Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Zayin · Mishná 2

As trinta e nove Avot Melachot

אֲבוֹת מְלָאכוֹת אַרְבָּעִים חָסֵר אֶחָת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A lista completa das trinta e nove categorias principais de trabalho proibido no Shabat, agrupadas por função — do plantio ao pão, da lã ao tecido, do couro à escrita, da construção ao domínio

As categorias principais de melachá são quarenta menos umatrinta e nove ao todo: o que semeia, e o que lavra, e o que ceifa, e o que enfeixa os molhos colhidos, o que debulha, e o que joeira ao vento, o que seleciona o refugo do alimento, o que mói, e o que peneira, e o que amassa, e o que assa. O que tosquia a lã, o que a alveja, e o que a carda, e o que a tinge, e o que a fia, e o que urde a trama no tear, e o que faz dois liços — amarrando fios ao suporte do tear, e o que tece dois fios, e o que rompe dois fios para fins construtivos. O que amarra um nó, e o que desata, e o que costura dois pontos, e o que rasga a fim de costurar dois pontos. O que caça a gazela, o que a abate, e o que a esfola, o que a sala — etapa do curtimento — e o que curte seu couro, e o que o raspa, e o que o corta em partes. O que escreve duas letras, e o que apaga a fim de escrever duas letras. O que constrói, e o que demole, o que apaga fogo, e o que acende fogo. O que golpeia com o martelo — para completar a fabricação de um utensílio — e o que transporta de um domínio a outro. Estas são as categorias principais de melachá, quarenta menos uma.

אֲבוֹת מְלָאכוֹת אַרְבָּעִים חָסֵר אֶחָת. הַזּוֹרֵעַ. וְהַחוֹרֵשׁ. וְהַקּוֹצֵר. וְהַמְעַמֵּר. הַדָּשׁ. וְהַזּוֹרֶה. הַבּוֹרֵר. הַטּוֹחֵן. וְהַמְרַקֵּד. וְהַלָּשׁ. וְהָאוֹפֶה. הַגּוֹזֵז אֶת הַצֶּמֶר. הַמְלַבְּנוֹ. וְהַמְנַפְּצוֹ. וְהַצּוֹבְעוֹ. וְהַטּוֹוֶה. וְהַמֵּסֵךְ. וְהָעוֹשֶׂה שְׁנֵי בָתֵּי נִירִין. וְהָאוֹרֵג שְׁנֵי חוּטִין. וְהַפּוֹצֵעַ שְׁנֵי חוּטִין. הַקּוֹשֵׁר. וְהַמַּתִּיר. וְהַתּוֹפֵר שְׁתֵּי תְפִירוֹת. הַקּוֹרֵעַ עַל מְנָת לִתְפֹּר שְׁתֵּי תְפִירוֹת. הַצָּד צְבִי. הַשּׁוֹחֲטוֹ. וְהַמַּפְשִׁיטוֹ. הַמּוֹלְחוֹ, וְהַמְעַבֵּד אֶת עוֹרוֹ. וְהַמּוֹחֲקוֹ. וְהַמְחַתְּכוֹ. הַכּוֹתֵב שְׁתֵּי אוֹתִיּוֹת. וְהַמּוֹחֵק עַל מְנָת לִכְתֹּב שְׁתֵּי אוֹתִיּוֹת. הַבּוֹנֶה. וְהַסּוֹתֵר. הַמְכַבֶּה. וְהַמַּבְעִיר. הַמַּכֶּה בַפַּטִּישׁ. הַמּוֹצִיא מֵרְשׁוּת לִרְשׁוּת. הֲרֵי אֵלּוּ אֲבוֹת מְלָאכוֹת אַרְבָּעִים חָסֵר אֶחָת:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A lista das trinta e nove melachot não é arbitrária: a Guemará (Shabat 49b) a deriva da justaposição, no texto da Torá, entre o preceito do Shabat e a construção do Mishkan — o Tabernáculo. Toda atividade necessária para erguer o Mishkan tornou-se, por essa justaposição, uma categoria proibida no Shabat.

Shemot (Êxodo) 35:1-3
וַיַּקְהֵל מֹשֶׁה אֶת־כָּל־עֲדַת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וַיֹּאמֶר אֲלֵהֶם... שֵׁשֶׁת יָמִים תֵּעָשֶׂה מְלָאכָה וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי יִהְיֶה לָכֶם קֹדֶשׁ שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן לַיהוָה... לֹא־תְבַעֲרוּ אֵשׁ בְּכֹל מֹשְׁבֹתֵיכֶם בְּיוֹם הַשַּׁבָּת
"E reuniu Moshé toda a congregação dos filhos de Israel, e lhes disse... Seis dias se fará trabalho, e no sétimo dia vos será santidade, Shabat de descanso ao Eterno... não acendereis fogo em nenhuma de vossas moradas no dia de Shabat."

Por que esta Mishná gira em torno deste versículo. É notável que Moshé reitera a proibição do Shabat precisamente no momento de reunir o povo para as instruções sobre a construção do Mishkan (Shemot 35:4 em diante). A Guemará (Shabat 49b) explica que essa justaposição não é casual: ela ensina que as trinta e nove melachot proibidas no Shabat são exatamente as que foram necessárias para erguer o Tabernáculo — desde o cultivo das plantas para os corantes, passando pela fiação e tecelagem das cortinas, o curtimento das peles de tachash, até a escrita das marcas nas tábuas para identificar seu par, e o golpe final de martelo que completava cada utensílio. Por isso a Mishná encerra com "o que transporta de um domínio a outro" — pois os próprios levitas transportavam as partes do Mishkan de um lugar a outro durante as jornadas no deserto. Cada verbo desta lista, portanto, remonta a um ato concreto realizado na construção da Casa de Deus, e é dali que a Torá extrai a "melachá" proibida no Shabat.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam — a lista das trinta e nove melachot abre justamente o tratado das leis de Shabat.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 7:1
מְלָאכוֹת שֶׁחַיָּבִין עֲלֵיהֶן סְקִילָה וְכָרֵת בְּמֵזִיד אוֹ קָרְבַּן חַטָּאת בִּשְׁגָגָה. מֵהֶן אָבוֹת וּמֵהֶן תּוֹלָדוֹת. וּמִנְיַן כָּל אֲבוֹת מְלָאכוֹת אַרְבָּעִים חָסֵר אַחַת. וְאֵלּוּ הֵן: הַחֲרִישָׁה, וְהַזְּרִיעָה, וְהַקְּצִירָה, וְהָעִמּוּר, וְהַדִּישָׁה, וְהַזְּרִיָּה, וְהַבְּרִירָה, וְהַטְּחִינָה, וְהַהַרְקָדָה, וְהַלִּישָׁה, וְהָאֲפִיָּה, וְהַגְּזִיזָה, וְהַלִּבּוּן, וְהַנִּפּוּץ, וְהַצְּבִיעָה, וְהַטְּוִיָּה, וַעֲשִׂיַּת הַנִּירִין, וְהַנְסָכַת הַמַּסֵּכָה, וְהָאֲרִיגָה, וְהַבְּצִיעָה, וְהַקְּשִׁירָה, וְהַהַתָּרָה, וְהַתְּפִירָה, וְהַקְּרִיעָה, וְהַבִּנְיָן, וְהַסְּתִירָה, וְהַכָּאָה בְּפַטִּישׁ, וְהַצִּידָה, וְהַשְּׁחִיטָה, וְהַהַפְשָׁטָה, וְהַהַעֲבָדָה, וּמְחִיקַת הָעוֹר, וְחִתּוּכוֹ, וְהַכְּתִיבָה, וְהַמְּחִיקָה, וְהַשִּׂרְטוּט, וְהַהַבְעָרָה, וְהַכִּבּוּי, וְהַהוֹצָאָה מֵרְשׁוּת לִרְשׁוּת.
Melachot pelas quais se é obrigado ao apedrejamento e ao caret quando feitas de propósito, ou à oferta de pecado quando por engano: delas há avot e delas há toladot. E o número de todas as avot melachot é quarenta menos uma. E são estas: a lavoura, e a semeadura, e a colheita, e o enfeixamento, e a debulha, e a joeira, e a seleção, e a moagem, e a peneiração, e o amasso, e a cozedura, e a tosquia, e o alvejamento, e a cardação, e o tingimento, e a fiação, e a confecção dos liços, e a urdidura da trama, e a tecelagem, e o rompimento, e o atar, e o desatar, e a costura, e o rasgar, e a construção, e a demolição, e o golpe de martelo, e a caça, e o abate, e o esfolar, e o curtimento, e a raspagem do couro, e seu corte, e a escrita, e o apagar, e o traçar linhas, e o acender, e o apagar de fogo, e o transportar de um domínio a outro.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre a estrutura da lista, o critério que distingue avá de toladá, e os detalhes de cada categoria de melachá relacionada à construção do Mishkan.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 7:2
מעמר הוא הגודש העמרים הקצורים אחת על אחת... והמכה בפטיש פטיש כלי שמשתמשין בו הצורפים ואומני ברזל ונחשת... ואלו האבות כולם דמיונות... והבן זה הענין ושמרהו וזכור אותו תמיד כשתראה מלאכה מן המלאכות תעיין תולדות איזה אב היא.

Meamer — "o que enfeixa" — é aquele que amontoa os molhos colhidos, um sobre o outro; e amir é o nome do feixe de trigo, cevada e outros grãos que as pessoas colhem.

Borer — "o que seleciona" — é aquele que limpa e separa as pedras e detritos e semelhantes do grão. Merakêd — "o que peneira" — é o que crivar a farinha para separá-la de seu farelo. Menapetzô — "o que a carda" — é golpear com a vara. E hamessêch é o que urde a trama, derivado de "a máscara fundida" (Yeshayahu 25).

E macê bapatish — "o que golpeia com o martelo" — o martelo é o utensílio usado pelos ourives e ferreiros e latoeiros, é conhecido, como está escrito: "e como martelo que despedaça a rocha" (Yirmiyahu 23); e "o que golpeia com o martelo" refere-se mesmo ao momento de completar a fabricação, como fazem os artesãos que golpeiam sobre a bigorna no momento do golpe final — pois é costume deles dar golpes sobre o corpo da bigorna no momento do golpe; e por isso, todo aperfeiçoamento e conclusão de uma melachá, como o alisar e o polir e os tipos de acabamento, todos são toladot de "o que golpeia com o martelo" — e é o que disseram: "tudo que tem nele conclusão de melachá é obrigado por 'golpear com o martelo'".

E todas estas avot são categorias exemplares: quando disseram "o que ceifa" é uma das avot melachot, da mesma forma todo aquele que arranca uma planta ligada ao solo, quando sua intenção é aquilo que arranca — como quem colhe figos, ou vindima uvas, ou bate azeitonas — cada uma dessas melachot não se diz que são toladot de "o que ceifa", mas são ceifa mesma... E entenda este assunto, guarde-o, e recorde-o sempre: quando vir uma melachá qualquer, examine de qual avá ela é toladá, e não confunda o que é uma avá com o que é uma toladá, conforme lhe expliquei.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 7:2
הַזּוֹרֵעַ וְהַחוֹרֵשׁ. הָא דְּלֹא תָּנָא הַחוֹרֵשׁ בְּרֵישָׁא... הָאוֹפֶה. לֹא הַוְיָא בַּמִּשְׁכָּן, דְּאֵין אֲפִיָּה אֶלָּא בַּפַּת... הַצָּד צְבִי. וְכָל מְלֶאכֶת עוֹרוֹ נוֹהֶגֶת בַּתְּחָשִׁים בְּעוֹרוֹתֵיהֶן... וּמִנְיָנָא דְּרֵישָׁא דְּמָנָה אֲבוֹת מְלָאכוֹת אַרְבָּעִים חָסֵר אַחַת... אֲתָא לְאַשְׁמְעִינַן דַּאֲפִלּוּ עָבֵיד אֱינַשׁ כָּל מְלָאכוֹת שֶׁבָּעוֹלָם בְּשַׁבָּת אַחַת, בְּהֶעְלֵם אַחַת, אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּתְחַיֵּב יוֹתֵר מֵאַרְבָּעִים חַטָּאוֹת.

"O que semeia e o que lavra": o fato de a Mishná não ensinar "o que lavra" primeiro, como é o costume de toda a terra — lavrar antes de semear — vem nos ensinar que, se a terra estava dura e a lavrou e semeou, e depois voltou e a lavrou novamente, é obrigado por uma segunda lavoura, por "o que lavra".

"O que colhe" — refere-se às sementes; e "o que apanha" — nas árvores — é obrigado por "o que colhe". "O que enfeixa" — recolhe sementes já arrancadas e as ajunta num só lugar. "O que joeira" — com a pá, ao vento. "O que seleciona" — o refugo, com as mãos ou com uma peneira. "E o que peneira" — com a peneira fina; e ainda que estas três sejam semelhantes entre si, pois todas servem para separar o refugo do alimento, foram contadas cada uma por si, porque todas as três existiram no Mishkan, ainda que se assemelhem umas às outras — ou ainda, porque não eram feitas ao mesmo tempo, mas uma após a outra.

"O que assa" — não existiu no Mishkan, pois só há "assar" no pão, e o pão não se relaciona com a obra do Mishkan; mas a Mishná seguiu a ordem natural do pão. No entanto, "o que cozinha", que é semelhante à melachá de assar, existiu no Mishkan, nos corantes da tinta de techêlet, argamán e tolaat shani. E aquele que mexe na panela, ou coloca uma tampa sobre a panela que está sobre o fogo, é obrigado por "o que cozinha". E todas essas primeiras categorias listadas na Mishná — "o que semeia", "o que colhe", "o que debulha" etc. — todas existiram nos corantes usados na tintura da obra do Mishkan.

"O que caça a gazela" — e toda a melachá de seu couro se aplica aos techashimanimais cujas peles cobriam o Mishkan.

E a contagem inicial, que enumerou as avot melachot como quarenta menos uma, apesar de voltar a contá-las uma a uma ao longo da lista, veio nos ensinar que mesmo que alguém realize todas as melachot do mundo num único Shabat, num único momento de inconsciência, é impossível que seja obrigado a mais de quarenta ofertas de pecado — pois todas as demais melachot são toladot destas avot, de modo que, se fez uma avá e sua toladá, não é obrigado senão a uma.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 73a
מתני' הזורה - ברחת לרוח: הבורר - פסולת בידיו: המרקד - בנפה... הגוזז צמר - וכל שאר מלאכות שייכי בצמר של מלאכת המשכן: המלבנו - מכבסו בנהר: המנפצו - קרפי"ר בלע"ז: המיסך - אורדי"ר... הצד את הצבי - וכל מלאכת עורו נוהגת בתחשים למשכן בעורותיהן... כותב ומוחק - לקמן מפרש למאי מיבעיא למשכן שכן רושמין על קרשי המשכן לידע איזה בן זוגו... מכה בפטיש - הוא גמר כל מלאכה שכן אומן מכה בקורנס על הסדן להחליקו בגמר מלאכה.

"Nossa Mishná: 'o que joeira'" — com a pá, ao vento. "O que seleciona" — o refugo, com as mãos. "O que peneira" — com a peneira; e na Guemará se pergunta: não são estas três a mesma coisa, já que todas servem para separar o refugo do alimento? Respondem que, sim, tecnicamente são a mesma função, mas foram feitas as três no Mishkan, cada uma em seu momento, e por isso contadas separadamente.

"O que assa" — não esteve no Mishkan, pois "assar" só se aplica ao pão, e o pão não se relaciona à obra do Mishkan; mas o texto seguiu a ordem natural do processo de fazer pão. E na Guemará se pergunta por que a Mishná deixou de mencionar "o que cozinha", que de fato existiu nos corantes, e mencionou "o que assa" em seu lugar — e o tamanho mínimo que gera obrigação nestas melachot é o de uma geroguereto tamanho de um figo seco — exceto "o que lavra", cujo tamanho mínimo é qualquer quantidade, como se explica adiante, no capítulo "HaBoné".

"O que tosquia a lã" — e todas as demais melachot relacionadas se ligam à lã de techêlet usada na obra do Mishkan. "O que a alveja" — lava-a no rio. "O que a carda" — golpeia-a com vara, em francês antigo carpir. "O que urde" — em francês antigo ourdir. "Dois liços" — quando se colocam dois fios dentro do "bet nir" — o suporte do tear. ... "O que rompe" — separa os fios da trama sobre a urdidura, ou a urdidura sobre a trama, para fins de tecelagem — e todas estas, de "o que urde" em diante, até "o que amarra" e "o que desata", relacionam-se com as cortinas do Mishkan.

"O que caça a gazela" — e toda a melachá de seu couro se aplica aos techashim, cujas peles cobriam o Mishkan. "O que sala" — o couro. "O que raspa" — remove seu pelo. "O que corta" — apara e corta em tiras e sandálias.

"O que escreve e o que apaga" — estas melachot existiram no Mishkan, pois se marcavam as tábuas para saber qual era o seu par, escrevendo uma letra numa e outra letra noutra, e às vezes se errava e se apagava. "O que apaga e o que acende" — no fogo sob a panela dos corantes. "O que golpeia com o martelo" — é a conclusão de toda melachá, pois o artesão golpeia sobre a bigorna no momento da conclusão da melachá; e nossa Mishná também não obriga por "golpear com o martelo" senão no momento de concluir a melachá.