַשּׁוֹמְרִין נוֹטְלִין שְׂכָרָן מִתְּרוּמַת הַלִּשְׁכָּה:

No ano da shemitá, que é hefker, o tribunal contrata guardiões para que guardem parte dos sefichim que brotaram, a fim de trazer deles o ômer e os dois pães, que não vêm senão do novo; e esses guardiões recebem seu salário da teruma da câmara.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shekalim 4:1
הַתְּרוּמָה מֶה הָיוּ עוֹשִׂין בָּהּ וְכוּ׳: הַצְּמָחִים שֶׁל שָׁנָה שְׁבִיעִית נִקְרָאִים סָפִיחַ, לְפִי שֶׁאֵין זוֹרְעִין בּוֹ דָּבָר, וְהַצּוֹמֵחַ בָּהּ הוּא מִמַּה שֶּׁנִּזְרַע בַּשָּׁנָה שֶׁעָבְרָה, וְקָצְרוּ אוֹתוֹ, וְהוּא נִקְרָא סָפִיחַ. וְיָדוּעַ כִּי כָּל מַה שֶּׁתּוֹצִיא אוֹתָהּ שָׁנָה הוּא הֶפְקֵר, וְאוֹכְלִין אוֹתוֹ כָּל הָעָם בְּשָׁוֶה; וְאָנוּ צְרִיכִין בְּכָל שָׁנָה עֹמֶר הַתְּנוּפָה וּשְׁתֵּי הַלֶּחֶם מִן הֶחָדָשׁ, וְהוּא אָמְרָם: כָּל קָרְבְּנוֹת צִבּוּר וְיָחִיד בָּאִים מִן הָאָרֶץ וּמִחוּצָה לָאָרֶץ, מִן הֶחָדָשׁ וּמִן הַיָּשָׁן, חוּץ מִן הָעֹמֶר וּשְׁתֵּי הַלֶּחֶם שֶׁאֵינָן בָּאִין אֶלָּא מִן הֶחָדָשׁ וּמִן הָאָרֶץ. וּלְפִיכָךְ נִצְטָרֵךְ לִשְׂכֹּר שׁוֹמְרִים לִשְׁמֹר קְצָת הַסְּפִיחִים, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִשְׁלְחוּ בְנֵי אָדָם יָדָם בָּהֶם בִּשְׁנַת הַשְּׁמִטָּה, וְלֹא יִמָּצֵא מִמַּה שֶּׁנָּבִיא עֹמֶר וּשְׁתֵּי הַלֶּחֶם. וְאוֹתָן הַמָּעוֹת שֶׁנּוֹתְנִין לָהֶם בִּשְׂכָרָם, הוּא כְּאִלּוּ הָיוּ קוֹנִין בּוֹ הָעֹמֶר וּשְׁתֵּי הַלֶּחֶם. וְאָמַר רַבִּי יוֹסֵי כִּי מִי שֶׁהִתְנַדֵּב לִשְׁמֹר בְּחִנָּם, שֶׁהָעֹמֶר וּשְׁתֵּי הַלֶּחֶם שֶׁלּוֹ בְּלִי סָפֵק, לְפִי שֶׁהֵם הֶפְקֵר וְהוּא שׁוֹמְרָם בְּלֹא שְׂכִירוּת וֶהֱבִיאָן, שֶׁמֻּתָּר לְהַקְרִיבָן וְהַצִּבּוּר יוֹצְאִין בָּהֶם יְדֵי חוֹבָתָן. אִם כֵּן הוּא סוֹבֵר שֶׁמִּשְׁתַּנֶּה קָרְבַּן יָחִיד לְקָרְבַּן צִבּוּר. וְחָלְקוּ עָלָיו חֲכָמִים בָּזֶה, וְאָמְרוּ: אִי אַתָּה מוֹדֶה כִּי הָעֹמֶר וּשְׁתֵּי הַלֶּחֶם אֵינָן בָּאִין אֶלָּא מִשֶּׁל צִבּוּר, וְאֵיךְ יִתְנַדֵּב אוֹתָן יָחִיד, כֵּיוָן שֶׁאֵין לָהֶם בַּשָּׁנָה הַשְּׁבִיעִית דָּמִים אֶלָּא לִשְׁמִירָתָן? וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי:

"A teruma, o que faziam com ela etc.": As plantas do ano sabático são chamadas sefichim, porque nada se semeia nele, e o que cresce nele provém do que foi semeado no ano anterior, e o colhem, e é chamado sefiach. E é sabido que tudo o que aquele ano produz é hefker, e todo o povo o come igualmente; e precisamos, a cada ano, do ômer da tenufá e dos dois pães do trigo novo — pois todos os sacrifícios públicos e particulares vêm da terra e de fora da terra, do novo e do velho, exceto o ômer e os dois pães, que não vêm senão do novo e da terra.

Por isso precisamos contratar guardiões para guardar parte dos sefichim, para que ninguém estenda a mão sobre eles no ano da shemitá, e não falte, do que trazemos, o ômer e os dois pães; e o dinheiro que lhes dão como salário é como se com ele comprassem o ômer e os dois pães. E disse Rabi Yossei que quem se ofereceu voluntariamente para guardar de graça, o ômer e os dois pães são seus sem dúvida, pois são hefker e ele os guarda sem remuneração, e é permitido oferecê-los, e o público cumpre com eles sua obrigação — de modo que ele entende que um sacrifício individual se transforma em sacrifício público. E os sábios discordaram dele, dizendo: não admites tu mesmo que o ômer e os dois pães não vêm senão do que pertence ao público? E como pode um particular oferecê-los voluntariamente, já que no ano sabático eles não têm valor senão pela sua guarda? E a lei não é como Rabi Yossei.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shekalim 4:1
הַתְּרוּמָה מֶה הָיוּ עוֹשִׂין בָּהּ. מַה שֶּׁנָּתְנוּ לְתוֹךְ הַקֻּפּוֹת מַה עוֹשִׂין בָּהֶן: וְכָל קָרְבְּנוֹת הַצִּבּוּר. לַאֲתוֹיֵי קְטֹרֶת: סְפִיחִים. תְּבוּאָה הָעוֹלָה מֵאֵלֶיהָ מִמַּה שֶּׁנָּשַׁר בַּקָּצִיר, וְנוֹתְנִים שָׂכָר לַשּׁוֹמְרִים שֶׁלֹּא יְלַקְּטוּם עֲנִיִּים בַּשְּׁבִיעִית, וּמְבִיאִים מֵהֶם עֹמֶר בְּפֶסַח וּשְׁתֵּי הַלֶּחֶם בָּעֲצֶרֶת, שֶׁאֵינָם בָּאִים אֶלָּא מִן הֶחָדָשׁ וּמִן הָאָרֶץ; וְנוֹתְנִים שְׂכָרָם מִן הַתְּרוּמָה, דְּצֹרֶךְ קָרְבָּן כְּקָרְבָּן דָּמֵי: שׁוֹמֵר חִנָּם. וְאַף עַל גַּב דְּקָנָה אוֹתָם מִן הַהֶפְקֵר כְּשֶׁשָּׁמְרָם חִנָּם וֶהֱבִיאָם וַהֲרֵי הֵן שֶׁלּוֹ, רַבִּי יוֹסֵי סָבַר דְּקָרְבַּן יָחִיד מִשְׁתַּנֶּה לְקָרְבַּן צִבּוּר: אַף אַתָּה אוֹמֵר כוּ׳. כְּלוֹמַר אִי אַתָּה מוֹדֶה שֶׁאֵינָן בָּאִין אֶלָּא מִשֶּׁל צִבּוּר, וְאִם שׁוֹמְרָם חִנָּם וֶהֱבִיאָם וְזָכָה בָּהֶם נִמְצָא שֶׁאֵינָם בָּאִין מִשֶּׁל צִבּוּר, דְּסָבְרֵי רַבָּנָן קָרְבַּן יָחִיד אֵינוֹ מִשְׁתַּנֶּה לְשֶׁל צִבּוּר. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים:

"A teruma, o que faziam com ela" — o que colocavam dentro dos cofres, o que faziam com isso. "E todos os sacrifícios públicos" — para incluir o incenso.

"Sefichim" — o cereal que brota por si mesmo do que caiu na colheita. Dão salário aos guardiões para que os pobres não o colham no ano sabático, e trazem deles o ômer em Pêssach e os dois pães em Shavuot, que não vêm senão do novo e da terra; e dão seu salário da teruma, pois a necessidade do sacrifício equivale ao próprio sacrifício.

"Guardião gratuito" — e ainda que tenha adquirido do hefker quando os guardou de graça e os trouxe, e eis que são seus, Rabi Yossei entende que o sacrifício individual se transforma em sacrifício público. "Também tu deves dizer etc." — isto é, não admites tu que eles não vêm senão do que pertence ao público? E se os guarda de graça, os traz e os adquire, resulta que não vêm do que pertence ao público — pois os sábios entendem que o sacrifício individual não se transforma em sacrifício público. E a lei é como os sábios.

Massechet Shekalim não possui Guemará no Talmud Bavli — este tratado só tem Guemará no Talmud Yerushalmi, restando no Bavli apenas a Mishná e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.